02 maio 2009

A Batalha.

Andei, durante muito tempo, com um alvo desenhado no meio do peito.
E como se não bastasse ser uma mira ambulante, ainda gostava de abrir bem os braços, para abraçar o mundo e tudo que estivesse dentro dele.
Tentando fazer isso, fui atingida algumas centenas de vezes.
E quando decidi apagar a mira estampada perto do meu coração, vi que não saía.
Nem com alvejante, nem com álcool, nem com receitas caseiras utilizando limões.
Nem fazendo uma tatuagem por cima, nem colocando um broche para distrair a atenção do atirador.

Assustada diante do perigo iminente, que me acompanharia pela vida inteira - com aquele alvo ali cravejado - tratei logo de me disfarçar.
Não poderia continuar pelo mundo; não tão indefesa, não tão vulnerável.
Porque o mundo, meu amigo, era uma trincheira.
Todos estavam armados e todos eram bons de pontaria.
Todos, menos eu.
Eu era o alvo.

Foi o que pensei na ocasião.

Por isso, vesti uma fantasia e coloquei uma máscara e pintei o cabelo e aprendi umas gírias e passei a falar grosso e fingi ser outra pessoa.
Disfarçada, eles não haveriam de me encontrar.

Não adiantou.
Pelo contrário, muitíssimo pelo contrário.
Parecia ainda pior.
Eu assoviava, e fazia de conta que não era comigo, mas simplesmente não conseguia escapulir da artilharia pesada que o mundo todo possuía.
Travava-se uma guerra, era um genocídio geral.
E o pior: eles estavam em maior número e tinham armas infinitamente mais poderosas que as minhas.
Armas de autodestruição em massa.

Cansada, parei de lutar.
Ora, era impossível vencer.
Não existia nenhuma chance de ganhar aquela batalha.
- Água!
Foi o que eu pedi, enquanto levantava a bandeirola branca, derrotada como nunca estive antes.

E então percebi, com o queixo caído no chão: não havia guerra nenhuma.
Nunca houve, possivelmente nunca haverá.
Eu lutava era sozinha, contra inimigos irreais.
E o alvo, em meu peito, foi desenhado pelos punhos que chamo de meus.

Durante todo esse tempo, toda essa luta e toda essa troca de tiros, aconteceu entre um combatente só.
Um único soldado batalhando contra si mesmo.
Seu único, maior e mais fiel inimigo.