15 setembro 2008

Uma Carta por Benjamin - 1º capítulo

"Não existe Deus senão o homem"
(Aleister Crowley - O Livro da Lei)

1.

— Uma carta?
— Uma carta.
— Mas quem é que manda cartas, hoje em dia?
— Ah, eu achei romântico.

Benjamin caminhou até a mesa da cozinha e pegou o envelope pardo, seu nome e endereço digitados em uma máquina de escrever.
Riu, debochando.
— Aposto que o remetente anota seus recados em um pergaminho.
Ofélia não entendeu o que Benjamin quis dizer. De qualquer maneira, não era paga para entender nada. Só sabia que, uma vez por semana, deveria ir até o apertado apartamento de Benjamin, limpar a casa, recolher as cuecas, tentar tirar os grudes de cima das mesas e as bitucas de cigarro do chão. Também devia dar uma organizada em seu ainda mais minúsculo escritório, que chamava de agência de publicidade, mas era na verdade uma fábrica de panfletos vagabundos de mini mercados e motéis baratos.
Benjamin sequer notou o pouco caso da diarista. Afastou do sofá alguns pacotes de salgadinhos, uns vazios, uns ainda cheios, e espalhou migalhas pelo chão.
Não se importou.

Querido Benjamin,

Tenho tido pesadelos.
Sei que estou afastada de ti há muito tempo, como também sei que esta carta pode até te surpreender, mas quando parei para pensar sobre minha vida – minha miserável vida — a única pessoa que me veio à cabeça foi você.
Não gosto de pensar sobre tudo que já aconteceu, e ainda hoje acontece.
Não gosto porque me faz sofrer.
Agonia—me não ter ouvido os teus conselhos, não ter seguido o teu exemplo e hoje, imaginando a imensa alegria que seria poder te dar um abraço, te pagar um vinho, sentar contigo em um bar e jogar conversa fora, penso que nada valeu a pena.
Não valeu de nada a ideologia, como também nada valeu minha ambição desenfreada e cretina, que me colocou exatamente onde agora estou.
Toda noite, os pesadelos.
Reais, sinistros, perturbadores.
Acordo e eles continuam.
Porque me lembro de cada mínimo detalhe, Benjamin, e você sabe como sou detalhista.
Espero em breve te rever.
Saudades,
Madalena

Quando terminou, voltou ao início e leu novamente.
Depois mais uma vez, e outra, e somente na quinta vez balbuciou:
— Mas que porra é essa?
Ofélia nem interrompeu sua canção, distraída tentando lavar a louça, imunda e numerosa.
Encafifou—se.
Não conhecia nenhuma Madalena, muito menos uma que sofresse com pesadelos. Outra: jamais, em toda sua monótona existência, alguém lhe dissera que gostaria de ter seguido o seu exemplo ou escutado seus conselhos.
Até porque era um sujeito comum, ranzinza, sem namorada, sem ambição, sem vontade de fazer nada; atualmente também não gostava de vinhos, muito menos de bares ou conversas jogadas fora.
Cogitou a possibilidade de ter havido um engano, mas como seria possível? A carta tinha seu endereço, escrito corretamente, e seu nome completo.
Estranho.
E enquanto Ofélia cantarolava uma moda de viola, sentiu—se subitamente sem ar. Respirou fundo duas ou três vezes, mas não adiantou; tinha a impressão de que algo comprimia seus pulmões.
Precisou sair do apartamento para pegar um ar, e Benjamin não gostava de sair do seu apartamento.
Fizesse sol ou chuva, calor ou frio, ele sempre preferia ficar.
No entanto, naquele momento, as paredes do seu muquifo pareciam lhe roubar o oxigênio, e ele bandeou—se porta afora.
“Maldita nicotina” pensou, enquanto descia afobado pela escadaria do prédio e alcançava a calçada principal.