06 abril 2009

Pare.

Quando eu era criança, lembro que gostava de acordar bem tarde porque assim a manhã passava mais rápido.
Tinha a impressão que uma manhã levava seis meses para terminar.
Uma semana então, era uma eternidade, e o natal demorava décadas até chegar.
É impressionante a distância que nos separa dos nossos sete anos.
Hoje em dia, acordo as seis da matina e ainda não consigo fazer tudo o que acho que devo fazer até o meio-dia.
Uma semana passa na velocidade de um piscar de olho (com cisco dentro e tudo o mais) e o natal, bem; esse já não me interessa mais, e por isso, quando vejo, ele já está aqui.

O tempo é um corredor nato, bem preparado, treinado e patrocinado pela Nike, enquanto eu sou um gordinho que corre a São Silvestre na esperança de aparecer na Globo.

E justamente por conhecer minhas limitações, faço questão de não me afobar.
Vou ao meu tempo, devagar, devagarinho, do jeito que o diabo gosta; se ultrapassar minha barreira, rompo um tendão e fico de cama seis meses.

Então acontece assim: quando vejo que estou pisando no acelerador, páro tudo.
Não interessa o que estou fazendo, nem a importância que isso tem, nem o que está acontecendo, nem o prazo ou porcaria nenhuma: eu páro tudo.
Muitos me chamam de irresponsável e egoísta por causa disso, e pode até ser, mas o fato é que, se eu não faço assim, morro.
Sim, morro.
Não consigo porque não sei viver a 120 por hora.
E também acho uma idiotice esse papo de mãe-dedicada-mulher-sedutora-e-empresária-dinâmica que agora virou moda.
Ou sou mãe-dedicada, ou sou mulher-sedutora, ou sou empresária-dinâmica.
Se tentar os três ao mesmo tempo, dou uma de pato e não ando, não vôo e não nado direito.
Entro em pane.

O que?
Você consegue ser mãe-dedicada, mulher-sedutora e empresária-dinâmica, tudo enquanto pinta a unha, faz o almoço e prepara um relatório?
Suponhamos que sim.
Mas, e quando relaxa?
Quando deixa a louça para lavar amanhã e vai ver o Big Brother, numa tentativa óbvia de emburrecimento instantâneo?
Quando joga os pés para o céu e fica pensando bobagem?
Quando deixa o Dostoievsky de lado e vai ler uma revistinha de fofocas para relaxar?
Afinal de contas, quando é que você pára, minha filha?

Virar escravo de si próprio é o fim da picada e o cúmulo da burrice.

Agora me dêem licença, que esta conversa toda me cansou.
Vou ali arrancar aquele relógio idiota da parede e tirar uma sonequinha.
E depois que eu acordar, vou descansar um pouco, até porque ninguém é de ferro, oras pois!