11 março 2009

Violência.

Maria da Penha levou um tiro do marido, ficou paraplégica (sim, o machón atirou pelas costas) e fez do seu destino uma bandeira, chamando - na marra - a atenção do país inteiro para sua luta por justiça e amparo às vítimas de violência doméstica.
Seu nome virou lei, rigorosa, e desde sua implantação, o número de denúncias só vem aumentando.
Também graças a Maria, a tortura física e psicológica pela qual tantas e tantas mulheres se submetem, todos os dias, em todos os lugares e em todas as classes sociais, saiu das quatro paredes do ‘lar, doce lar’ e foi parar na tevê.

O que é ótimo, dado que a maioria das pessoas gosta muito é de disfarçar, fingir que não viu, olhar para o outro lado, cantarolar uma musiquinha.
Mesmo assim a violência continua, muitas vezes embaixo de nossas fuças, e é bom que todo mundo fique sabendo pois, mais do que um problema da vítima, este é um problema de toda a sociedade.
- Por quê?
Porque calar é consentir, amiguinho.

Que uma coisa fique bem clara: é preciso SIM meter a colher em briga de marido e mulher, se esta briga incluir socos, humilhações, tentativas de assassinato, ameaças.
- Eu não tenho nada a ver com isso.
Claro que não.
Ninguém nunca tem nada a ver com nada, não é mesmo?
Agora, aposto dez pila que para fazer fofoca dos sopapos que a vizinha leva você está na roda.
- Não que eu queira me meter, mas eu acho...
Não ache!
Faça alguma coisa.
Interfira.
Denuncie, anonimamente se preferir.
Mas peloamordedeus, não fique aí parado!

E apesar disso tudo me parecer tão óbvio, não!
Todo mundo se constrange, se retrai, sai de fininho, aumenta o volume da televisão quando começa a pancadaria no andar de cima.
Acontece, meu filho, que o casal em questão não vai se resolver sozinho. Não pense que um dia isso vai simplesmente terminar, que num passe de mágica eles colocarão a mão na consciência e perceberão o inferno que criaram para viver.
Não vai acontecer.
Porque o sujeito que bate não vale nada, e não importa o que você diga ao malandro, ele não vai se comover.
Estes discursos quem ama não bate não colam, gente! Soam bonitinhos, mas ninguém dá bola, ninguém deixa de ser violento e covarde por causa disso.
As campanhas deveriam ser voltadas para promover a denúncia anônima, e não pedir pra vítima (a pobre infeliz e atormentada vítima) denunciar.
A vítima está borrada de medo, oras bolas!
Ela está sendo ameaçada, humilhada, espancada, ela não vai denunciar coisíssima nenhuma.
E, se fizer, muito possivelmente vai se arrepender meia hora depois e retirar a queixa.
Não teve uma infeliz que denunciou o marido, ele foi preso e dois dias depois ela vendeu a geladeira para pagar sua fiança?
Sim, aconteceu.
E antes de dizer que ela é uma ‘idiota’, ‘cretina que tem mais é que apanhar’, saiba que estás redondamente enganado.
Ela é uma coitada, que está tão envolvida e massacrada pela situação que é incapaz de enxergar um palmo na frente do seu nariz.
Se outras pessoas não meterem o bedelho, tem chance de a coisa ir muito além de alguns chutes e palavrões.
E você aí, mascando um chiclete.
Francamente!

- Mas e o que eu posso fazer para ajudar?

Vejam este exemplo genial: no Córrego do Euclides, zona norte do Recife, um grupo de mulheres criou a ONG Cidadania Feminina, que busca chamar a atenção para a violência contra a mulher fazendo barulho - literalmente.
Para quem não sabe, Pernambuco é um dos estados com maior taxa de assassinatos de mulheres no Brasil. De primeiro de janeiro até o dia 9 de março de 2009, 285 mulheres foram assassinadas no estado. Setenta por cento pelo marido ou companheiro.
O que fizeram estas mulheres?
Se reuniram para contar suas histórias e munir-se com apitos.
- Munir-se com apitos?
Exato.
Um singelo brinquedinho de criança virou arma contra a violência doméstica e assim surgiu o projeto Apitaço – Mulheres Enfrentando a Violência. Toda vez que presenciam uma cena de agressão, elas soam o apito, que anda sempre no bolso, e logo outra começa a apitar, e outra, e outra.
O objetivo é causar.
E está dando certo.
O número de assassinatos na região caiu consideravelmente de 2004 para cá.

O que essas mulheres porretas estão fazendo é meter a colher em briga de marido em mulher.
Porque é necessário, é uma das únicas saídas.
Com um apito ou de qualquer outra maneira, o que não podemos fazer é fingir que não é com a gente.

Ouvi alguém dizer que a solução para os casos de violência contra a mulher seria colocar, nas principais cidades brasileiras, um painel eletrônico que mostrasse, quadro a quadro, a foto de cada um de seus conterrâneos canalhas que já foram denunciados por violência doméstica. Suas fotos, nomes e RGs, bem grandes, no meio da praça central, para todo mundo ver, nem que a contragosto.
Seria demais.
No entanto, como por hora isso é impossível, nos contentemos com nossos gritos, e apitos, e telefones.
Com as armas que temos em mãos.
Porque é um problema social, dos mais lamentáveis, e não serei eu a permanecer calada, consentindo com o que não poderia ser consentido jamais.