04 março 2009

Puta-Virgem

Existe uma expressão, puta-virgem, utilizada para referenciar mocinhas que fazem e acontecem na horizontal, enquanto na vertical mais parecem umas freiras.
Ou exatamente o contrário: aquelas que usam mini-saia, e fazem poses provocantes, e olham, e seduzem, e fazem biquinho, e jogam charminho, e na hora H, quando o cara já está esperando uma leoa insaciável e no cio, a bonitinha se abaixa, pega uma flor e entrega para a mamãe.
Vocês entendem.
Acontece que esta expressão vai além da questão sexual da coisa – que, aliás, é o que menos interessa.
Putas-virgens existem aos montes, na tevê, na rua, no supermercado, no andar de cima.
Fazendo um tipo, interpretando um papel.
Dando um tapa e escondendo a mão.

Esses dias, estava assistindo um programa na tevê quando passou uma matéria sobre corridas de carro clandestinas.
- É uma vergonha!
- É um desrespeito!
- Cadê as autoridades?
Era o que se perguntavam inflamados repórteres.
Balancei a cabeça concordando: era realmente uma vergonha e um desrespeito e, porra, onde estavam as autoridades?
Porém, na hora do intervalo, a primeira propaganda anunciava que, após o jornal, iria passar o cansativo e popular Velozes e Furiosos (para quem não sabe, um filme onde todos os mocinhos e vilões e elenco de apoio realizam rachas de carro, o tempo inteiro, sem parar, e acham bonito, e fim).
Fiquei com cara de idiota na frente da tevê.

Alguns dias depois, comecei a ouvir o burburinho (que em breve se transformará em gritedo) da tal Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que realiza sua décima terceira edição em 2009.
Com certeza vocês já ouviram falar na dita.
- Passa até no Jornal Nacional! - dizem, empolgados, os mais provincianos.
Trata-se de um evento que reúne escritores, promove oficinas, confere prêmios, realiza concursos. Tudo financiado pela filantrópica Universidade de Passo Fundo. Foi este evento que concedeu à cidade o título de Capital Nacional da Literatura.
Ó, que bonito.
Até aqui.
Porque se existe uma cidade que não deveria ser a capital nacional da literatura, essa cidade, definitivamente, é Passo Fundo.
A Biblioteca Municipal está jogada às traças, em meio de um gramado alto e mal cuidado. O Teatro Múcio de Castro está ruindo. A biblioteca da UPF não permite retirada de livros de quem não for aluno da fundação. A feira do livro é um amontoado desorganizado de barracas, onde as livrarias tiveram a brilhante idéia de, ao invés de fazer promoções, aumentar o preço dos livros.
E a Jornada, de filantrópica, só tem a distância.
Para participar, você paga a bagatela de 100 contos, e ainda precisa passar o dia inteiro naquilo que eles chamam de Circo da Cultura (que fica a vários quilômetros do centro da cidade), pagando 5 reais por um cachorro quente mirrado e 2 por uma água sem gás.
E depois, quando a jornada acaba, adeus.
Nem um eventozinho, um sarau, uma palestra, um debate, uma palavra de incentivo, nada, nada, nada.
Ah sim!
Construíram uma pracinha colorida perto da rodoviária e de uns puteiros de Passo Fundo, com uma escultura esquisita, e deram-se por satisfeitos.

Porém, a Jornada é referência.
Os passofundensese dela se orgulham.
Seus organizadores viraram celebridades locais.
A cidade, afinal, não é a que mais lê, em todo o Brasil?
Índice europeu.
Úlalá.
- Temos orgulho de levar a jornada para a comunidade.
Que comunidade?
Desde quando a comunidade tem tempo e dinheiro para ir num troço desses? E no restante do tempo? E no restante do ano? E se a comunidade quiser ler um livro da Biblioteca, ir assistir um sarau, comprar um livro usado num sebo?
Não tem.
O que tem, e de sobra, são discursos bonitinhos sobre a importância da jornada para o país.

Sabem, acho isso bem nojento: a máscara do politicamente correto.
Belos discursos acobertando as mais desprezíveis intenções.
Se não é para correr, porque as propagandas de carro usam a velocidade e a potência do automóvel como principal argumento para tentar convencer?
Se não é para encher a cara, porque tem tanta propaganda de bebida, cheia de jovens sorridentes empunhando orgulhosos suas biritas?
‘Beba com moderação”, eles dizem.
Ora, me poupem!

Agora me respondam, sinceramente: eles sabem o que estão fazendo, não é?
Eles não podem ser ingênuos ao ponto de acreditar que uma matéria exaltada contra rachas de carros vai ser maior e mais importante que um filme roliúdiano cheio de possantes coloridos e corridas malucas.
E se eles sabem, então são piores do que eu imaginava.
Porque você não é obrigado a fazer uma matéria sobre corridas de carro. Você não precisa fazer uma matéria sobre corridas de carros se, quinze minutos depois, vai passar um filme que é um manifesto a favor das corridas de carros.
Ah, me esqueci da responsabilidade social, a carta na manga da nova publicidade:
- Se alguém falar alguma coisa, a gente lembra que passou a matéria contra. Que é filantrópica. Que colocamos a frase “Beba com Moderação”.
Truques para enganar o bobo.

Não passam de putas-virgens.
Que, por conveniência e alguns trocados, fazem da vida um teatro com muitos atores e nenhum espectador, interpretando um papel sem história, onde todos falam exatamente o contrário daquilo que fazem.
E sabem o que é o pior?
As pessoas gostam disso.
Gostam de acreditar na responsabilidade social das autoridades.
Na boa intenção, na filantropia, na campanha contra bebidas alcoólicas, contra drogas, contra acidentes de trânsito.
É mais confortável ficar orgulhoso pela pracinha literária de Passo Fundo do que se perguntar:
- Tá, mas o que eu faço com essa merda de pracinha???

Precisamos parar de acreditar em histórias da carochinha; parar de se contentar com migalhas, com discursos, com blábláblás.
- É melhor do que nada.
Sim, é.
Mas nem por isso precisamos ficar orgulhosos.

Agora, mais importante do que tudo: precisamos matar a puta-virgem que existe em nós.
Sim, aquela boca-aberta que vive fazendo cena.
Precisamos enforcá-la, envenená-la, picoteá-la e atirá-la no mar com um bloco de cimento amarrado aos pés e um saco plástico enfiado na cabeça.
Precisamos buscar um acordo entre o que falamos e o que fazemos.
A incoerência do mundo é a incoerência de cada um de nós.
E eu e você podemos ser os primeiros a deixar este palco de atores sem papel.