13 março 2009

Patrícia

Se existiu nessa vida uma coisa que eu odiei, sem dúvidas, foi a escola.
Lembro com calafrios nervosos daquelas manhãs repetitivas: eu lá, infante, tendo aula de geometria e pensando quando, afinaldecontas, aquela merda toda iria me ser útil.
Na verdade, não gostava de nada: de matemática (até hoje tendo compreender a sinistra fórmula de báskara) à geografia (relevos, hã?), passando por educação física (prefiro a fogueira), química (tudo, menos a tabela periódica), ciências (?), física (errr...) e biologia (DNAaaaaaah!).
Ah, e religião.
Esqueci alguma?
Bem, todo o currículo, basicamente: execrava.
E, claro, isso fazia de mim uma péssima aluna. Ia de mal a pior, não aprendia nem o básico do básico, conversava, faltava aula.
Mas eu tinha uma carta na manga, rá!
Era gentil.
Muito gentil.
Exageradamente gentil.
Não puxava o saco, nã, nã, nã.
Até porque eu era uma pré-adolescente tipicamente amotinada, e puxar o saco de uma professora, na época, representaria queimar o filme, manchar minha longa e valorosa reputação de 12 anos de vida.
Apenas exercitava o que havia aprendido em casa, e tratava os professores bem.
Com um mínimo de respeito, afinal.
Tinha pena da maioria deles, que precisavam agüentar alunos engomadinhos e mal educados na sombra de seus babais, e freiras malucas. Sim, meus amigos. Além de tudo, tratava-se de um colégio de freiras, par-ti-cu-lar.
Por vezes eu até compreendi os aluninhos americanos que entravam escola adentro metralhando todo mundo, mas enfim.
Já passou.

O fato é que, das lembranças boas que eu tenho de lá (um colégio imenso, antigo e gelado, cujo cheiro jamais esquecerei), fazem parte um grupo seleto de pessoas, que vem e vão.
Mais vão do que vem, é verdade, mas vem também, e isso é fantástico.

E quem me escreveu um e-mail esses tempos foi a Patrícia (profe Patrícia para os íntimos), que me deu aula de espanhol no ensino fundamental.
É claro que eu não tinha (e não tenho) nenhum interesse por espanhol.
E ela sabia disso.
Essa era a diferença entre ela e a maioria das outras profes.
Ela respeitava meu desprezo pela sua matéria. Não queria me obrigar violentamente a aprender um negócio ao qual eu simplesmente me recusava a aprender, só porque havia um maldito plano de aula.
Assim passávamos o ano, e uns dias antes da prova final eu estudava, tirava a nota e deu pra bola.
Entendem? Ela não ficava descontando pontos e empatando a minha vida só porque eu não adorava espanhol.
E agora, uns 12 anos depois, ela me escreve, vejam só.
Eu amo a internet por causa dessas coisas.
Respondi na hora, nos encontramos e nem vi o tempo passar.
O mais engraçado é que hoje parece que temos a mesma idade.
Na época ela me parecia muitíssimo mais velha.
Acho que era.
O tempo muda tudo.

O que quero dizer é que a Patrícia é uma boa recordação dos tempos narcotizantes de colégio.
Quase um alívio.
E agora ainda mais, porque voltou, e com força total.
Me encontrou pelo blogue (já disse que amo isso aqui?) e vivemos felizes para sempre.
E como se não bastasse tudo isso, a mulher ainda tá morando na mesma cidade dos meus pais e trabalhando numa biblioteca!
Pô.
Melhor que isso só dois disso.

Então.
Ela me mandou um e-mail perguntando se podia falar de mim em uma crônica. Eu respondi que poder até podia, mas que eu iria ficar me achando por um tempão por causa disso.
Mesmo assim ela insistiu, escreveu, e agora que me agüente!

De qualquer maneira, Patrícia merece um post.
Muitos posts.
Por tudo que me ensina e já me ensinou; e não.
Eu não sei na-da de espanhol.