21 março 2009

A Hora do Planeta.

Enquanto organizava a nona edição do E-Blogue.com, recebi um e-mail convidando para participar d’A Hora do Planeta. Para quem não sabe, trata-se de uma ação global, promovida no Brasil pela primeira vez através do WWF, que busca atingir um bilhão de adesões em mais de mil cidades, no mundo inteiro.
A proposta é: todos deverão apagar as luzes dia 28 de março, entre oito e meia e nove e meia da noite, em protesto às barbaridades que andam fazendo com nosso planetinha por aí.

Num primeiro momento, pensei: mas que grande merda. De que vai adiantar isso tudo? Vamos passar uma hora no escuro e não vai mudar porra nenhuma. Isso está me cheirando coisa de puta-virgem.
Porém, como sou do tipo que acredita que, se as formigas soubessem o tamanho da força que possuem já teriam dominado o mundo, decidi aderir a causa. E com o texto sobre A Hora do Planeta no ar, recebemos o primeiro comentário, que reproduzo logo abaixo, na íntegra:

“quando li achei que tinha achado vida inteligente mas participar de “hora do planeta”. me desbundou - eu achava que voces poderiam representar vida inteligente mas vi que era enganaçao - ou voces sao muito jovens e imaturos ou safados para se ligar em picaretagens deste tipo. ninguem precisa participar de hora de porra nenhuma…fazer macaquices sem personalidade…que coisa.sucesso mas menos propaganda enganosa gurizada. voces propoem uma coisa no post e me apresentam isso. fui.”

Óquei crianças, sem alvoroço.
Não vamos entrar no mérito da boa educação nem das críticas construtivas, porque isso é chover no molhado.
Como já disse, minha primeira reação quando recebi o e-mail com a proposta d’A Hora do Planeta foi muito parecida com a de nosso gentil internauta.
- É besteira, não serve para nada, de que adianta?
No entanto, isso não é verdade.
Nenhuma atitude tomada, seja por um homem, seja por uma nação inteira, é em vão quando os objetivos são nobres – e não: nem só de boas intenções está cheio o inferno.
Alguém aqui lembra daquele garoto que, no meio da praça da Paz Celestial, em Pequim, durante uma manifestação contra o governo, se meteu na frente de uma fila de tanques de guerra?
O combate terminou? Não.
A guerra terminou? Não.
A violência terminou? Não.
Nem o nome deste corajoso rapaz ficamos sabendo, menos ainda que fim levou sua vida.
Mas de uma coisa eu tenho certeza: a imagem dele impedindo que uma linha de tanques seguisse em frente ficará para sempre na minha memória, e possivelmente meus tataranetos a assistirão, e saberão o que um único homem é capaz de fazer, se quiser.

Desligar a luz dia 28 de março não vai resolver o problema do aquecimento global.
Porém partindo deste pressuposto, nada do que fizermos enquanto indivíduo resolverá problema nenhum.
Porque não somos presidentes, nem reis, nem bambambans; somos apenas anônimos no meio de uma multidão – e olha que nem estão pedindo para nos metermos na frente de uma fila de tanques de guerra e colocar nosso pescoço em jogo.
Outra: apagar as luzes durante uma hora não é apenas apagar as luzes durante uma hora, do mesmo jeito que impedir a marcha de uma guerra na cara e na coragem não é apenas impedir a marcha de uma guerra na cara e na coragem.
Não se trata somente de um ato, mas de um símbolo.
A maioria das pessoas continua acreditando na mudança coletiva, enquanto não move uma unha para realizar a mais importante entre todas as mudanças: a pessoal, a íntima, a nossa, a do lado de dentro.
Apagar a luz, fechar a torneira, apressar o banho também são atitudes minúsculas, que na contabilidade geral não interferem em absolutamente nada.
Contudo, quando 6 bilhões de pessoas apagam as luzes, fecham as torneiras, apressam o banho ou se metem na frente de uma fila de tanques de guerra, a coisa começa a ficar diferente.
Aderir A Hora do Planeta é a mesma coisa que dizer:
- Hey, estamos ligados – com o perdão do trocadilho.

Sim, eu acredito na mudança individual antes de acreditar na mudança coletiva.
E por isso economizo papel, desligo a luz, escovo os dentes com a torneira fechada, vou a pé antes de ir de carro.
Sou jovem, prematura ou safada demais por acreditar nisso?
Pode ser.
Mas estou do lado do rebelde anônimo.
E não abro.