26 março 2009

Antes e depois das 18h.

Agora vamos falar sério, minha gente.
Sou só eu ou vocês também repararam que está simplesmente impossível sair de casa antes e depois das 18h por causa dos ditos-cujos fumadores de crack?
Eu reparei.
E não só reparei, como estou incomodada (lê-se indignada, sobressaltada, preocupada e neurótica) pra caramba.
Tudo bem que nosso país nunca foi um exemplo em matéria de segurança, mas agora o negócio passou de todos os limites.
A crackolândia, que sempre me pareceu tão distante, quase irreal, veio parar na porta da minha casa, no meio dos meus amigos, na pracinha onde antes as mamães levavam seus filhinhos para passear no domingo.
E sabem o que é o pior?
Ninguém faz na-da.
Quer dizer, até fazem: matérias preocupadas no jornal, reuniões, associações, debates, iniciativas que, substancialmente, não servem para coisa nenhuma.
Sabem o que vai resolver o problema do crack no Brasil?
Dinheiro.
Money.
Cash.
Dindin.
Tutu.
Em outras palavras: verba pública!
O resto é historinha pra boi dormir.
Não precisamos só de palestras, precisamos de clínicas, de médicos, remédios, atendimento.
E como conseguimos clínicas, médicos, remédios e atendimento?
Com dinheiro.
Talvez aqueles 27 e meio por cento que a gente desembolsa o tempo inteiro poderiam servir para isso se estes sanguessugas filhos da mãe que chamamos de governantes fossem mais espertos e menos concentrados em seus malditos e obesos umbigos.

Porque, meu amigo, quer queira, quer não queira, o problema do crack é um problema seu também.
- Meu??? Meu nada!!! Nenhum dos meus filhos, amigos, parentes ou conhecidos consome crack! Não tenho nada a ver com isso, me inclua fora dessa.Isso você pensa porque é um otário.
O crack passa a ser um problema seu quando seus filhos, amigos, parentes e conhecidos tomam um tiro no meio das fuças porque um viciado resolveu roubar um tênis, um relógio, uma mochila ou ‘5 real’.
O crack passa a ser um problema seu quando você não pode mais sair de casa nem antes nem depois das 18h, porque os fumadores estão por todos os lugares, com os olhos arregalados para cima da sua bolsa e dos seus bolsos.
E eu olho para os lados, e não vejo nada acontecer, além das famigeradas reuniões, associações, debates, matérias nos jornais e outras inutilidades.
Os meios de comunicação estão alvoroçados.
Se metem em hospitais e clínicas para comprovar a falta de leitos. Se enfiam em locais de consumo para mostrar a degradação do usuário. Entrevistam viciados e provam por A + B aquilo que já estamos beges de saber: um fumador de pedra mata a mãe por 2 pila e sai assobiando.

Eu nunca acreditei nas desculpas preferidas dos assassinos e ladrões em geral, que culpavam a maconha, o álcool e a cocaína por seus crimes e delitos.
Se o cara matou ou roubou, não o fez porque estava doidão, mas porque faria de qualquer jeito. A maconha, a cocaína e o álcool apenas potencializaram um instinto que já estava ali.
Mas com o crack é diferente: o crack muda sim a personalidade do usuário. Se eu, tão pacífica e do bem, fumasse pedra, muito provavelmente daria um tiro na sua cara ou uma facada na sua jugular sem pensar duas vezes – e olha que tenho pena até de matar um besouro.

Então, o que acontece?
Temos, só aqui no Rio Grande do Sul, muito mais de 50 mil usuários crônicos, andando pelas ruas como verdadeiras bombas relógios, prontas para estourar a qualquer momento.
E eu e você aqui, muito sorridentes, sentados em nossas varandas nos sentindo estupidamente seguros e protegidos pelos muros que nos separam das ruas.

Eu tenho amigos que estão morrendo por causa do crack.
Que estão definhando, acinzentando, se acabando, com uma velocidade impressionante.
Porque o crack saiu das periferias e das mãos dos meninos de rua, e agora está nos condomínios, nos colégios particulares, nas universidades.
E eles me dizem:
- Jana, eu quero largar, eu tenho que largar! Eu preciso de ajuda! Por falar nisso, tem 10 pila aí para me emprestar?
É muito triste.

Vejo o Brasil como uma panela de pressão cheia de merda, mas coberta por chantili.
Você olha e parece tudo lindo e alvo, mas basta chegarmos um pouco mais perto para começarmos a sentir o cheiro podre.
Vamos afundar se não fizermos nada.
Esquivar-se, olhar para o lado, criar uma associação não é o que eu chamo de encontrar uma saída.
E lá vamos nós outra vez, cercar nossas casas com grades que dão choques, encher nosso pátio com cães furiosos, nos trancar dentro de nossas vidas antes e depois das 18h, comprar armas para nos defender daquilo que é indefensável.
Quando a panela de pressão explodir, vai sobrar muita merda e pouco chantili para você e os seus, eu e os meus, e nossas vidas tão bonitas e seguras.
E pensar no tempo em que nosso maior problema era a saudosa maconha.
Ai, ai.