26 fevereiro 2009

O Poderoso Chefão.

Caiu em minhas mãos um livro todo arrebentado, de 500 páginas escrito em fonte 10, chamado O Chefão.
Estava a venda em um sebo por 3 reais.
Comprei, porque gostei da capa.
Sim, eu faço dessas coisas.

Larguei o livro na estante e a vida continuou.
Um dia, sem nada para ler nem fazer nem pensar, resolvi passar o olho no tal Chefão.
E descobri que o livro, do escritor Mário Puzo, foi o dito que originou a clássica e ótima trilogia d’O Poderoso Chefão.
E tudo por três reais.
A vida às vezes é justa.

Comecei a ler e, por mais absurdo que isso possa parecer, o livro faz o filme parecer uma marmelada.
Já passei da metade e isso não tem nem uma semana.
E descobri que eu e Don Corleone temos muita coisa em comum, exceto o fato de que eu sou o tipo de pessoa que ele detestaria.
Bem.
Na verdade, eu e Don Corleone não temos absolutamente nada em comum, mas tirando sua crueldade, seus negócios sujos, os assassinatos, as guerras e etc, existem coisas nele das quais gostaria de compartilhar.
Porque Don Corleone não grita.
Não dá escândalos.
Não se destempera.
Não desce o nível.
Não perde a cabeça, o bom senso, o juízo, a pose.
Nunca!
Não importa o extremo da situação, o homem tá sempre ali, matutando com cara de quem sabe o que fazer e dando boas respostas.
Eu, por exemplo, sou péssima em dar boas respostas.
Duas semanas depois do acontecido me pego tomando banho e me lembrando da ocasião em que poderia ter dito uma coisa genial, caso tivesse me ocorrido.
Nunca me ocorre.
Ao menos não na hora.

Don, além de dar boas respostas, ser poderoso, rico, bambambam da Máfia, equilibrado, racional e esperto, ainda é educado, gentil e humilde.
Até esqueço a parte politicamente incorreta do negócio, e o invejo.
Não seu poder, nem seu dinheiro (JURO!) mas seu jeito superior de encarar todas as coisas.
O homem pode estar cortando a garganta de um sujeito e mesmo assim não vai perder a majestade.

Eu não.
Dou pinta de elegante, mas por qualquer coisa estou tendo um chilique:

- O quêêê? O ônibus já passou??? AAAAAAH!
- O quêêê? Ela falou isso??? AAAAAH!
- O quê??? AAAAAH!

Isso diminuiu muito nos últimos tempos, porque passei a me policiar.
Era chato querer desaparecer toda vez que acontecia uma banalidade e eu tinha um surto assassino.
Resolvi que era melhor ser feliz do que ter razão.
Mas se me distraio, PÁ!
Lá estou eu rodando a baiana, dedo em riste:
- AAAAH!

Agora, sabe o que é realmente o pior?
É que eu faço e aconteço, e digo e prometo, e bato o pé e faço um gritedo, mas na hora do vamos-ver, cadê?
Não sou capaz de cumprir uma ameaçazinha sequer, por mais inocente que seja.
- Sai daqui senão eu te mato.
Rárá, até parece.
O cão que late nunca morde.

Se existisse de verdade, Don Corleone me desprezaria.
Diria que sou temperamental e emocional demais para qualquer coisa.
Que eu deveria ficar em casa lavando roupa e costurando botões ao invés de andar por aí, dando ataques.
E eu responderia:

- Mas padrinho...
E ele apenas olharia em minha direção.
Eu entenderia, me voltaria a minha insignificância patética de ser humano comum e desequilibrado, e compreenderia que ninguém se transforma em um poderoso chefão quando não tem razão.
E quem grita, nunca tem.