03 janeiro 2009

Não.

Palavra chata de se ouvir, na maioria das vezes.
Não. Não. Não.
Ontem mesmo eu ganhei um NÃO de uma editora na qual apostei boa parte das minhas fichas.
Mas foi um NÃO simpático, embalado para presente e com uma fita vermelha enfeitando.

Como vocês já estão carecas de saber, quero porque quero ser escritora.
Meti isso na cabeça quando tinha uns 10 anos e, desde então, é o pensamento que ocupa minha atenção 16 horas por dia.
Como sou pretensiosa, cara de pau e metida a besta, fui escrevendo livros, mandando originais, participando de concursos, seleções e o escaubáu e, claro: recebendo não.
Não. Não. Não.
Dezenas de milhares de centenas de NÃOS.
E a cada um eu pensava: ah é, é? e seguia em frente.
Até ontem.
Agora, minha tática mudou.

Se estou triste com o NÃO que ganhei de presente?
Nossa, e como. Eu e a Salomé (anti-heroína do meu romance sem romance) pensamos seriamente em mandar tudo para a puta-que-te-pariu, inclusive nossa boa educação e nossa diplomacia.
Não a diplomacia!
Não a boa educação!

Porque o mercado editorial não tem nada a ver com o romantismo da literatura.
É um mercado (mar-que-tin-gue) que trabalha com lucros, com vendas, com interesses pouco lúdicos e muito duvidosos.
É um mercado como qualquer outro: alguns vendem livros, outros vendem programas de computador e outros vendem calçados.
Muda o produto; o processo é o mesmo.
E como em quase tudo nessa vida, sai na frente quem tem mais dinheiro e mais contatos e mais padrinhos e mais intimidade com o manda-chuva.
E não adianta dizer que não é, porque é sim.
Estou bege de ver gente muito boa colocada para escanteio, enquanto verdadeiros absurdos são publicados e relançados e transformados em filme por aí.
Bruna Surfistinha é um dos vários exemplos que me ocorrem agora.
Ela tem três obras publicadas, duas traduzidas para os estrangeiros, e agora vai transformar sua escrita em filme.
FILME!
E vai vender horrores, e vai aparecer no Jô (de novo), e vai dar entrevistas e vai escrever mais livros.
E como se sente uma pessoa como eu, que nunca se prostituiu, vendo sua obra renegada para dar espaço para tipos como a Bruna Surfista?
É porque ela vende.
Eu não.
É porque o querido-povo-brasileiro-que-eu-tanto-amo quer ler putaria, e não as desventuras de Salomé.
É porque aqui, neste país onde quem pode mais chora menos, literatura deixou de ser alavanca para evolução intelectual e social, e agora é um produto que se vende.
Ao lado de sabonetes e desinfetantes.
Um produto e nada mais.

Regra número um: escreva sobre surubas animadas e bobagens em geral, para que as pessoas, preguiçosas de pensar, possam consumir o que você produz.
Regra número dois: amigue-se com dono. Chupe suas bolas. Jogue confetes na sua cabeça. Porque, se você não é o dono, nem é o filho do dono, deve e precisa ser amigo do dono.
Regra número três: se você não aceitar ou não alcançar as normas acima citadas, adiós muchacho! Vá trabalhar num cartório.
Você precisa ter alguma coisa para oferecer além do seu talento.

Acontece que eu tenho uma novidade: eu não desisti.
Devagar, devagarinho, estou abrindo essa mata fechada e densa e seguindo em frente.
Tomando tapa, levando NÃO, tropeçando, caindo e torcendo o pé.
Mas seguindo em frente.
Porque, como já falei antes, sou pretensiosa, cara de pau e metida a besta.
Muito mais do que se possa imaginar.
Não posso dizer: me publiquem e isso é uma ordem! mas posso entrar pelas portas que já se abriram para mim e dar uma banana para as que se recusaram a me deixar passar.
Porque um fenômeno muito interessante acontece neste momento: os pequenos (pelo menos boa parte deles) pararam de tentar se adequar aos grandes e começam a se unir.
E juntos, deixamos de ser pequenos e ganhamos força.
Juntos, podemos sim derrubar reis, castelos, editores, muros, padrinhos, puxa-sacos e tudo mais que for aparecendo pela frente.

Criei o E-Blogue.com por isso: você não precisa ser meu amigo, nem me pagar cervejas, nem chupar as bolas que eu não tenho para ser publicado lá.
Aliás, se for meu amigo e me pagar cervejas e me chupar as bolas, mas escrever mal, pode fazer um fuzuê: eu não vou te publicar.
Eu não vou tirar espaço das pessoas boas para publicar as ruins ou as mais ou menos só porque tomamos cervejas e damos risadas juntos.
Muito menos vou publicar bacanais e bobagens apenas para que os incultos e idiotas acessem meu site.

Os bons e excluídos precisam estar juntos agora.
Se ficarmos cada um em nossas ilhas particulares, morreremos sozinhos e frustrados, dando murro em ponta de faca até arrancarmos todos os dedos de nossas mãos.
Precisamos nos apoiar, nos financiar, nos carregar mutuamente nas costas.
Porque juntos – e isso eu garanto – não tem NÃO capaz de nos tirar do jogo.
E daqui um tempo, quando ESTES que agora nos renegam vierem pedir arrego, quem vai dizer Não-Not-Never-Jamé somos nós.

E quem estiver comigo bota o dedo aqui.