10 fevereiro 2009

A italiana Eluana Englaro morreu de fome depois de passar 17 anos em coma.

Destes, dez seu pai passou às voltas com a justiça, tentando obter autorização para desligar os tubos que a alimentavam e hidratavam.
Segundo ele, antes do acidente, a filha lhe havia confidenciado que preferiria morrer a viver em estado vegetativo.
Ora, é claro que isso virou um prato cheio para gritarias acerca da eutanásia: é constitucional? É imoral? É politicamente correta?
Porém, independente dos debates calorosos, dos palpites do Vaticano e dos decretos de Berlusconi, os tubos de Eluana foram desligados dia 6.
Ontem, dia 9, ela morreu.
Não é minha intenção pôr lenha na fogueira da discussão a respeito da eutanásia.
Até a considero legítima, desde que o paciente seja capaz de escolher se quer ou não continuar vivendo.
Se ele acha que é hora de abotoar o próprio palito, respeitemos sua decisão.
Mas confesso que me sinto um pouco incomodada com a idéia de autorizar a eutanásia de uma pessoa incapaz de decidir.
Óquei, enquanto ela ainda era uma jovem alegre de vinte anos e acreditava que assim seria para sempre, comentou que preferiria morrer a ficar em coma vegetativo mas, poxa! Quando ela disse isso jamais imaginava que poderia acontecer.
Como podem saber se, nas atuais condições, ela realmente queria morrer? Como podem saber o que se passa na cabeça de uma pessoa que continua viva sem estar, do modo como tradicionalmente conhecemos, viva?
Alguém já voltou para contar?
E se voltou, ficou feliz quando soube que decidiram não matá-lo de fome?

Tá.
Nem é essa a questão.
Independente do que eu, você e todas as outras pessoas pensem, o fato é que cortaram a alimentação e a hidratação da moça.
O que significa que ela morreu lentamente.
Por acaso vocês já pararam para analisar que a pobre levou três dias para morrer, e que passar três dias padecendo de fome e desidratação é dose até para alguém que está em coma?
Se resolveram que morrer era a melhor solução para Eluana, tudo bem.
Mas tinha que ser de fome?
Não existia nenhum outro jeito, nenhuma alternativa, nenhuma opção B?
Até um animal doente e desenganado, através de medicação, pode ter uma morte mais digna (e rápida) que a da italianinha.
Até um serial killer perverso e inescrupuloso recebe uma injeção letal e morre em poucos segundos.
No entanto, Eluana não teve a sorte dos animaizinhos desvalidos nem dos condenados a morte.
Não pôde escolher, nem teve uma morte breve.
E provavelmente agonizou mais nestes três dias em que passou fome e sede, do que nos 17 anos em que esteve em coma.
Definitivamente, o ser humano é surpreendente.