14 fevereiro 2009

Fé.

Por esses dias, revirando uns cadernos velhos e uns pedaços de papel com anotações, encontrei escrito, com letra firme: é muito triste viver sem fé.
Não faço a menor idéia de quando, onde e porque escrevi isso, nem em qual contexto estava inserida.
Nem sei se estava lúcida.
O fato é que fiquei pensando sobre essa frase um tempão, tentando ver se ela fazia algum sentido para a Janaína que, indiscutivelmente, não é mais a mesma que a escrevinhou, meses atrás.

Fé, para mim, nada tem a ver com religião.
Isto é, até tem, mas não da maneira pequena como concebemos.
Porque, ao contrário da fé, a religião está muito ligada a crenças, dogmas, regras e proibições. Porém a maioria destas crenças e dogmas não responde às perguntas mais triviais da humanidade, e as regras e proibições são tão absurdas, que viram piada na boca de qualquer comediante de quinta categoria.
Eu, por exemplo (desculpem, mas não tenho exemplo melhor para dar) não tenho religião.
Não freqüento cultos, não faço cerimônias, não fico sem comer carne vermelha.
No entanto, procuro fazer as coisas nas quais afirmo acreditar.
E antes de acreditar em Deus, no céu e no inferno, na salvação ou no sofrimento eterno, eu acredito em mim, e no poder que eu tenho de mudar todas as coisas a minha volta.
Meu poder de decisão, de escolha. Meu poder e minha soberania sobre a minha vida.
Por esta razão, apesar de acreditar Nele, sei muito bem de quem é a responsabilidade sobre os acontecimentos que norteiam a minha existência.

Justamente por isso não sou do tipo que se apega em Deus.
Vejo a vida como o filho que se prepara para assumir os negócios da família. Ele sempre terá a quem recorrer quando estiver em dúvida, mas quem terá de assinar embaixo e matar no peito é ele, o herdeiro, e mais ninguém.
Se os negócios da família prosperar, ou falir, o velho pai estará isento de toda e qualquer responsabilidade.
Do mesmo jeito acontece com Deus: não adianta atirar para cima Dele todos os nossos tangos e tragédias.
Se deu certo ou errado, aconteceu por causa de você.
Ele, assim como o velho pai, não tem nada a ver com isso.

É por estas e por tantas outras razões que acredito que a fé seja algo humano, não divino.
Algo que está em mim e em você, não Nele.
E não aliena, porque explica.
Não promete, porque não precisa prometer.
Um homem sem fé é um homem acorrentado a sua própria (e minúscula) realidade. E é pretensioso também, pois acredita que, em todo o universo, do qual enxerga, a olho nu, pouco menos de 5 por cento, exista somente ele e seus semelhantes, muito inteligentes e soberanos.
Um homem sem fé não crê em nada que não seja matéria.
Quer tudo catalogado, cientificamente comprovado, e mesmo assim, olhe lá.
Sua vida, então, se resume a correr atrás de fantasmas, e depois sofrer e encher a cara de barbitúricos por causa de “um vazio que não sabe o que é nem da onde vem”.
Não foi Shakespeare quem disse que existem mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode supor?
Então.
Ele estava certo.

A verdade é que falta tempo e sensibilidade para a maioria de nós percebermos o quanto é importante ter fé.
Hoje eu a tenho, e por isso não sou mais triste.
Fui, durante muito tempo. Um tempo em que era uma paranóica sem noção, e queria explicações para besteiras que eram óbvias, e tinha sempre que encontrar um culpado para tudo que me acontecia, e precisava fazer um dramalhão mexicano para poder sentir pena de mim.
Eu não enxergava o que estava na minha frente, o tempo inteiro, pulando e gritando com uma placa flamejante na mão.
Eu andava muito, e procurava muito, e olhava muito longe tentando encontrar o que estava tão perto, que minhas mãos sequer podiam tocar.

Não, meu amigo, isso não tem nada a ver com Deus.
No entanto, se você não sabe do que estou falando e nem sabe o quanto é triste viver sem fé, é uma pena: mas não vai adiantar tentar explicar.