27 janeiro 2009

Tenho pensado em ir embora do Brasil.

E nunca, até então, isso havia passado pela minha cabecinha provinciana.
Primeiro porque sou quase uma araucária, tamanha as minhas raízes, e APEGO sempre foi o meu sobrenome. Não deveria, sei que faz mal e faz sofrer, mas me auto-escravizo às coisas que eu acho que são importantes para mim. Meu quarto, meu bar, meu quintal, meu computador, minha rua. Mesmo sabendo que em qualquer lugar do planeta existem quartos, e bares, e quintais, computadores e ruas, não são os meus. E eu quero os meus. É deles que sou dependente.
Segundo porque, como qualquer ser humano atrapalhado e confuso, também tenho problemas em ficar sozinha. Não que eu não goste – na verdade, adoro - mas depois de quatro ou cinco horas solitárias, já fico agoniada, precisando ver, tocar, falar com alguém.
Por isso só saí de casa quando casei (para constar: não casei na igreja. Apenas trouxe para a casa do cara que eu estava ficando todas as minhas coisas, e ele não teve opção de escolher, rerere). Bem: foi por ter horror de ficar eu-comigo-mesma, todos os dias e todas as horas, que só saí da casa dos meus pais quando encontrei alguém para dividir as escovas de dente comigo.
Logo, sair da minha cidade e seus arredores soava absurdo.
Do país então... beirava a comédia.

No entanto, vocês sabem como as pessoas mudam.
Eu não sou nada diferente da maioria, e estou para dizer que ninguém é.
E nos últimos meses, a idéia de me mandar daqui ganhou força e fundamento.
- Mas porque, Jana?
Ah, minha gente, esse país tá abusando di’mim.
Não estou aqui para falar mal do Brasil, longe disso. Adoro tudo: as pessoas passando fome e sambando na avenida, as belezas naturais, a Amazônia, as minisséries da Globo, as grandes sacadas do nosso presidente.
É divertido.
Mas lá pelas tantas, o nêgo não quer mais se divertir. Ele quer trabalhar, e quer receber algum por isso. Ele quer que os seus amigos trabalhem e recebam algum por isso. Ele quer andar nas ruas e não ser assaltado, assassinado, violado, constrangido. Ele quer que um estuprador vá para a cadeia e fique lá, tempo suficiente para envelhecer e morrer. Ele quer olhar para frente, e enxergar oportunidades. Ele quer ser gentil com as pessoas e quer que as pessoas sejam gentis com ele. Ele quer pegar uma fila e não quer que ninguém passe na sua frente.
Vocês conseguem me entender?

O Brasil é bacana, e é lindo, mas tem umas coisas que, definitivamente, encheram o meu saco.
O descaso com tudo que importa me enoja, a política me dá ânsia de vômito e o carnaval... gente! Eu juro que tentei! Tentei ver ali beleza, arte, graça, formosura. Tentei, tentei, tentei. Não deu. Só consigo ver um monte de miseráveis que passam o ano inteiro correndo atrás de empregos e comida e moradia e saúde, sem nunca alcançar, e em fevereiro tiram a roupa e vão para avenida saciar as vontades e as taras de um bando de turistas endinheirados.
E a justiça? DEUS! Não sei nem porque se chama justiça – mas já começo a sacar aquela venda nos olhos.
Os policiais que atiraram no carro onde estava o menino João Roberto foram absolvidos. O promotor que deu quinze tiros num cidadão porque este mexeu com sua namorada foi absolvido. Os otários que espancaram uma empregada doméstica “porque acharam que ela era uma prostituta” devem estar por aí, livres, leves e, o pior: soltos. E a menina de quinze anos que passou 20 dias presa com um bando de homens nojentos e tarados? Lembram dela? Ou isso não importa mais porque, afinal, começou a décima edição do BBB?

Meu país que caga e anda para a arte, para a cultura, para a educação.
Meu país onde tem mais chances quem tem mais bunda, e mais dinheiro, e mais contatos.
Meu país de policiais mal pagos e mal amados, bandidos que mandam e desmandam, polítiqueiros desavergonhados, favelas, pobreza, desemprego, violência, guerra civil.
O velho jeitinho brasileiro.
Como eu detesto.

Tá, calma, eu sei que o Brasil é um país de futuro.
É o que todos dizem, até os americanos e os europeus.
Acontece que eu não sei e nem quero saber do futuro.
Eu vivo hoje, agora, neste exato momento.
Se um dia melhorar, pô, que legal, que bacana. Quem sabe meus filhos não podem voltar e serem muito felizes aqui?
Mas se eu continuar vendo tudo que vejo, vivendo tudo que vivo e sentindo tudo que sinto, tenho sérias chances de me tornar um purgante que passa o tempo inteiro reclamando de todas as coisas da vida. Ou de transformar minha indignação em tédio e, como muitas pessoas que vejo por aí, baixar a cabeça e aceitar que “as coisas são assim mesmo, o que vamos fazer?”.
Se há perdão para a rabugice, eu peço pela minha.

Agora que eu já pensei, e já falei, só falta fazer.
É essa a ordem natural dos acontecimentos.
Pode não ser amanhã, nem ano que vem, mas será.
Antes de fazer 30 anos, escrevam em suas cadernetas, amiguinhos: vou-me embora do Brasil e suas brasilidades.
Que pena.
Talvez eu nunca sinta saudades daqui.