15 janeiro 2009

O Gato Cego.

Há mais ou menos um ano atrás, apareceu na minha casa um gato cego.
Um bichano tão manso e carinhoso, que não deu para não adotar.
Por esses dias, meu pai o levou ao veterinário, para ver afinal qual era o problema de seus olhos.
A veterinária disse que o pobrezinho, muito provavelmente, havia contraído uma infecção, que não foi tratada, e piorou, piorou, piorou, até ficar naquele estado.
Ela operou seus dois olhos, e depois mostrou todas as melecas e carnes podres que tirou lá de dentro.
Contou também que aquela podreira toda fazia o gatinho sentir muita dor.

Hã?
Dor?
Como pode?
Um animal tão quieto, tão manso.
Nunca o havíamos levado ao veterinário justamente por acreditar que, sendo tão tranqüilo, ele estivesse muito bem. Se sentisse tanta dor assim, seria um animal nervoso, inquieto.
Ou não?
- Ele deve ter se acostumado com a dor, ela respondeu.

Ele havia se acostumado com a dor.
E deve ter inclusive acreditado que viver com dor era o jeito certo de se viver.

Somos assim também.
Do mesmo jeito que meu pobre bichano se acostumou com a dor crônica de suas vistas, nós também nos acostumamos com a dor crônica de nossas vidas, e passamos a acreditar que é assim mesmo que se vive.
E pior!
Quando a dor passa, ou sara, muitas vezes nos sentimos estranhos e desconfortáveis, ao invés de aliviados.
Aqui nos tornamos dependentes da nossa própria dor.
Por isso os dramas e os problemas se repetem.
Porque quando curam, a gente não sabe como viver sem eles e tratamos logo de buscar algo que nos traga novamente aquela mesma sensação dolorida.
Já repararam como algumas pessoas caem no mesmo problema, milhares de vezes?
O sujeito que foi corno, tem grandes chances de ser corno mais de uma vez.
A mocinha assediada pelo chefe geralmente foi e continuará sendo assediada pelos chefes.
A mulher que apanha pode trocar de marido cem vezes, que muito provavelmente apanhará de todos eles.
Acontecer uma vez é normal.
No entanto, a partir da segunda, abra o olho!
Sempre tem quem goste de dizer que isso é sina, dedo podre, carma, ou às vezes até culpa da lei do pobre Murphy.
Mas não, meus amigos; não têm nada a ver com sina, dedo pobre, carma, muitíssimo menos com a lei do Murphy.
Tem a ver com dependência emocional do próprio sofrimento.
Tem a ver com procurar sarna para se coçar; com lei de atração.
Tem a ver com estar acostumado a viver com a dor.

Já contei aqui sobre meu probleminha com o tal do pânico, lembram? Sobre meu medo surreal da morte, e de tragédias, e de desgostos, e de todo leque de azar e desgraças.
Já contei sobre como isso me fez sofrer, me tirou o sono, a fome, o sossego.
(aliás, a quem possa interessar, estou bem melhor. E não tomei uma boletinha sequer, iés).
O que eu ainda não contei foi como tudo isso começou.
Antes de encontrar o Cavanhas, que é meu marido, meu amigo, meu companheiro e meu cúmplice, eu namorei um outro cara, que não era nem uma coisa nem outra, e não passava de um covarde que dispensa maiores apresentações.
Comi o pão que o diabo amassou, durante um ano.
Sofri todos os dias, chorei todos os dias e, para ser bem sincera, cheguei a acreditar que nunca sairia daquele pesadelo.
Aquilo tudo deveria ser a vida.
Aquela dor crônica deveria fazer parte do pacote.

Porém, como não há mal que sempre dure nem bem que nunca termine, meu relacionamento de merda acabou.
Assim, da noite para o dia.
E a bonança, devagarzinho, começou a se achegar depois da tempestade.
Então o que eu fiz?
Simples: inventei uma síndrome do pânico para me fazer sofrer.
Afinal, COMO ASSIM viver sem dor?
Sem padecer?
Em paz, COMO ASSIM????
Cadê o meu sofrimento???

Eu sei que isso parece absurdo, e é.
Mas somos, enquanto seres humanos, absurdos-ambulantes, e cometemos os mais variados despautérios simplesmente por costume.
Confundimos adaptação com acomodação porque não paramos para pensar, apenas fazemos.
E nesta dependência doentia, acabamos vivendo muito satisfeitos no inferno, morrendo de medo do céu.

Se até meu gato já aprendeu a lição, nós que não somos cegos também precisamos dar uma olhada nessa coisa que chamamos de vida, e tentar perceber se não estamos cometendo nenhum disparate apenas para saciar a nossa fome de dor.
Não podemos fazer do sofrimento nosso escudo.
Ainda é permitido ser feliz, oras.
O céu não é perigoso, criança.
O inferno sim.