02 janeiro 2009

Muita estrela. Pouca constelação.

Adepta da teoria os incomodados que se retirem, inicio meu 2009 cheia de novas resoluções.
Ainda no falecido 2008, já havia decidido que não ficaria mais dando explicações sobre coisas que as pessoas não querem e/ou não podem compreender.
Explico uma vez, e olhe lá.
Entendeu, ótimo, não entendeu, paciência.
E agora, ao invés de ficar me lamuriando pelas coisas que eu detesto, e que me indignam e me torcem a garganta de nojo, eu simplesmente vou me retirar.
Quietinha, assoviando para disfarçar, vou sair pela retaguarda e me recolher a minha querida e necessária insignificância.

Virada do ano fomos ver um showzinho de rock num bar, aqui em Passo Fundo.
Estavam reunidos ali 13 músicos de 7 bandas diferentes.
Até aqui, tudo legal.
O problema é que entrava e saía gente daquele palco e as músicas simplesmente não mudavam.
Beatles tocou até a exaustão e não; eu não tenho nada contra os Beatles, do mesmo jeito que não tenho nada contra pizza de quatro queijos. Mas vá comer pizza de quatro queijos todos os dias, durante um ano, e veja se você não vai enjoar.
Só rock de gringos. Sucessivamente.
Lá pelas tantas, pensei: meu, bem que podiam tocar uma nacionalzinha né?
Afinal, até onde me lembro, estamos no Brasil e falamos português, e caso tenham esquecido, o Brasil também produz rock.
Ou me enganei?
Enfim.
Falei com um guri de uma das bandas, que estava se preparando para entrar no palco:
- Pô, podiam tocar uma do Raul né?
E ele me respondeu:
- Se eu tocar Raul me matam.
Hã?
Como assim se eu tocar Raul me matam?.
Persistente, fui para frente do palco decidida a ouvir pelo menos uma música cantada em minha língua pátria, e gritei:
- Toca Raul!
Ao que fui seguida por outras pessoas que também estavam por ali, e também deveriam estar a fim de dar uma variada no cardápio:
- Toca Raul!
- Toca Raul!
- Toca Raul!
Uma de minhas amigas até tentou um Toca Mutantes.

Foi quando aconteceu.
O vocalista (cujo nome irei omitir, para que isto aqui não pareça pessoal demais) respondeu, cheio de pompa:
- Não adianta pedir porque nós não vamos tocar porra nenhuma.
Hã???
Como assim não adianta pedir porque nós não vamos tocar porra nenhuma?
Quer dizer que eu estou lá, prestigiando a merda do show daqueles caras, na frente do palco, fazendo um estardalhaço, gritando e cantando, oferecendo ao artista aquilo que ele (teoricamente) mais deseja, que é resposta e respeito, e o cretino me diz que não adianta pedir porque eles não vão tocar porra nenhuma?
Há duas explicações para o acontecido: ou os caras são incapazes de tocar qualquer coisa que não esteja em seu repetitivo repertório, ou aquele era um show deles, para eles e os amigos deles.
Nada mais.
Rapá!
Fiquei espumando de raiva.
É umbigo demais para uma pessoa só.
Saí lá da frente e passei o resto da noite desejando o mal para todo mundo que estava naquele palco, e nos seus arredores.

E vocês pensam que isso foi exceção?
Não, isso é regra.
Não sei o que acontece aqui, nesta cidade, nem sei se é somente aqui que acontece, mas a maioria dos shows de rock (rock?) que acontecem por estas bandas são assim: músicos de egos obesos cantando músicas que eles gostam para seus amigos.
Ah, você não é amigo da banda?
Então se fode.
E o que eu posso fazer? Me amigar com eles? Ir lá lamber seus respectivos sacos para ver se os bonitos tomam vergonha e, pelo menos, tocam alguma merda de rock nacional?
Pedir peloamordedeus, toquem Raul?
Ou Raul não é rock?
Ou o que, afinal de contas?
Não, não posso (nem quero) fazer nada disso.
O que posso (e quero) é simplesmente não ir mais.
E esta é minha principal decisão para 2009: parar de dar murro em ponta de faca.
Parar de tentar fazer parte de um grupo de pessoas que não faz a mínima questão de que você faça parte.
Porque toda a vez é igual, nunca muda.
E eu fico me perguntando: o que estou fazendo aqui?
Porque paguei 15 pila para ver uma banda que não adianta pedir porque nós não vamos tocar porra nenhuma, e porque continuo aqui, pagando quatro reais por uma latinha de cerveja e suando os bigodes enquanto estes caras tocam, uma após a outra, músicas com gosto de pizza quatro queijos?
Eu poderia ouvir Beatles e todas as músicas que os gringos cantam sem problemas, desde que houvesse um mínimo de democracia.
Pois, de uma coisa tenho certeza: eu não era a única lá dentro que estava a fim de ouvir Raul, ou qualquer coisa que não fosse aquilo que estava tocando.
Inclusive um guri me falou, depois da gentileza do cantorzinho que se negou a atender o público que estava ali, prestigiando a bosta de seu show:
- Esses caras são engraçados: gostam de posar de cult, de intelectuais, e não conhecem nem o rock que foi produzido em seu país.
Não, eles não conhecem.
Eles só conhecem literatura estrangeira, rock estrangeiro e, possivelmente, marcas estrangeiras.
Porque não vão para os estrangeiros, então?
Ops, lembrei.
Não são eles que devem sair de cena.
Sou eu.
Sou eu a incomodada, não eles.
Eles estão lá, felizes da vida, cantando suas musiquinhas de sempre, com seu publicozinho de sempre e seus showzinhos de sempre.
Então eu me retiro.
Me retiro e não farei nenhuma diferença.
Mas não coloco mais o meu prestígio nem a minha euforia bêbada na frente de um palco onde, em cima, não existe nada que me interesse.
E encerro meu texto com um som (hahaha) do Raul e do Marcelo Nova que, honestamente, eles deveriam conhecer.
Eles precisavam conhecer.
Feliz 2009.
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Muita Estrela, Pouca Constelação
(Raul Seixas e Marcelo Nova)
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A festa é boa, tem alguém que tá bancando
Que lhe elogia enquanto vai se embriagando
E o tal do ego vai ficar lá nas alturas
Usar brinquinho pra romper as estruturas
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E tem um punk se queixando sem parar
E um wave querendo desmunhecar
E o tal do heavy arrotando distorção
E uma dark em profunda depressão
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Eu sei até que parece sério, mas é tudo armação
O problema é: muita estrela, pra pouca constelação
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E tinha um junkie se tremendo pelos cantos
Um empresário que jurava que era santo
Uma tiete que queria um qualquer
E um sapatão que azarava minha mulher
.
Tem uma banda que eles já vão contratar
Que não cria nada mas é boa em copiar
A crítica gostou, vai ser sucesso, ela não erra
Afinal lembra o que se faz na Inglaterra?
.
O fotógrafo, ele vai documentar
O papo do mais novo big star
Pra'quela revista de rock e de intriga
Que você lê quando tem dor de barriga
.
E o jornalista, ele quer bajulação
Pois new old é a nova sensação
A burrice é tanta, tá tudo tão a vista
E todo mundo posando de artista
(Escute aqui)