08 janeiro 2009

Eu jurei que não falaria sobre isso.

Mas não dá mais para agüentar tudo isso, calada e sem trema!
Não dá!
Estou me referindo ao novo acordo ortográfico da língua portuguesa, assinado pelo Presidente Lula - diga-se de passagem: grande conhecedor de regras gramaticais - dia 29 de setembro do ano passado.
Confesso que escrevo sem muito pesquisar sobre o assunto (jurei que não iria procurar saber nada sobre isso, e esta parte eu pretendo cumprir) e vou falando assim, sem pensar e sem saber ao certo o que estou querendo dizer.
De vez em quando, devemos nos dar o direito de querer a janela, mesmo que tenhamos pegado o trem andando.

Disseram que esta convenção pretende aproximar as culturas dos cerca de oito países e 230 milhões de pessoas que falam português.
Por isso eliminaram o trema.
Agora, ele só vale para nomes e sobrenomes, e olhe lá!
Plateia, ideia, colmeia, boleia, panaceia, Coreia, hebreia, boia, paranoia, jiboia, apoio, heroico, paranoico, podem dar adeus ao acento.
Porém herói, constrói, dói, anéis, papéis, o mantém.
Por quê?
Por causa de um tal ditongo aberto, e suas oxítonas e paroxítonas.
Ah!

Enjoo, voo, coroo, perdoo, coo, moo, abençoo, povoo agora se escrevem assim.
Aposto que você sequer entendeu as palavras acima, tamanha mutilação.
O que é coo, meu pai?
Argui, apazigue, averigue, enxague, oblique agora estão assim, despedaçados.
Simplesmente desnudaram nossas palavras!
Arrancaram suas vestimentas e as atiraram no meio da rua, humilhadas.
Imagino todas elas, sentadas em uma mesa de bar, enchendo a cara para afogar as mágoas:
- O que tiraram de você?
- O acento.
- De mim foi o hífen. Me sinto nua.
Pobre hífen.
O que fizeram com ele foi de uma violência sem precedentes.
Auto-Retrato virou autorretrato.
AUTORRETRATO!
Juro: me nego a escrever autorretrato.
Me prendam, me torturem, me atirem na parede, me chamem de lagartixa: autorretrato não, nunca, jamais!
É um estupro!
Aliás... Estupro ainda se escreve Estupro?

E digo mais: essa história de unificar os países de língua portuguesa é muito bonita e tudo e tal, mas será que vai valer o sacrifício?
Digo por que, até onde sei, ninguém por aqui (incluindo os universitários) sabem sequer as regras ortográficas antigas, que dirá as novas.
Então pra que tudo isso?
Pra que criar ainda mais problemas?
Não basta os que a gente já tem?
Antes de mudar as palavras, deveriam primeiro tê-las ensinado para o pessoal.
E que me perdoem os professores e entusiastas, mas acho regras gramaticais um negócio odioso.
Sempre achei.
Até hoje não sei para que servem.

Penso que seria bem mais fácil as pessoas simplesmente decorarem as palavras (que é o que sempre fiz) do que tentar saber, ortograficamente falando, porque cu se escreve sem acento.
E não tentem me explicar.
Eu não quero saber.

Também não acho que essa bobagem gramatical vai unificar alguma coisa.
Se nem dentro do Brasil - onde teoricamente todos falam português - as culturas se unificam, porque se unificariam lá fora?
Venha para o Rio Grande do Sul, vá para São Paulo, dê uma passada na Bahia e termine em Minas Gerais.
Em cada um destes lugares, cacetinho significa uma coisa diferente.
E o que pretendem?
Chamar pão de cacetinho em todos os cantos do Brasil apenas para nos integrar?

Ouvi o presidente da Academia Brasileira de Letras justificar essa presepada dizendo que “Hoje, é preciso redigir dois documentos nas entidades internacionais: com a grafia de Portugal e do Brasil. Não faz sentido”.
Não faz sentido?
Sentido deve ter escrever autorretrato junto e com dois erres.

Me incluirei fora dessa e não quero nem saber.
Se os editores e editoras quiserem adequar meus escritos dentro deste novo e apertado sapato, podem fazer, mas eu nem vou querer ver.
É horrível demais para mim.
Meu coração e meu senso de estética não suportarão.

Só para constar: meu word aderiu a minha revolta e se recusa a atualizar sua auto-correção.
Com hífen.
Porque fica mais bonito.
Ortograficamente falando, é claro.