30 novembro 2008

Ô mano!

Sábado, 23h, toca a campainha.
Parado no portão, um rapaz com cerca de 16, talvez 17 anos:
- Ô mano, tem dez pila aí pra emprestar?
Hã? Dez pila? Rárárá.
- Não, não tem.
- Ah, então vai tomar no cú.
- (...)

Domingo, 16h, centro de Passo Fundo.
- Ô doutor, tem uma moedinha aí para ajudar?
- Não.
- Pode ser qualquer valor, cinco, dez centavos, só pra dar uma força.
- Não.
- Ô doutor, nenhuma moedinha, nada, nada?
- Não.
- Então doutor, que Deus lhe ilumine, lhe ajude, que esteja sempre em seu coração. Bom final de semana.
- Pra você também.
- Mas doutor, não tem nem uma moedinha mesmo? Pra comprar comida. Pô, não vai negar comida né?
- (...)


Depois deste texto, talvez me chamem de fascista, simplista, anti-socialista, comedora de fígados de criancinha e outras definições semelhantes, pouco amistosas.
Não faz mal.
Só preciso deixar registrada aqui a minha indignação e o meu imenso saco cheio em relação a este pessoal considerado “de rua” que, justamente por ser de rua, acham que o resto da humanidade tem o dever moral e cívico de pagar-lhes comida, bebida e o que mais considerarem conveniente.
Nenhum dos dois pilantras que me abordaram eram doentes ou inválidos, muito pelo contrário: eram jovens saudáveis, em perfeitas condições de trabalho.
Então me respondam: porque eu, logo eu, que mal ganho uns trocados para pagar o aluguel, tenho a obrigação de sustentar vagabundo?
Não entendo.
Se eu posso trabalhar, e meu marido também pode, e meu irmão, meu pai e todas as pessoas que caminham sobre esta terra, porque estes merdas pidunchos não podem?
- Ora, porque você teve uma família estruturada, pôde estudar, teve mais chances na vida.
Ah, quer saber?
Cansei dessa ladainha.
Estamos chegando a um ponto, neste país de meudeus, onde estudar, não passar fome e vir de uma família onde não existem alcoólatras-tarados virou um problema. Ou se é um pobre miserável sem expectativa de futuro, ou se é um egoísta, preconceituoso, indiferente as mazelas sociais.
É impressionante, mas você sofre discriminação porque resolveu completar o segundo grau ao invés de abandonar tudo na quarta série.

O cara morava na favela e virou bandido?
Não é atenuante.
Dezenas nascem em favelas, e passam por mil e uma dificuldades e, mesmo assim, não se tornam bandidos. Do mesmo jeito que muitos, nascidos em berço de ouro e amamentados a leite de cabrita, são os criminosos mais salafrários e filhos-da-puta que circulam – livres – por aí.
Se o sujeito se esforçou, e estudou, e batalhou por um emprego decente, ele tem, automaticamente, a obrigação de amparar aqueles que decidiram trocar os livros e a labuta pela cachacinha e o vira-lata?
Acho que não.

A sociedade não cria os bandidos.
Eles se criam sozinhos, geralmente alimentados por uma imensa preguiça e falta de vontade para arregaçar as mangas e pôr a mão na massa.
Porque se a vida tá difícil para você, mano, pode acreditar que está igualmente difícil para mim.
Se a nossa casa não é de papelão, é porque a gente trabalhou e estudou muito para ter um lugarzinho aonde cair morto.
Se nós temos comida na mesa ao meio-dia, é porque de manhã estávamos trabalhando, e não enchendo a cara.
Se hoje nós temos um pouco mais que um guaipeca sarnento e uma calça rasgada, é porque decidimos dar um jeito nessa vida - que não é justa para ninguém - ao invés de ficarmos sentados numa esquina, choramingando as pitangas e sentindo-nos injustiçados perante as mazelas de uma sociedade tirana e cruel.

Este é um dos principais problemas do Brasil: a desculpa esfarrapada.
Todo mundo tem seus motivos e razões para justificar suas pilantragens.
Por isso eu afirmo, sem medo dos socialistas lunáticos que, por ventura, poderão vir a me atacar: se este país é paternalista, eu não sou.
E não vou tirar da minha boca para colocar na boca de nenhum folgado.
Não vou dar uma moedinha só porque o cidadão não toma banho há dez dias e está fedendo.
Nem vou ter pena, porque estes, definitivamente, não são os dignos de piedade.
Antes, terei compaixão dos trabalhadores, honestos, que saem cedo de casa e se fodem trabalhando; gente que tira seu sustento e seu dinheirinho para um sanduíche e algumas biritas do seu trabalho, e não dos bolsos de outros trabalhadores, igualmente fodidos e mal pagos.
Antes de ter pena de moleque de rua, vou ter pena daqueles que ralam o dia inteiro e ainda estudam de noite, que é para ver se arranjam um lugarzinho maneiro em baixo desse sol.
Antes de ter pena dos teoricamente excluído e marginalizado, vou é ter pena de mim, que não estou pedindo, nem matando, nem roubando, nem me prostituindo.
Tô é trabalhando, acordando cedo, agüentando chefe, salários mínimos, impostos e o escaubau.
E se eu consigo, mano, pode crer: você também há de conseguir.
E por hoje é só.
(...)


Leia aqui o texto que o Rafael de Araújo escreveu após ler este post.

26 novembro 2008

Elis, eu também quero uma casa no campo.

Mas a casa no campo mais distante de todas as casas e de todos os campos que existirem nesse mundo.
Uma casa onde ninguém possa me encontrar, e onde eu não possa encontrar mais ninguém.
Onde não tenha telefone, tevê, muito menos MSN.
Onde não tenha gente.

Estou cansada daqui.
Cansada de verdade.
Cansada à exaustão.
Cansada de me sentir cansada.
Meu coração dói.
Dor doída de coração que está machucado, tal e qual um dedo que a gente corta bem na dobrinha, e parece que nunca mais vai sarar.

Sou espírita, e o espiritismo de Allan Kardec nos diz que ninguém paga o que não deve.
Que não há inocentes nem vítimas.
Que, se você está passando por determinada situação, é porque precisa, ou merece.
Eu sei disso tudo, juro que sei.
E não só sei, como também acredito.
Mas tem horas que eu dobro o dedo e o corte volta a abrir.
E então eu me esqueço de Kardec, do Espiritismo, e só consigo me concentrar na minha dor.

Uma casa no campo não iria salvar o mundo dele mesmo.
Mas eu estaria longe daqui, e quem sabe pudesse me salvar.
Longe dessa gente doente, sem coração, maluca, má.
Gente chata, que afoga, empesta, mutila.
Gente que não é gente, nem bicho, nem coisa alguma.

Flávia foi sugada por um ralo de piscina e ficou em coma.
Ela tinha dez anos, e faz dez anos que está em uma cama, viva porém morta.
Os responsáveis (uma empresa cretina administrada por cretinos fumadores de charutos chamada Jacuzzi do Brasil – lembrem-se deste nome e sabotem) não foram punidos.
Não aconteceu nada.
A justiça não anda, e os amigos do rei continuam a sair impunes, sempre por cima da nossa carne seca.
Enquanto isso, muitas e muitas Flávias precisam conviver com a dor da impunidade, da injustiça, do absurdo.
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

Três rapazes foram torturados pela polícia e acabaram condenados a 24 anos por um crime que não cometeram.
A justiça sabotou a verdade, inventou fatos, torturou.
Há provas de sua inocência, mas não há provas de sua culpa.
Mesmo assim, eles foram declarados culpados, mesmo assim foram condenados.
Eu ouvi os gritos da mãe de um deles, na hora da sentença do juiz, e acho que nunca mais vou poder esquecer: eram grunhidos, urros.
Gritos que vão gritar dentro da minha cabeça, talvez para sempre.
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

A tevê é a maior das criminosas.
Brinca com as pessoas, procura na desgraça alheia pontos para o seu famigerado ibope.
Uma criança foi estuprada? Beleza!
Outra foi torturada pela madrasta? Melhor ainda!
Depois que Lindenberg matou Eloá, milhares de Lindendergs saíram da toca e meteram balas nas cabeças de suas namoradas adolescentes.
Sorte da imprensa marrom; azar o nosso.
E a tevê continua, divulgando para incentivar.
O que seria dos telejornais se as pessoas parassem de cometer crimes hediondos?
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

Ou troquem a venda da Justiça por um par de óculos ou tratem de também vendar os meus olhos, porque não posso mais ver, não posso mais engolir, não posso mais continuar aqui, sem fazer nada, sem falar nada, assoviando para disfarçar.
E a dor, ah... a dor não passa nunca.
Igual ao corte na dobrinha do dedo.
E quando eu esqueço da dor e me sinto novamente segura em minha vidinha pacata, dobro o dedo e o machucado volta a abrir e a sangrar.
Por isso quero ir embora daqui.
Preciso ir.
Pois, já que não posso fazer nada, já que não tenho influência alguma, nem dinheiro, nem contatos importantes; já que sou somente um latino-americano sem cheiro nem sabor, então eu quero ir.
Junto com aquele moço.
Naquele disco voador.

Elis, eu também quero uma casa no campo.
De pau-a-pique e sapê.
Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros.
E nada mais.

24 novembro 2008

O preconceito contra homossexuais não me surpreende.

Ao menos não em uma sociedade onde prostitutas, negros, mulheres, velhos e muitos outros também são colocados de lado, observados de soslaio e com desprezo por todo o resto, tão normal.
As pessoas conhecem bem todas as frases-prontas: ‘não devemos nos meter na vida dos outros’; ‘o que se faz entre quatro paredes não é da conta de ninguém’; ‘as diferenças são lindas e merecem ser respeitadas’.
Tudo muito bom.
Na teoria.
Porque na prática, no dia o dia, na hora do vamosver, é bem diferente.
E nem trato aqui dos fanáticos que criam comunidades secretas com leis próprias, e saem pelas ruas promovendo violência e morte, gratuitamente.
Refiro-me a você e eu, ao seu pai, seu melhor amigo, seu chefe, o dono do bar.
Pessoas comuns que costumam se chocar e se revoltar quando assistem pela televisão a manifestações de ódio e intolerância.
- Tá certo que o cara era gay, mas não precisava matar o coitado.Pois em minha opinião – e podem me acusar de radical, nem tô – a distância entre um sujeito capaz de matar um desconhecido pelo simples fato dele ser diferente e outro, que costuma se divertir contando piadinhas de negros e repetindo bordões imbecis como “tinha que ser um preto / tinha que ser uma bicha” não é tão grande como se pode imaginar.

A maioria dos homens que conheço – e incluo aqui meus avôs, pai, sogro, amigos e irmãos - costumam reproduzir citações do tipo 'não tenho nada contra os gays, desde que fiquem longe de mim'.
Quer dizer: o cara pode ser gay, desde que longe de nossas vistas puritanas e de moral duvidosa; esquecidos pra lá do lado de lá.
Desculpem-me, mas não tem o menor cabimento.
Porque aceitar o diferente é aceitar o diferente por inteiro.
Não adianta de nada aceitar impondo desde já mil e uma condições – até porque isso não é aceitar; é somente tentar adaptar ao seu gosto aquilo que não lhe é familiar.

Se o rapaz é gay e gosta de se vestir como mulher, qual é o problema?
Se for ativo, passivo, seja lá por onde o cidadão sinta prazer, o que você tem a ver com isso?
O que não pode faltar - e isso vale para homossexuais, bissexuais, heterossexuais, transexuais e todo o resto que ainda possa vir a existir - é respeito.
Respeito na abordagem, no comportamento, no jeito de cada um levar a sua vida; afinal ninguém precisa ser vulgar ou promíscuo, nem um gay, nem um hetero, nem ninguém.

A sociedade precisa ceder.
Nós precisamos ceder.
Precisamos aprender a nos colocar na condição do outro.
Ninguém tem culpa de amar alguém do mesmo sexo, e nem precisa ter.
Porque do mesmo jeito que você ama, e sente tesão, e desejo, e não tem nenhum controle sobre isso, os outros também sentem e também não conseguem controlar.
Precisamos entender que, quando uma mulher decide se vestir como um homem ou um homem resolve se adornar como uma mulher, eles tem esse direito, do mesmo jeito que você tem o direito de escolher entre uma calça azul e uma bermuda vermelha.
Precisamos todos perceber que, enquanto alguns querem mudar de sexo, outros não querem. Muitos preferem oscilar entre um e outro, outros gostam de se maquiar, outros se vestem discretamente, e isso, definitivamente, não é da sua conta.
Se o sujeito quer usar saia, colocar purpurina na cara ou trocar as saias pelos calções e o cabelo comprido por um boné, é direito de cada um e temos a obrigação de respeitar.
E respeitar não significa apoiar, adorar, simpatizar, muito menos apresentar tendências homossexuais.
Significa apenas aceitar.
Afinal todo mundo pode casar, ter filhos, passear de mãos dadas no parque e namorar com quem bem entender.
Não importa se você gosta de homens ou mulheres, de homens e mulheres, ou se torce pelo flamengo, se odeia berinjela, se é fumante ou não, se acredita que o homem não pisou na lua ou se prefere descafeínado.
O que vale mesmo é como você é, por dentro.
Como pensa, como se comporta, no que acredita.
Opção sexual é só opção.

O preconceito é egoísta e burro.
Além de repulsivo.
Seja por causa de piadinhas e bordões, seja através das notícias sobre crimes de homofobia e intolerância, é fundamental que se entenda que não há nenhuma diferença, além daquelas que nós mesmos criamos.

19 novembro 2008

Vassoura.

Continuo lendo a série de livros do Dr. Inácio Ferreira (1904-1988), escrita em parceria com o médium Carlos Baccelli, e continuo adorando. Um detalhe muito especial (e comum, em quase todos os seus livros) é o jeito pouco ortodoxo como Inácio (que era médico psiquiatra e diretor do Sanatório Espírita de Uberaba) enxerga determinados problemas.
Sempre quando foi indagado sobre as possibilidades e alternativas para a recuperação de pacientes insanos, esquizofrênicos e paranóicos em geral, ele respondeu:
- Vassoura.
Vassoura? perguntavam, curiosos, seus ouvintes, que por certo esperavam uma imensa dissertação acerca da psiquê humana e suas infinitas particularidades.
- Quem se ocupa com algum trabalho não tem tempo para ficar pensando bobagens, remoendo mágoas, afundando-se desnecessariamente em sofrimentos e insanidades. Vassoura não cura, mas fortalece.

E é.
Definitivamente.
Foi a essa conclusão que eu também cheguei, após colocar o dedo na tomada repetidas vezes, sem aprender que a maldita dava choque.
Porque remédios podem aliviar, especialistas podem escutar, mas o que resolve mesmo é parar de ficar a toa pelo mundo, pensando na morte da bezerra, e colocar a mão na massa.

Eu, por exemplo, sofro da doença mais idiota e modernosa que qualquer latino-americano comum pode sofrer, que é a Síndrome do Pânico.
Bem, para falar a verdade, eu acho esse nome meio catastrófico demais perante o que realmente sinto, mas é como a medicina o definiu, enfim: Síndrome do Pânico. Um transtorno psicológico caracterizado pela ocorrência de inesperados ataques de pânico, seguidos por uma expectativa ansiosa ante a possibilidade de ter novos ataques. As crises consistem em períodos de intensa angústia, geralmente com início súbito e acompanhadas por uma sensação de catástrofe iminente. Os sintomas variam entre taquicardia, tontura, boca seca, tremores e náuseas, além de muitos outros.

É mais ou menos isso que me acontece, só que em menor grau.
Passo horas do meu dia imaginando todas as dezenas de centenas de milhares de tragédias que podem acometer a mim ou aos meus, e já vou sofrendo, com inacreditável antecipação, por coisas que, muito provavelmente, nunca irão acontecer.
Se o cachorro late é porque um ladrão entrou no pátio; se a pessoa não liga é porque ocorreu alguma tragédia; se o avião passa no céu por certo vai cair bem em cima da minha casa.
São sandices, que meu consciente reconhece como sandices.
Mas e o inconsciente? Quem é que manda nele?

Eu não mando no meu, e por isso ele faz o que quer comigo.
O fato é que, desde que apresentei os primeiros sintomas, há quase dois anos, já fiz de tudo um pouco: de remédios até mandingas, não teve o que eu não tentei.

Não nego que melhorei.
Mas basta eu bobear que não dá outra: todas aquelas sensações sinistras e angustiantes voltam, com força total. É como se elas estivessem sempre ali, a me espreitar, me observar e, ao menor descuido meu, aproveitassem para cair matando.
É uma luta diária, sim senhor.
E sabem em que momentos esta batalha se torna mais leve, e eu tenho a nítida sensação de que já ganhei?
Quando estou fazendo alguma coisa.
Se estou lendo, lavando roupa, varrendo o chão, escrevendo, pagando contas, indo no supermercado, enfim: quando estou fazendo hoje as coisas que poderia perfeitamente deixar para fazer amanhã.
Somente nessas horas eu posso dizer que me sinto, plenamente, livre deste sentimento tão canalha.
A desocupação, sem dúvidas, produz monstros.

Então é isso o que posso aconselhar para você, que está tristonho, desanimado, preocupado com as contas que não param de chegar e com o dinheiro que não pára de sair.
Você que padece por amor, você que recebeu um grande golpe, que sofreu uma grande perda, que amarga dura decepção.
Você que toma tarjas pretas como se fosse água, e paga fortunas aos psicólogos e aos grandes laboratórios farmacêuticos.
Você aí, sentado no sofá, sem ânimo nem para levantar e fazer um xixi.
Para todos nós: vassoura.
Porque se ela não cura os males da alma, ao menos os coloca em segundo plano.
Afinal, quem é que vai se preocupar com o cachorro latindo e o avião voando se tem aquela louça toda para lavar?

Há!

Sabem o que eu assinei ontem?
Não, não foi um abaixo assinado pela preservação da Amazônia.
Foi um contrato.
Sim, um contrato, iguais aos que as pessoas assinam quando se casam.
Bem, igual, igual, não.
Mas um contrato, com reconhecimento de firma e demais burocracias.
E sabem de que era esse contrato?
Era um contrato de edição.

Rárárá.
Isso mesmo.
Me chamem, a partir de agora, de Janaína Contratada Lauxen.
Os originais do meu livro, Uma Carta por Benjamin, foram aprovados pela Editora Multifoco, lá do Rio de Janeiro, e o livro deve sair no início de 2009.
Genial hã?
E o melhor de tudo é que a Multifoco não é uma editora qualquer; é uma muito da bacana, sim senhor.
Especializada em publicar novos autores, não é como umas e outras que colocam todas as despesas e obrigações nas costas do (literalmente) pobre e iniciante escritor.
E falo isso de gabarito na mão, porque faz quase quatro anos que procuro editoras dos mais variados estilos e tamanhos, e não foi nem uma nem duas que encontrei fazendo propostas de edição absurdas, repassando todos os custos possíveis (e mais um pouco) para o autor.
Isso sem contar aquelas que, além de cobrar caro, apresentam um trabalho porco.
Enfim.
Isso não importa.
O que importa é que a Multifoco não é assim.
Porque através de pequenas tiragens (que variam de 30 a 100 exemplares, a critério da editora) eles conseguem lançar os livros sem repassar nenhum custo de edição e impressão aos autores. O que possibilita formar um catálogo cheio de novos escritores que, além de não arcarem com nenhuma despesa, ainda recebem sobre as vendas dos livros, podendo também adquirir seus exemplares com descontos e muito mais.
Tudo isso com a mesma qualidade das editoras tradicionais.
Ótimo, não?
E eu só falei isso tudo para dizer que você também pode mandar o seu original, e também pode publicar, e também pode fazer um post contando sobre o quanto você está desesperadamente feliz por finalmente poder publicar.
Sim, você mesmo, aí do outro lado do monitor.
Tem muita gente que eu conheci através dos blogues que estão mais do que prontos para lançarem seus livros - aliás, não sei como ainda não lançaram.
A hora é agora.
Então anotem o e-mail contato@editoramultifoco.com.br , organizem seus originais e mandem ver.

Também aproveito este espaço para jogar confetes em cima de uma editora muito bacana, e que foi a primeira a me abrir a porta e deixar um de meus escritos entrar:
É a Andross, editora súper-do-bem, onde tive o privilégio de conhecer pessoas muito legais e, ao seu lado, continuar em busca deste tal de lugar ao sol.
Valeu.

Ah!
E não esqueçam de guardar um troquinho, porque quem não comprar Uma Carta por Benjamin é a mulher do padre.

17 novembro 2008

Suvenir virtual.

Um Cara de 30 me presenteou, gentilmente, com um tal de MEME (não me perguntem, eu também não sei o que significa), que funciona mais ou menos assim:

1. Eu devo escrever uma lista sobre oito coisas que desejo fazer antes de passar desta para melhor.
2. Depois, preciso convidar oito blogueiros para fazer o mesmo.
3. Então, comentar no blogue de quem me ofereceu o Meme.
4. Avisar meus convidados sobre suas convocações.
5. E, por fim, mencionar as regras, coisa que estou fazendo agora.

Particularmente, eu gosto dessas coisas.
Mas devo confessar que bolar uma lista sobre oito coisas que desejo fazer antes de morrer me deprime um pouco.
Aliás, essas coisas sobre coisas a se fazer antes de bater as botas sempre me deixaram aflitas.
Afinal, ninguém TEM QUE fazer nada.
Se virar obrigação ou ordem, eu já broxo.
Então, mais uma vez apelando para a desordem e a anarquia, alterarei sem dó nem piedade este Meme, e descreverei para vocês oito coisas que eu não quero fazer de jeito nenhum antes de morrer.
Acho que fica menos cansativo e óbvio, e talvez até mais engraçadinho.
Bora lá?

1. Ter um filho. Não, obrigada. Crianças me dão medo e me colocam neurótica. Sem contar toda aquela história dos nove meses, barrigão e (urgh!) o parto. Chego a ter palpitações desesperadas. Sou muito mais de um cachorrinho bem treinado. Muito mais.
2. Tentar compreender o filme 2001 Uma Odisséia no Espaço. Aliás, antes de tentar compreender, preciso conseguir assistir até o final. Nada contra o diretor, que gosto pra caramba, mas absolutamente não consigo. Já tentei, já me esforcei, já me culpei, mas não dá. Simplesmente não dá!
3. Praticar algum esporte radical. Nem pagando. Pra que? A vida já é radical o suficiente e, em tempos onde não podemos mais colocar nosso nariz para fora de casa depois das oito horas da noite, dispenso o bungee jump. Dispenso! Próximo.
4. Aprender a dirigir. Isso mesmo: eu não sei, não quero saber, e só não tenho raiva de quem sabe por que preciso de motoristas dispostos a me levar de um lugar para outro, principalmente quando as distâncias são relevantes e o tempo está para chover. Carro, para mim, só serve para poluir o ar, engarrafar as ruas e estressar as pessoas. Agradeço, mas vou de trem.
5. Viajar pelo mundo. Não que eu não me interesse pelo mundo nem por viagens. Até gosto, dos dois. Mas essa coisa de conhecê-lo de cabo a rabo é responsabilidade demais para minhas costas fatigadas e meus bolsos vazios. Prefiro me abster deste compromisso.
6. Comer alguma comida exótica. Nada de grilos fritos, baratas assadas e insetos dos mais variados tamanhos e cores no meu prato. Até porque, quando estou na cozinha, sou capaz de criar uma comida pra lá de exótica apenas fazendo arroz.
7. Ficar milionária. Podem me chamar de nome feio, mas eu não gostaria. Seria bom ter uma grana para pagar as contas e se divertir um pouco, sem neuroses por causa de uma nota de 50 reais. Mas cagar dinheiro, e ter muitas casas grandes, e carros, e iates, e contas no exterior, e bebidas coloridas superfaturadas, não é pra mim. O dinheiro torna a maioria das pessoas péssimas. Não pago pra ver.
8. Me especializar. Nada é mais monótono do que um especialista.

Gostaria somente de deixar bem claro que, se daqui alguns anos vocês me enxergarem na rua com um filho, ou no cinema assistindo Uma Odisséia no Espaço, ou pulando de bungee jump, dirigindo a 120 por hora na rua Augusta, mastigando um grilo, viajando para a Antártida, morando em uma mansão gigante ou ainda especializada em vinhos, não me recriminem!
A gente nunca sabe o dia de amanhã.

Bem, continuando, eu indico, para responder a este Meme, os seguintes blogues:

- Brog da Cami
- Pensandout
- Todos os Ócios & Ofícios
- Arlequim
- Vestígios da Senhorita B.
- Através do Espelho
- A Barata
- Intersemiótica

Aí vocês escolhem se preferem escrever sobre o que gostariam ou o que não gostariam de fazer antes de abotoar o palitó.
Ah sim, já ia me esquecendo!
Se os indicados não quiserem responder ao Meme, não se preocupem.
Nenhuma assombração vai puxar seus pés durante a madrugada se vocês não enviarem isto para oito blogueiros em oito minutos.

#

Outra da boa: lembram da Zan e do 3:AM Magazine?
Pois então.
Ela resolveu me convidar, e ao querido Beto Canales (amigo virtual que conheci nesta delícia chamada Blogspot) para darmos uma mãozinha para ela, que vive fora do país e encontra dificuldades para contatar novos escritores aqui, no Brasil.
Vai ser bem bacana, pois assim a Zan vai poder se dedicar mais as traduções, o que significa que teremos mais textos, em mais línguas, em um menor espaço de tempo.

Logo, se vocês quiserem participar com seus escritos, basta dar uma conferida em algumas sugestões do 3:AM sobre o envio de textos e, concordando, mandar suas produções para esta que vos fala através do e-mail 3am.jana@gmail.com.
Lerei todos com o maior amor e carinho.
Por isso não se enrolem.
O site está cheio de novidades (e eu garanto que não é pouca coisa) e vocês não vão se arrepender.
Depois não digam que eu não avisei.

#

E o Robson, que mantém, além do seu blogue, um outro voltado somente para arte e literatura, chamado Pensandoarte, me convidou a escrever um textículo por lá.
Enviei para ele um, chamado Ditadura: Adote-me e ele já está no ar. Passem lá.
Isso me deixaria feliz.

#

Vou me mudar para a Cidade de Cabeça-prá-Baixo.
Onde ninguém precisa fazer nenhuma coisa que não tenha vontade.

13 novembro 2008

Blogosfera no Poder.

Afobório, em seu blogue sinistro porém do bem, lançou um desafio para todos os blogueiros de plantão: copiar a frase BLOGOSFERA NO PODER e escrever sobre o tema, livremente, sem lenço e sem documento.
Valendo crônica, conto, poesia, música, palpites, uma frase que seja. Qualquer coisa que coloque esse bando de internautas metidos a escrivinhadores a raciocinar sobre a sua função como blogueiro.
Aposto que você nunca havia pensado nisso, néam?
Pois é, nem eu.
No entanto, a verdade é que o tema não só é interessante como extremamente importante.
Por isso convoco a todos que estão lincados em meu blogue (e também aos que não estão, mas são espertinhos e sabem que vale a pena aderir a causa) a copiar a frase Blogosfera no Poder e, em seu blogue, mandar ver sobre o assunto.
Afinal, todos podem fazer.
Mas quem pensa sobre o que faz, faz melhor e faz toda a diferença.

Blogosfera no Poder

Queiram ou não queiram os intelectualóides de plantão, o fato é que os blogues já se transformaram em um meio de comunicação quase tão forte e sólido quanto os jornais, a tevê, as revistas e os próprios livros.
Com a diferença de que, para se ter um blogue, você não precisa de padrinhos, costas-quentes, jabás, diploma, nem precisa estar no lugar certo, na hora certa, falando com a maldita pessoa certa.
Você só precisa querer.
E isso é democracia pura.

Eu, que desde pequenininha já gostava de dar pinta de escritora por aí, encontrei nos blogues a oportunidade de ser lida – que é, basicamente, o que interessa para qualquer aspirante a escritor.
E não estou sozinha.
Não mesmo.
Quantos e quantos talentos não começaram a aparecer, tal e qual andorinhas em início de verão, desde que disponibilizaram para nós, meros internautas, a chance de dar pitacos e meter o bedelho em tudo, em nossas páginas pessoais?
Aqui podemos falar o que queremos, sobre o que queremos e do jeito que queremos, sem nos preocuparmos com anunciantes xaropes e editores sem coração.
Aqui podemos mandar as editoras as favas.
Aqui fazemos chover, aqui mandamos e desmandamos.
É a liberdade, definitivamente, abrindo as asas sobre nós.

Estamos, todos nós e cada um, iniciando uma pequenina (porém barulhenta) revolução, onde escrever não será mais privilégio de meia dúzia; onde não importa quem está na presidência, nem quais são os seus contatos, nem se você tem dinheiro, prestígio ou um rostinho/bunda bonito.
O blogue é para todos, e por isso é tão forte.
E dada a qualidade dos textos dos blogues por onde eu passeio, e considerando as cabeças pensantes que fazem estes blogues - e que estão pouco se lixando para o que os outros vão pensar - eu garanto, com um discreto sorriso sarcástico no rosto:
Cuidem-se todos os reis, amigos de reis e asseclas!
Nós estamos chegando e nós vamos tomar o poder.
Quem viver, verá.

12 novembro 2008

O careta.

O careta é um sujeito previsível.
Chato.
Você sempre sabe, de antemão, o que ele vai falar e fazer, e a hora exata em que ele vai falar e fazer, e o jeito preciso e metódico com o qual ele vai falar e fazer.
O careta nunca surpreende.
Nunca muda.

O careta não gosta que discordem dele.
Fica ofendido.
E mesmo que você prove, por A + B, que está com a razão, o careta permanece irredutível.
Ele é o dono da verdade.
Ele tem certeza em relação a todas as suas certezas.

O careta é um cara que classifica as pessoas baseado no número de tatuagens, no corte e na cor do cabelo, no tamanho das calças e da barba, e em outras coisas que não fazem a menor diferença.
O careta sempre julga, e sempre condena.
O careta despreza quem é diferente dele.
É covarde.

O careta não muda de opinião.
Jamais.
E também não acredita em mudanças;
prefere pensar que tudo vai continuar exatamente como ele: intacto.

O careta acha que não se deve dar um sanduíche para uma criança que tem fome, porque chama isso de assistencialismo.
E ele considera o assistencialismo errado.
O careta é cheio de discursos gordos em teorias e metáforas idiotas, mas é absolutamente incapaz de tirar do papel aquilo que estufa o peito para proclamar.

O careta é exibido.
Vaidoso.
Megalomaníaco.
O careta não sabe amar, porque não aceita as pessoas como elas são.

O careta gosta de julgar, mas detesta quando é julgado.
Adora apontar o dedo, mas não admite que ninguém o aponte o seu.
O careta quer comer a filha do vizinho, mas não aceita que ninguém queira comer a sua.
Ele é quadrado, gosta de rótulos, gosta de dar ordens.
O careta é adepto de todas as convenções sociais.
Ele não enxerga o próprio (e imenso) rabo.

O careta é um sujeito que dá sono.
Que enjoa.
O careta quer sempre aquilo que não tem.
O careta não muda quando chega o verão.

O careta gosta de títulos, e posições, e sobrenomes.
Ele acredita que você precisa babar no saco das pessoas certas.
O careta vive contando dinheiro.
O careta é amigo do rei.

Com sua alma pequena e seus problemas pequenos,
o careta segue agarrado em suas pequenas certezas,
e pelo mundo vai.


Livrai-nos, senhor, da caretice dos homens.
E perdoai-os;
Eles ainda não sabem o que fazem.

10 novembro 2008

Sobre alguns assuntos eu prefiro não comentar.

Assuntos que deixam as pessoas neuróticas, dispostas a declarar guerra umas contra as outras somente porque possuem opiniões diferentes.
Assuntos que transformei em tabu para evitar a fadiga - se é que vocês me entendem.
Censurei, das minhas rodas de conversa, blábláblás em torno de aborto, vida após a morte, Paulo Coelho, futebol, esquerda/direita.
Não falo nem sob tortura.
Também não persisto mais em longas divagações, muito menos me descabelo tentando fazer os outros entenderem o que eu penso:
Arrã, você tem razão virou meu mantra.

Porque as pessoas têm o costume de punir quem não é exatamente igual a elas:
“O que eu espero senhores, é que após um breve período de discussão, todos concordem comigo“, disse Churchill, certa vez.
Eu nunca fui com a cara desse tal de Churchill.

É por causa desta mania xarope de tentar transformar todo mundo em uma extensão de nossa própria personalidade que passamos a vida inteira acreditando nas mesmas coisas, e conversando com as mesmas pessoas sobre os mesmos assuntos, nos quais concordamos completamente e, assim, não saímos do chão, não nos permitimos estar, pelo menos de vez em quando, errados.
Perdemos a capacidade (se é que algum dia a tivemos) de sentar e escutar o que o outro tem a dizer, sem se alterar e querer estrangulá-lo só porque ele prefere chocolate e você morango.
E, vejam bem: não estou falando isso para você do alto da minha capacidade genuína de tolerância e compreensão.
Não mesmo.
Sou o exemplo clássico da arrogância e falta de paciência que, vejam só! eu tanto critico.
Mas... aqui entre nós, vamos admitir: não temos o costume de escutar uma opinião contrária a nossa sem tentar impor a nossa verdade, a qualquer custo.
Não conseguimos apenas ver ou ouvir o que discorda de nós; precisamos tentar a tudo modificar conforme (e exatamente) os nossos moldes.
Já aconteceu com você, já aconteceu comigo.
Acontece todos os dias.

Mas, evidentemente: isso não significa que não somos esforçados.
Bem que tentamos.
Gostamos de apregoar discursos acerca da igualdade, da liberdade e da fraternidade, e levantar uma bandeira em defesa do respeito às diferenças, mas bastou a pimenta arder em nossas vistas e as botas pisarem em nossos calos que já viramos a casaca e, de um instante para o outro, nos transformamos em únicos e incontestáveis donos da verdade.

Precisamos mudar isso.
Intransigência é um defeito fodido.
Foi por causa da intolerância de uns e outros que muitas cabeças já rolaram ao longo da história.
Não importa se em maior ou menor grau, onde há um déspota há também confusão e pancadaria.

Opinião diferente não é, necessariamente, contrária.
Não estamos contra uns e outros.
Apenas estamos.

E numa época em que Obama faz ressurgir, até nos mais céticos, uma gotícula de esperança - um filete de luz no fim do túnel - eu digo sem medo de parecer piegas: eu também tenho um sonho, Martin.
De que um dia todas as pessoas - incluindo eu - possam sentar em uma mesa de bar e falar sobre aborto e Paulo Coelho sem sequer alterar o tom da voz.
Onde o diferente não será mais ameaçador.
Nem para mim, nem para ninguém.
Então poderemos voltar a conversar.

07 novembro 2008

Olhem que agradável!

Mal e mal iniciei minha saga pelo universo pragmático e misterioso do Blogspot,
e já ganhei três selos simpáticos para o meu blogue metidinho.
Recebi dois destes e um deste.
O primeiro eu ganhei da Arlequin e da Raphaela, respectivamente, e o Dardos novamente da Arlequin.
Agora eu deveria indicar, para o Oscar, meus dez blogues favoritos e, para o Dardos, quinze.
O que significa que, num somatório geral, eu precisaria indicar aqui 35 blogues para receber os selos.
Ou seja: é demais.
Acho que nem conheço 35 blogues diferentes.
Por isso, quebrando todos os protocolos e convenções sociais, premiarei com ambos os selos meus doze blogues favoritos.
E tá decidido.

1. Afobório
2. Casa das Mentiras
3. Contos do Lixo
4. El Club Silencio
5. Sabe de uma coisa?
6. Fabricio Romano
7. Mim nem leu
8. Chispa Daqui
9. Cinema e Bobagens
10. Palavrinhas e Palavrões
11. Tiro na Têmpora
12. PensandoArte

Então é isso.
Os Escolhidos que levem seus selos para casa, façam suas escolhas e inventem suas regras.
A partir de agora, cada post é um flash.
Rárárá.

05 novembro 2008

Os amigos do rei.

O rei, sentado em seu trono, está nu.

O rei comprou um painel em branco, acreditando levar para casa a pintura que somente os inteligentes poderiam ver;
ele, por certo, não via nada ali – no entanto, dizia que sim:
- Claro, eu enxergo. Eu sempre enxergarei.

O rei não olha pela janela e, quando olha, não vê.
O rei está só, mas não sabe.
O rei está morto e, ainda assim, vive como um rei.

O rei está gordo de tanto comer,
e inchado de tanto beber;
é este, apenas este, seu real prazer em ser alteza: comer e beber à vontade.
Comer pelos famintos e beber pelos sedentos.
Comer e beber até preencher este vazio que dói ali dentro,
tal e qual um estômago esfomeado.
É a solidão, que ele deixou de saber.
É a morte, que ele deixou de morrer.
Por isso nada - nada - sacia o rei.

O rei, sentado em seu trono,
está nu,
e está gordo,
de tanto ser rei.
Confia nos homens que o cercam
e no povo que conduz
sem saber (como nada sabe) que a confiança de um rei não pode ser depositada em qualquer homem,
e que povos se rebelam quando a fome vira lei.

O rei observa o painel em branco
que comprou por tantos pesos de ouro,
e tenta, tenta,
mas não consegue enxergar nada ali.
O rei olha pela janela de seu castelo,
tentando alcançar seu reino com seus olhos de rei;
e tenta, tenta,
mas não consegue enxergar nada ali.

O rei, distraído em sua realeza, não ouve os burburinhos do motim.
O rei, comendo e bebendo sem parar, não percebe os primeiros sinais da erupção.
O rei olha para o seu reino,
e nada vê.
O rei está cego,
está surdo
e está nu.

Existe quem lute contra o rei,
e eles são muitos.
Muitos que não querem ser amigos do rei.
Muitos que desejam derrubar o rei.
Muitos que já perceberam
o rei morto.

As paredes do castelo ressoam palavras de ordem:
- Cortem a cabeça do rei!
Mas o rei não escuta, embriagando-se de vinho e croissants.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei está nu e não enxerga.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei está cego, e não pode ouvir.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei devora um pernil de ovelha, estrebuchando enquanto mastiga.
Pensa que morrerá sem enxergar a pintura que somente os inteligentes podem ver.

A porta que protege o rei
é derrubada,
ele sequer consegue terminar o seu jantar.
Eles chegaram,
eles finalmente chegaram.

- E agora? Cadê os amigos do rei?
- Eles se foram.
Todos se foram.
Não sobrou ninguém.

Um rei sem reino e sem cabeça
não pode ser amigo dos amigos do rei.

03 novembro 2008

Versus

Aqui no Rio Grande do Sul, como em qualquer parte deste Brasilzão, existem dois times antagonistas capazes de transformar simples jogos de futebol em verdadeiros clássicos do esporte: o Grêmio e o Internacional – o Gre-Nal.
Rivais antigos, tradicionais, atemporais; praticamente co-dependentes.
As torcidas vivem para secar uma a outra e, muitas vezes, são capazes de ficar mais contentes com a derrota do adversário do que, propriamente, com a vitória do seu time do coração.
Vocês sabem bem como é.
O caso é que, neste momento, o Grêmio é líder isolado do Campeonato Brasileiro, tendo em seu encalço o São Paulo que, com a mesma pontuação do tricolor gaúcho, somente possui uma derrota a mais.
E hoje, justamente hoje, o São Paulo joga contra quem, hã, hã, hã?
Exatamente.
Contra o Internacional.
Ou seja: se o colorado perder, estará colaborando para desbancar seu maior e mais consagrado rival da liderança; se ganhar, estará ajudando o Grêmio a manter sua confortável posição.
A vida arma dessas arapucas.
O fato é que faz uma semana que não se fala de outra coisa por estas bandas: os jornais armaram enquetes e fizeram pesquisas, os comentaristas esportivos piraram a cabeça, torcedores foram entrevistados perguntando o que achavam disso tudo e para quem iriam, no final das contas, torcer.
Virou capa de jornal, virou matéria especial no Lance Final.
Uma verdadeira mobilização.
E todo esse bafafá me colocou a pensar sobre uma coisa: assim como no futebol, em nossas vidas também gostamos de jogar desta maneira equivocada e pouco segura.

Explico melhor: se um time está preparado, e possui jogadores qualificados, e um plano de jogo decente e sério, isso o levará inevitavelmente para a vitória, para o título de campeão, certo?
Então se nós, enquanto pessoas e enquanto cidadãos, nos condicionarmos a sermos melhores, e buscarmos não cometer mais tantos erros, e procurarmos modificar em nós os erros que gostaríamos de modificar no mundo, e tentarmos alcançar nossos objetivos de um jeito decente e sério, cedo ou tarde, chegaremos lá.
Não precisamos sabotar nossos concorrentes, nem torcer pela sua derrota, pois estaremos fazendo o nosso melhor, e é através do nosso melhor que chegaremos aonde pretendemos chegar.

Acontece que, nem nos estádios nem em nossas próprias vidas, agimos assim.
Erramos o tempo inteiro e, o pior: repetimos os mesmos erros o tempo inteiro.
Somos incompetentes, mal preparados e absolutamente preguiçosos.
O que acontece?
Através dos nossos erros consecutivos, deixamos de ser os únicos responsáveis pelo controle de nossa vitória e, então, nos vemos obrigados a dividir este encargo com outros, que nem sempre terão a boa intenção de nos ajudar.
Precisamos fazer o que nos compete fazer, nada mais.
E não adianta vir com essa cara de eu-não-sei-o-que-me-compete-fazer, porque você sabe sim.
Pode estar desanimado ou de má vontade, mas sabe exatamente que atitudes precisa tomar para conseguir o que deseja – seja lá o que possa ser.

Evidentemente que, mesmo dando o melhor que temos para dar, encontraremos pelo caminho adversidades, problemas e encheções de saco: algumas vezes daremos azar, outras vezes pensaremos em desistir, e quase sempre tentaremos encontrar um culpado, e teremos dias ruins e algumas pessoas vão querer nos derrubar.
Mas seguindo adiante, firmes naquilo que chamamos de propósitos, não tem jeito: é nós nas cabeças.
Afinal se o outro precisa errar para você acertar, então é porque você está ferrado.

Em tempo:
Este texto foi escrito na tarde de domingo, dia 2 de novembro, antes da trigésima terceira rodada do brasileirão 2008. Considerei significativo relatar aqui que o Internacional perdeu de 3 a zero para o São Paulo (que subiu para o primeiro lugar) e o Grêmio empatou em um a um (caindo para terceiro).
Rá!