30 outubro 2008

A pergunta que não quer calar é:

Tolerância zero é a solução?
Pensei muito até escrever este texto.
Porque realmente não sabia se era, ou não, a melhor saída.
Mas após muito pensar e, avaliando situações reais, envolvendo pessoas reais - inclusive do meu parco convívio, concluo, tristemente: sim; tolerância zero, definitivamente, é a solução.

Darei exemplos, até porque gosto de dar exemplos: determinada pessoa te aborrece, certo?
Ela sabe que te aborrece, e parece não se importar nem um pouco com isso, pelo contrário.
Você a avisa para não mais lhe aborrecer, você a alerta que, caso ela insista, muito em breve não poderá mais responder pelos seus atos.
No entanto ela ignora, ela duvida que você tenha coragem.
Você mais uma vez a previne, e conversa, explica, desenha, e ela nada, só te aborrecendo.
Então, numa quarta-feira qualquer, esta determinada pessoa te pega num dia ruim e, sem cerimônias nem meias palavras, você a manda tomar no olho de seu respectivo cú e desaparecer da sua frente imediatamente. Às vezes se faz necessários alguns bofetões, mas geralmente palavras de baixo calão resolvem a questão sem que necessário seja deixar feridos.
E, desde então, todos os aborrecimentos que esta pessoa te causava desaparecem, como num passe de mágica.

É ou não é assim?

A desgraçada poderia muito bem ouvir seus argumentos, pensar no assunto, compreender que estava passando dos limites e te enchendo além da conta e simplesmente parar, sem que preciso fosse gritar e proferir palavrões.
Mas não.
Enquanto não tomam um chacoalhão, enquanto não escutam uns berros e levam uns tabefes, não sossegam.
Nunca vão por bem.
Só no tranco.

Não sei se vocês viram na tevê, sobre o caso de um sujeito que comprou uma geladeira.
Pagou a vista, tudo certinho, mas a geladeira simplesmente não funcionava.
O que ele fez?
Como um cidadão ponderado, telefonou para a loja, telefonou para o Procon, telefonou para a fábrica e outra vez para loja, e outra vez para o Procon, e outra vez para a fábrica.
Passaram-se 4 meses e o infeliz (que, relembrando: pagou a vista) continuava com sua geladeira estragada.
Um belo dia, exaurido em suas forças civilizatórias, o rapaz carregou a dita-cuja até a frente da loja e, com uma foice, a furou em mil pedaços.
A jogou no chão, pisou em cima, sapateou, fez um gritedo.
Juntou gente para ver e, claro, alguém filmou tudo: o pobre consumidor lá, desesperado, descontando toda sua fúria, sua raiva e sua selvageria em cima do eletrodoméstico defeituoso.
O que aconteceu?
De um minuto para o outro, a loja se comprometeu a dar ao pobre homem uma geladeira nova.
Óquei, que legal.
Mas... eles não poderiam ter feito isso antes?

Particularmente, não gosto de escarcéu.
Não gosto de ofender as pessoas, nem de sentir ímpetos assassinos; como também não gosto de pessoas destruindo geladeiras no meio da rua.
Mas eles forçam a barra, insistem, nos obrigam a tomar uma atitude drástica.

Óbvio: nossa primeira atitude deve ser cortês.
Devemos pedir, gentilmente, que o filhodaputa dê o fora.
Mas depois de quatro meses, não pense duas vezes antes de pegar sua foice e partir para a ignorância.
Acredite, é a única linguagem que eles entendem.

28 outubro 2008

Meus queridos leitores:

Por motivos técnicos e monetários, não estarei com internéte essa semana, ou seja: não estou com tempo (lê-se dinheiro - as lan houses perderam a noção!) para fazer post novos e, principalmente, responder os comentários.
Mas li todos, e agradeço de coração.
Muito em breve, tudo estará reestabelecidos e nossos serviços voltarão ao normal.
Aguardem.

Muak.

27 outubro 2008

3:AM Magazine Brasil

Notícias felizes!
Uma moça muito simpática e gentil chamada Zan entrou em contato comigo através deste blógue, me apresentando o 3:AM Magazine, um site de cultura e literatura do Reino Unido que está no ar há mais ou menos 7 anos.
A versão em português do site estreou há cerca de um ano, e é um primor, uma belezura.
Quem cuida de tudo é a Zan, com a qual estou trocando e-mails e fofocas.
E agora, como toda metida a besta que se preze, eu me enfiei por lá também.
Você pode ler minha primeira contribuição aqui.
O melhor é que alguns dos textos publicados no site em português são traduzidos para o inglês, para figurar a página lá do Reino Unido, ou seja: talvez-quem sabe-pode ser, um dos meus pretensiosos textículos pode acabar traduzido para a língua dos gringos.
Adoro.
Tô morrendo de emoção aqui.

Gostou da notícia?
Pois isso não é nada.
Você também pode participar enviando seus escritos.
É, você mesmo.
Vale conto, prosa, poesia, crônica, palpite, o que você tiver aí, na memória do seu computador.
Basta mandar para este e-mail 3am.brasil@gmail.com e esperar o contato da Zan.
Vale muito a pena e eu faço questão que todos vocês participem.
Eu vou ficar muito feliz e a Zan (que cuida praticamente sozinha do site brasileiro) também.
Mandem lá.

E pra Zan, meus agradecimentos mais sinceros pela súper-oportunidade.
É por esta e por outras que a gente continua, cada vez mais pretensiosos e metidos a besta.
Bora lá pessoal!
Iéié.

25 outubro 2008

Vou contar uma história.

Uma história que alguns de vocês devem conhecer.
É sobre um homem chamado José, e um circo.

Aparentemente, José e o circo nada tinham em comum.
Estavam distantes, cada qual em seu canto: o circo e seu respeitável público de um lado, e José, sua família, seu emprego e sua vida comum de cidadão comum do outro.

Acontece que um dia o circo pegou fogo.
E José, que talvez sequer soubesse de sua presença na cidade, assistiu a tudo pela televisão: a lona derreteu, choveu fogo.
Mais de quinhentas pessoas morreram, em sua maioria crianças.

Qualquer um de nós teria ficado chocado.
Triste.
Horrorizado.
Talvez chorássemos.
Talvez indagássemos a existência de Deus.
No entanto, enquanto pessoas como eu e você elaboravam conjecturas a respeito do incêndio, José deixou família, emprego e coisas de pessoas como eu e você para trás, e passou a viver no terreno onde antes o circo estava montando.
Sobre as cinzas da tragédia plantou flores, fez uma horta.
Deu carinho, atenção e consolo para as famílias das vítimas e, algum tempo depois, decidiu tornar-se um andarilho; porque voltar para sua velha vida não fazia mais sentido nenhum.
Virou figura certa em praças, parques, ônibus e metrôs, o profeta e sua barba imensa, sua cara mansa, suas palavras doces: gentileza gera gentileza, ele dizia, e todo mundo se sentia um pouco melhor.
Gentileza se tornou conhecido porque parecia ter qualquer coisa que faltava em nós.

Ele não era uma ilha, não estava preocupado com
coisas que não interessam quando chove fogo em cima de crianças.
Por isso o admiramos, por isso falamos sobre ele, por isso inventamos teses e escrevemos livros sobre sua vida, acreditando que, em um futuro muito, muito, muito distante (quem sabe, um dia) possamos entender o que ele entendeu quando tomou essa decisão.
Dá um nó em nossas cabeças, eu sei.
Afinal o admiramos, mas jamais faríamos parecido.
Não queremos deixar para trás nossas coisas, e nossas famílias, e nossos objetivos, e viver somente (tão somente) para os outros.
Ainda não alcançamos tamanho desprendimento e não há nada de errado nisso.
Pelo contrário.
Ninguém precisa abandonar tudo e virar um andarilho; precisamos, sim, é deixar de lado nossa enorme presunção, e entender definitivamente que o mundo não muda somente através de grandes feitos heróicos, duelos, revoluções e muito barulho.
Não!
Ao contrário do que pensamos, o futuro da humanidade não está nas mãos do Bush.
Está nas suas, e nas minhas.
Podemos exercer nosso poder de transformação todos os dias, nos momentos que consideramos mais triviais:
Você pode ser gentil com a caixa do supermercado.
Pode agradecer ao cobrador de ônibus.
Responder um comentário com carinho e atenção.
Você pode ajudar uma senhora cheia de sacolas, e comprar um sorvete para o menino de rua.
Pode dar cinco minutos da sua atenção – a maioria das vezes é somente isso que os outros esperam de você.
Não precisamos virar heróis.
Não precisamos virar profetas.

Podemos continuar bem aqui onde estamos, com nossas vidas, e nossas rotinas, e nossas manias; só precisamos interagir com o mundo de um jeito mais camarada e solidário.
E o melhor é que exercer nossa gentileza diariamente não é apenas um bem que fazemos aos outros, e ao mundo.
Fazemos também por nós, para nós.
Nem sabemos explicar ao certo de onde vem aquela sensação gostosinha, que parece injetada em nossas veias toda vez que doamos aquilo que existe de melhor em cada um de nós.
Ah, vocês sabem do que estou falando.

A verdade é que duvidamos da nossa capacidade de mudar o mundo a nossa volta.
Menosprezamos nosso poder de transformar a nossa vida, e a dos outros, acreditando que as pessoas precisam de muito mais do que, na verdade, realmente necessitam.
Precisamos de casa, comida, educação, trabalho e saúde.
Evidentemente que sim.
Mas também precisamos de gentileza, de doação, de carinho, de respeito, de atenção.
E isso nós temos para dar.
Não importa como anda nossa economia, nem se o dólar subiu ou desceu.
Porque existe um pouco de José em mim.
E, acredite: em você também.

24 outubro 2008

Olha que bacana:

A Câmara Brasileira de Jovens Escritores está lançando o livro Panorama Literário Brasileiro.
Foram selecionados 141 trabalhos entre os mais de 7 mil inscritos nas seletivas entre 2007 e 2008.
Os textos foram escolhidos a partir da análise do Conselho Editorial da CBJE e a opinião de leitores.
E adivinhem?
Hã?
Hã?
Hã?
Sim, um de meus filhotes preferidos habita esta edição especial.
Você pode lê-lo bem aqui, se quiser.

E, conhecendo a qualidade dos textos de meus adoráveis leitores, aproveito e deixo aqui a dica: acessem o site da CBJE e confiram as antologias que estão rolando este mês.
Vale muito a pena e sua única obrigação é comprar um (unzinho só) exemplar.
Eu recomendo.
Muak.

23 outubro 2008

Post 12 em 1:

1. Está previsto para dezembro o lançamento do livro Réquiem para o Natal, da Editora Andross. A publicação reúne contos de terror natalinos de escritores de todos os cantinhos mais remotos do Brasil, e promete.
Você pode adquiri-lo através do site da Andross ou com o Cavanhas, um dos autores.
É barato, vale a pena e é um ótimo presente de natal para acabar com os sonhos e as ilusões daquela tia chatonilda que, todo final de ano, se emociona com a data e deixa a Simone cantando Então é Natal a noite inteira.
Recomendo.

2. Vocês viram que o pai da menina Eloá, assassinada sexta-feira pelo ex-namorado, é suspeito de ser foragido da polícia? Sim, é. Dizem que o infeliz integrava um grupo de extermínio, acusado de assassinar o delegado Ricardo Lessa, irmão do ex-governador Ronaldo Lessa, lá por meados de 1991, em Maceió.
Confirmando a teoria de que nada está tão ruim que não possa piorar.
Falando nisso, li em algum lugar que Lindenberg, o estudante carente em crise amorosa, vai para o mesmo presídio (A Penitenciária 2 de Tremembé), e para a mesma ala onde atualmente residem os irmãos Cravinhos (acusados do assassinato do casal Richthofen), o Nardoni-pai e Matheus da Costa Meira (condenado a 120 anos de prisão por entrar com uma metralhadora em um cinema, matar 3 pessoas e ferir outras 4).
Ou seja: só gente boa.

3. Te cuida Steven Spielberg: mal comecei a dar meus primeiros passos rumo à fama, ao sucesso, ao dinheiro e a posteridade (rárárá) e já ganhei um Oscar.
Sim, este adorável selo aí do lado me foi carinhosamente ofertado pela queridoca Arlequim, a quem muito agradeço.
Devo, agora, indicar dez blogues que eu acho bacana para receberem o selo também.
Vou pensar aqui.

4. Cuspindo no prato que comi: ouvi rumores de que as agências experimentais de publicidade e jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo fecharam as portas; o que significa o fim de estágios para muitos estudantes.
E o pior é que não surpreende.
Me formei na UPF, estudei na FAC, trabalhei na Agex de propaganda e, posso garantir: estes estágios eram a única chance que os alunos tinham para aprenderem alguma coisa decente nestes (péssimos) cursos oferecidos pela UPF nas áreas de artes e comunicação.
Agora, não resta mais nada.
É o fim, o último ato, o suspiro derradeiro.
Pelo menos a máquina de café ainda continua intacta, e é a única coisa que vale a pena por lá.

5. É só comigo ou todas as pessoas que você conhece também estão perdendo o emprego?

6. Ah, eu sou gaúcha. Com orgulho e tudo o mais. Como churrasco no domingo, tomo chimarrão todos os dias e sempre me emociono assistindo A Casa das Sete Mulheres.
Acho os gaúchos cheios de qualidades e, sinceramente, não penso em deixar o meu amado e idolatrado estado que, de tão metido, até já quis se separar do resto do país.
Porém existe uma característica peculiar entre os peões e prendas desta querência que me deixa, honestamente, horrorizada: o machismo, que aqui no sul já virou tradição.
É evidente que machismo e machistas existem nos quatro cantos do Brasil – e do mundo – mas aqui virou bandeira, cultura, motivo de orgulho e dedicação.
As mulheres são machistas.
Os homens (óbvio) são machistas.
As crianças são machistas.
Os animais de estimação são machistas.
Aqui, homem não pode falar fino, precisa comer todas as mulheres, não pode ser delicado, educado, sensível, deusmelivre chorar.
Aqui, homem tem que coçar o saco, falar alto, ser grosso, bater as esporas no meio da sala e fazer a família inteira correr assustada para os quartos.
Aqui, homem pode comer a irmã dos outros, mas ninguém (NINGUÉM!) pode comer a sua.
Aqui, os pais levam os menininhos para a zona quando eles fazem 14 anos, que é para garantir que seu herdeiro vai ser um MACHO, e dos bons.
Aqui, para muitos e muitos, é melhor um filho morto que um filho gay.
Barbaridade?
Sim, uma barbaridade.
E o pior é que as mulheres compactuam com essa loucura toda.
Afinal, não podemos esquecer que, quem educa este bando de machistas presunçosos são elas, as mães.
No entanto, como para cada ação existe uma reação, de castigo por serem tão bobalhões no quesito “igualdade sexual”, os gaúchos ganharam de presente do resto do país a fama de bixas.
Sabem como é, o humor sempre vai pisar nos calos, senão não é humor.
E eu acho é muito do bem feito, se querem saber.

7. A crise nas bolsas atinge meus bolsos: o tiozinho que vende doces caseiros aumentou em 30 cents seus produtos alegando “os problemas lá com o dólar, sabe?”.

8. Definitivamente, tamanho não é documento: vocês viram que, em Taiwan, um rato oferecido como almoço para uma cobra matou a serpente e saiu ileso?
Aconteceu.

9. Sempre fui fã de quadrinhos. Sempre. Não tanto os de super-heróis, mas a Turma da Mônica sempre teve lugar cativo no meu coração.
Lia sempre, lia todos.
E agora, tanto tempo depois e com os gibizinhos consideravelmente mais caros (seria o dólar?) leio só às vezes, quando vou na casa dos meus primos e lhes surrupio alguns exemplares.
A última vez que cheguei em casa com a bolsa cheia de gibis descobri, com alegria, que a turma havia ganhado dois novos personagens: Dorinha, uma menina cega, e Da Roda, um menino que anda de cadeiras de roda.
O mais bacana é que suas deficiências são apresentadas com muita naturalidade e sem melodramas: Dorinha, sem a visão, desenvolveu espantosamente suas demais percepções e Da Roda é considerado pelas meninas da turma “um gatinho”.
Palmas também para o cão-guia da menina e para todas as adaptações mostradas na casa do menino, como rampas e barras de apoio. Muito, muito bacana. Afinal, é de pequeno que se desentorta o pepino, e nada é mais fantástico do que as crianças poderem crescer sabendo que ser diferente é absolutamente normal.

10. Me perguntaram se eu sou contra ou a favor do aborto.
Sou contra, veementemente contra.
E isso significa que eu não faria, de jeito nenhum.
Mas é óbvio que não tenho nada a ver com aquilo que os outros fazem.
É isso.
Sou contra.
E fim de papo.

11. Leiam com carinho este texto logo abaixo, retirado do Blog Updaters:

"Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado?
É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro.
Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ong, lobby ou pressão que resolvesse.
Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia."

Ai.

12. Os insetos voltaram. E o verão também.

Os leitores imaginários deste blogue que perdoem o excesso de assuntos completamente diferentes num mesmo post.
Sou péssima para definir prioridades.
Agradeço a compreensão e muak.

:)

22 outubro 2008

Quem?

JANA LAUXEN  tem 26 anos, é escritora, autora do livro Uma Carta por Benjamin (Ed. Multifoco, 2009, 136 páginas, R$28). Trabalhou como editora do Selo Literarte (Ed. Multifoco). Organizou, em parceria com outros escritores, as coletâneas Assassinos S/A (contos policiais, com Frodo Oliveira), Crônico! (crônicas brasileiras, com Beto Canales) e Quadrinhos em História (HQs, com Sergio Chaves).
Publicou a historieta Pela Honra de Meu Pai, pela Mojo Books, inspirada na banda Pata de Elefante. Foi editora da versão brasileira da revista eletrônica inglesa 3:AM Magazine, e também uma das idealizadoras do projeto E-Blogue.com (in memorian). Participou de mais de 10 coletâneas, sendo a mais recente Galeria do Sobrenatural, da Terracota Editora.
É colunista da revista independente Café Espacial, da revista virtual Zena e do jornal O Caiobá (Tapejara - RS).

20 outubro 2008

What?

Começar a namorar com 12 anos é normal.
Com um cara sete anos mais velho? Normal.
Ter vontade de terminar com esse namoro três anos depois é normalíssimo.
Este namorado ser um psicopata obsessivo – acreditem – é normal.
Um psicopata obsessivo ter uma arma e muita munição ao alcance das mãos é súper-normal.
Este mesmo psicopata obsessivo invadir a casa da namorada transtornado de ciúmes, não deveria: mas também é normal.
Sim, senhoras e senhores, tudo isso é normal.
Completamente normal, muito mais do que gostaríamos, muito mais do que deveria ser.
E por isso mesmo, quando li na segunda-feira sobre o caso das duas mulheres, feitas reféns pelo namorado de uma delas, nem me importei.
Afinal isso vive acontecendo.
Até já virou estatística.

No entanto, o psicopata obsessivo era mais psicopata e mais obsessivo do que se imaginava.
As mulheres seqüestradas ainda nem eram mulheres, mas duas adolescentes, de quinze anos.
E o tal seqüestro, que em casos semelhantes dificilmente se estenderia mais que algumas horas, se alastrava por quase cinco dias.
Isso está cheirando mal, pensei.

O resto da história, já estamos carecas de saber.
Exatamente como carecas estamos de saber o quanto é normal nossa polícia se mostrar despreparada, desqualificada, mal paga e mal amada.
Mas admitam: vocês não acreditavam que pudesse ser tanto.
Eu mesmo, confesso, não acreditava.
Aliás, ainda não acredito.

Não acredito na seqüência de erros que cometeram, não acredito que devolveram a refém, não acredito que se negaram a explodir a cabeça do pulha só porque ele era um rapazinho "em crise amorosa", não acredito que permitiram que uma barbaridade dessas durasse cinco dias, não acredito que invadiram o cativeiro com balas de borracha e sem nenhum planejamento, não acredito no tempo que aquele policial demorou para subir a escada e entrar pela janela, não acredito que eles realmente acreditaram que, depois de tantas horas, tudo ainda pudesse acabar bem.
Não acredito, não posso acreditar.
Nenhuma técnica, nenhum plano B, nenhuma preparação, nada.
Apenas um bando de marmanjos fardados, mais apavorados que o próprio seqüestrador, tentando resolver no “deixa-disso” uma situação drástica que pedia uma resposta drástica – e imediata.

A opinião pública ia cair em cima dos policiais do mesmo jeito, se eles houvessem matado o seqüestrador?
Pode ser, mas eu duvido.
Talvez os chatonildos dos Direitos Humanos resmungassem um pouco, mas o cretino obsessivo nunca mais iria apontar armas para cabeças de adolescentes, e Eloá e Nayara estariam agora vivas e sorridentes atualizando os seus orkutes.
Mas não.
Ao invés de pensar nelas, pensaram nele.
Para evitar que o malandro sem antecedentes tomasse um tiro nas fuças, consentiram para que elas, então, tomassem em seu lugar.
Só que elas também eram estudantes e também não tinham antecedentes criminais.
Se Lindenberg nunca havia cometido nenhum crime, que se foda, agora ele está cometendo.
A polícia é paga para defender o cidadão, não o bandido.
Ou será que me enganei?

E o pior: estes policiais tiveram tempo e motivos de sobra para chegar a estas conclusões que, humildemente, vos apresento aqui.
Nayara contou tudo nas poucas horas em que ficou longe da mira de Lindenberg: ele já chegou atirando no computador de Eloá, agrediu os meninos que acompanhavam as garotas, bateu na ex namorada, deu tiros na direção de policiais e jornalistas, intitulou-se príncipe do gueto. Depois prosseguiu falando besteiras em cima de besteiras, ora mais calmo, ora mais eufórico, ora ouvindo um anjinho, ora um diabinho, ora parecendo um suicida, outra hora um homicida.
Isto por acaso são características de um pobre estudante em crise amorosa?
Também acho.

Coitados, e a culpa nem é da polícia – ao menos, não diretamente.
Eles estão lá, colocando a cara na linha de tiro, sem treinamento, sem armamento, sem qualificação, por meia dúzia de trocados no fim do mês.
Eles deram o máximo e não conseguiram o mínimo.
Falta competência e treinamento, mas também falta segurança, dignidade, salários decentes.
E policiais são profissionais que, ao lado de médicos, não podem se dar ao luxo de errar.
Nunca.
Mas, também ao lado dos médicos, policiais erram o tempo todo.
Mostram, todos os dias, o quanto estão perdidos, despreparados, vulneráveis.
Sua função é importante demais para ser tratada com tanto desdém.
E por este descaso grosseiro, um menino de três anos como João Roberto acaba recebendo os tiros que deveriam ser contra Lindenberg.

Desculpem se aqui me excedo.
Se não vigio minhas palavras nem o jeito como as apresento para vocês.
A verdade é que, neste momento, mais escrevo do que, propriamente, raciocino.
Mais vomito do que falo.
Mais vocifero que pondero.
Essas palavras estão aqui, entaladas, engasgadas, apenas precisam sair.
Precisam explodir.

Porque, definitivamente, nada disso é normal.
Não pode ser.

17 outubro 2008

O demônio está chamando.

Dandandan dandandandan, dandandan, dandandan.
Chama um celular no apartamento de Marcelo que, entretido, assiste televisão.
Ele demora a perceber; aquele não é o toque do seu telefone.

O celular insiste.
Ele finalmente nota.
Abaixa o volume da tevê; confere que o seu telefone continua quieto no seu bolso.
Estranha.

Levanta-se e tenta acompanhar o som da chamada: dandandan, dandandandan, dandandan.
Parece vir da lavanderia.
De baixo daquelas roupas sujas.
Dandandandandandan, dandandan, dandandandan.
- Porra, deve ser urgente.

Ali está.
Um aparelho preto, do tipo mais comum.
Sem dúvidas estragado, pois o visor não mostra o número de quem chama, não mostra nada.
Na verdade, não tem visor.
- Alô?
Silêncio do outro lado da linha:
- Alô? – ele repete.
- Alô amigo.
Voz esquisita.
Rouca, estridente, sinistra.
Nem deu para saber se tratava de homem ou mulher.
- Hã, é, bem, não sei quem você está procurando, mas acabei de encontrar esse celular e...
- Não se preocupe, é com você mesmo que quero falar.
- Comigo?
- Sim, Marcelo, exatamente com você.
- Ué, como sabe meu nome?
- Eu sei muitas coisas. Mas permita apresentar-me: sou Lúcifer, o Demônio, o Satã, o Príncipe das Trevas. O Todo-Poderoso do avesso. Prazer.

Segurando o aparelho no ouvido, Marcelo caminhou até a sala e sentou-se no sofá, matutando.
Evidente que aquilo era uma brincadeira de algum de seus amigos.
Mas, quais amigos?
Nem os tinha, e não recebia ninguém em sua casa há muito tempo.
Como aquele telefone veio parar na sua lavanderia, embaixo de suas roupas sujas?
Como aquele sujeito sabia o seu nome?
Ficou curioso.
- Quer dizer que você é o diabo?
- Hã... – a voz no outro lado pareceu subitamente embaraçada – na verdade, amigo, diabo não é dos meus apelidos favoritos. Não sei explicar, me passa uma idéia meio ridícula, distante da minha real condição de imperador de todas as maldades.
- Tudo bem. Te chamarei de demônio, pode ser?
- Me chame como quiser. O que tenho para lhe falar é ainda mais importante que minhas diferentes alcunhas.
- Pois fale, então.
- Certo. Este é um serviço exclusivo de nosso sistema de telemarketing, e você foi criteriosamente selecionado...
Marcelo interrompeu:
- Como é? Telemarketing? Telemarketing diretamente do inferno?
- Exato.
- As novas tecnologias são realmente abrangentes.
- Sim, são. Agora se cale e deixe-me prosseguir.
Marcelo, que até estava achando aquilo tudo muito engraçado, corou. Que falta de educação! Sua mãe sempre avisou que o diabo era petulante.
- Como dizia, seu nome foi criteriosamente selecionado para se tornar nosso representante legal aí em cima, no andar térreo. Pelo que observamos em nosso cadastro para potenciais servidores, você possui as características necessárias para fazer parte de nossa grande família.
- Como assim?
- Pelo que vejo aqui – e Marcelo ouviu pelo fone que a criatura do outro lado da linha remexia em alguns papéis – você é, basicamente, um desocupado. Um preguiçoso. Não trabalha, não estuda, não pensa. É viciado em tevê e coca-cola, não possui nenhum objetivo, nenhuma utilidade, nenhum amigo – pois, até do trabalho de conservar uma amizade você se dispensou. Enfim. És um nada. Um zero à esquerda. Um peso morto que apenas ocupa espaço físico sobre a terra. Estou certo?
- Hã, não é bem assim. Apenas estou tentando encontrar o meu caminho e...
- Ah, claro, a velha desculpa. Não me aborreça com ladainhas, meu filho. Vamos em frente.
O diabo pigarreou e continuou:
- Como nosso representante legítimo, seria lhe oferecido certas vantagens, evidentemente. Privilégios, regalias, benefícios, essas coisas que vocês, humanos, tanto apreciam. Você poderia continuar com sua vida estúpi..., hã, quero dizer, sossegada, e ainda receber algum por isso.

“Quando a esmola é demais, o santo desconfia”.
Marcelo já havia lido isso em algum lugar.
- E eu não teria que fazer nada?
- Ora, também não é assim. Estamos falando em negócios, business, não é? Eu ganho, você ganha, nós ganhamos. Senão se torna injusto.
- E desde quando o demônio é justo?
- Desde sempre, onde já se viu! Nunca cometi uma injusta sequer na minha longa jornada perversa. Você há de convir que a maioria das pessoas facilita muito as coisas para mim.
Marcelo calou-se.
Ele continuou:
- E então?
- O que?
- O que acha da minha proposta, afinal de contas? Sim ou não?
- Sinceramente, eu gosto. Mas quero saber exatamente o que vou precisar fazer, e também não vou assinar nenhum documento sem a presença do meu advogado.
- Ora, não seja tolo. Que advogado? Você não tem nem onde cair morto, vai querer me dizer que tem um advogado? E outra: não trabalhamos com assinaturas. Aqui vale a palavra e o aperto de mão.
- Duvido.
- Não me tome por você, ser desprezível. Se não pode oferecer sua palavra como garantia, então não tem nada para oferecer.
- Tudo bem, tudo bem, não se altere. Mas diga, qual será o meu trabalho?
- Simples: você precisa apenas e tão somente INCOMODAR. Nada mais. Se tornar a pedra no sapato dos outros, impedir o andamento das coisas, atrapalhar a vida de quem ousa me desafiar. Você entende, pequenas amenidades.
- Isso não parece certo.
- E não é. Mas honestamente não lhe compete avaliar e decidir o que é certo ou errado neste mundo. Já que você não serve para nada mesmo, ao menos aproveite sua inutilidade para uma causa maior. Para a minha causa maior, por exemplo.
- Incomodar os outros dá trabalho.
- Ora, que nada! Trabalho nenhum. Todo mundo anda estressado, nervoso, mal humorado. Basta uma faísca para estourarem, para perderem as estribeiras, para fazerem tudo errado, para caírem na minha. Você nem precisará se dedicar; está todo mundo predisposto para o mal.
- Acha mesmo?
- Tenho certeza. Analise as pessoas: são terríveis. Todas doentes, cruéis, estúpidas, grosseiras, limitadas, deslumbráveis, gananciosas e baratas.
- Nossa, obrigado. Vindo de um demônio, isto deve ser um elogio.
- Sim, pode-se dizer que sim. E por isso lhe garanto: seu trabalho será sossegado. Tudo está ao nosso favor, só precisamos ajudar com um pequeno empurrãozinho. E é justamente para isso que preciso de sua contribuição. Sou um demônio muito ocupado.
- Sei. Mas... e você age livremente, impunemente? Quero dizer, não exista quem se oponha a você? Não me venha dizer que é unanimidade...
- Unanimidade exatamente não. Sabe como é, sempre existem aqueles xaropões que cismam em aceitar e seguir o Homem lá em cima. De qualquer maneira, são minoria, não representam nenhuma ameaça. Não será fácil me tirar do poder.
- Como tem tanta certeza de que está no poder?
- Meu caro, eu vejo nas ruas, eu sinto no ar. Estou mais poderoso do que nunca, acredite.
Marcelo se calou.
O demônio percebeu que perdia terreno.
Toda vez que os humanos se colocavam a pensar, era sinal de que não cederiam tão facilmente às suas ofertas:
- Ora, diga sim ou não, de uma vez!
- Acho que não vou aceitar.
- E porque não??? Você foi um dos escolhidos!!! – respondeu o demo, todo exaltado.
- Por isso mesmo. Você está desesperado atrás de novos asseclas porque não está mais conseguindo renovar seu estoque de almas sofredoras e rancorosas. O que só pode significar que o seu espaço e o seu prestígio, aqui na terra, estão caindo progressivamente. E não serei eu a aceitar trabalhar em uma empresa prestes a decretar falência.

Do outro lado da linha, Marcelo escutou um grunhido que não saberia comparar com nenhum grunhido que já ouviu em sua vida, de nenhum ser que já andou sobre esta terra.
Um grunhido dolorido e odioso, que ele nunca mais conseguiu esquecer.
- Falência??? Como ousa...?
- Ah, e quer saber? Vai falar assim com a sua vovózinha, seu demônio feio e mal educado.
E bateu o telefone.
Na cara do Príncipe das Trevas!
Ora bolas, pensou, deixar o demônio falando sozinho não é para qualquer um e não é todo dia.
Já havia conversado com outros demônios, em outras ocasiões.
Demônios que não assumiam sua verdadeira identidade, mas eram, de fato, demônios.
No entanto, deixá-lo falando sozinho era a primeira vez.

Sentiu-se feliz e orgulhoso de sua ousadia.
Não, não queria ser um aliado.
Não queria mais alugar sua cabeça para diabo nenhum fazer de oficina.
Atirou o telefone no lixo.
Desligou a tevê.
Abriu a porta e saiu para o mundo.

16 outubro 2008

Eu tenho uma amiga.

Sim, uma boa amiga.
Aliás, mais do que isso: uma grande amiga.
Estupenda.
Infinita.
Adorável.
E hoje, especialmente hoje, esta querida (pessoa fantástica que me faz sorrir pelo simples fato de estar ali) está de aniversário.

Nessas horas complica.
O que dizer para ela?
De que jeito demonstrar o imenso carinho, e o imenso respeito, e a imensa gratidão que sinto aqui, no peito, de um jeito que ela seja capaz de entender, em sua intensidade, em sua dimensão?

O que me tranqüiliza é que eu sei que ela entende,
porque ela sempre entende, tudo.
Entende sem que eu precise dizer;
entende até quando não deveria entender.

Hoje ela está de aniversário, e eu queria escrever o texto mais lindo e mais puro que já escrevi na minha vida, e lhe oferecer de presente, para ela guardar dentro do livro que mais gosta, como se fosse uma pétala de flor.

Ou fazer um desenho sobre todos os meus pedaços - que ela sempre juntou - e sobre como cada um desses pedaços a adora, a respeita e precisa dela.

Uma música, quem sabe, que ela pudesse ouvir todas as noites antes de dormir. Uma música capaz de tirar de seu coração qualquer dor ou angústia que, por ventura, venha ali se infiltrar. Uma canção de abstração.

Sim, eu a amo.
Exageradamente; irracionalmente.
E tudo que ela desperta em mim é bom.
Porque ela nunca me deixou só.
Nunca me acusou.
Nunca me usou.
Nunca me desrespeitou.
Nunca.

E sempre esteve ali, mesmo quando eu nem notava sua presença, mesmo quando eu nem percebia seus cuidados e sua proteção, mesmo quando eu queria estar sozinha.
Ela ia; mas sempre ficava.
Como toda boa amiga deve fazer.

Minha querida:
Não vou lhe escrever um texto, porque textos se perdem no tempo com muita facilidade;
também não vou fazer desenho nenhum, pois desenhos rasgam, mancham, desbotam.
Menos ainda vou compor uma canção, que pode simplesmente parar de tocar.

Vou é lhe dar o meu coração.
- Mas isso você já me deu.
E te dou de novo,
e de novo,
e de novo,
e de novo,
uma coleção de corações, todos meus, para você.
Corações que já sobreviveram a muitas batidas,
porque sempre puderam estar ao lado de pessoas como você.

Eu estou com você, e com você eu vou.
Te amo, minha mãe.
Parabéns.

15 outubro 2008

Círio de Nazaré.

Ontem assisti ao programa Profissão Repórter.
Caco Barcellos e sua trupe se meteram (literalmente) na (imensa) procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, que acontece em Belém do Pará e este ano reuniu mais de 2 milhões de fiéis.
Para quem não sabe (eu não sabia) os romeiros percorreram cerca de 4 km, da Avenida Presidente Vargas até a Basílica de Nazaré, no centro da capital.
A chamada Corda do Círio (foto) é o lugar mais disputado, pois é ela quem puxa a Berlinda da Virgem e, apesar de seus 350 metros de comprimento, é insuficiente para a quantidade de mãos que buscam segurá-la.
É impressionante.
As pessoas se esmagam umas contra as outras.
Suas mãos sangram, seus pés são pisoteados, triturados.
Quando voluntários da procissão aparecem com água no meio da multidão, as bisnagas são disputadas com fervor e desespero.
Todos os fiéis foram com os pés descalços.
Fazia 38 graus.
Milhares desmaiaram, outros milhares passaram mal, alguns poucos desistiram.
Deu briga, confusão, tumulto.
Cerca de sete horas depois, com a chegada à Basílica, muitos romeiros tiraram de seus bolsos facas e canivetes, na tentativa de cortar um naco da corda e levarem consigo para casa uma prova do testemunho de sua fé:
- Isso é sagrado – gritava um, com um pequenino pedaço enrolado entre os dedos.
A cena chega a dar nos nervos: pessoas fora de si, se acotovelando, numa muvuca danada, todas portando nas mãos objetos cortantes.
Honestamente, não sei como ninguém perdeu um dedo ou ganhou um talho na bochecha.

Evidentemente que eu não estou aqui para criticar a fé de ninguém, muito, muito pelo contrário.
Todas as manifestações religiosas são válidas quando existem para um propósito maior – e do bem.
E mesmo que eu nunca participe de romarias, nem entre em igrejas nem cultue imagens, respeito muito quem o faz.
Mas confesso que assistir a matéria preparada por Caco Barcellos e o pessoal do Profissão Repórter me incomodou um pouco.

É que me deu pena.
Pena daquele povo (o nosso povo), suado, cansado, machucado, exaurido, se espremendo numa tentativa insana de demonstrar sua fé, de pagar suas promessas, de segurar na tal da corda sagrada e talvez conseguir agradar ao seu Deus.
Todos tão sofridos.
Todos buscando perdão pelas suas indigências; todos querendo devolver, com suor e sangue, a graça recebida dos altos.
Comove, sabe?

Sei que não parece, mas sou uma pessoa de muita fé.
Acredito em Deus e em muitas outras coisas, e me basto com a minha crença individual, isto é: pessoalmente não sinto necessidade de buscar em templos e teorias a confirmações para aquilo que me é verdade.
E na minha verdade, Deus e seus santos e anjos não gostam de ver seu povo incutindo a si próprio tanta dor e provação.
Porque a vida já é difícil, e o Todo-Poderoso sabe disso.
As pessoas não têm emprego, não tem saúde, não tem educação. Passam fome, passam necessidades, padecem com a violência, com o descaso, com a miséria.
E quando não é a pobreza material que assola tantas e tantas vidas, é a miséria espiritual que nos torna amargos, infelizes, ranzinzas, abandonados.
Sofremos o tempo inteiro porque somos humanos, imperfeitos, incompletos.
Buscando sempre alguma coisa que não sabemos ao certo o que é, sempre com aquela sensação de vazio que, por mais que se possua, nunca se completa.
Falo de mim, de você, da empregada da sua avó, do cobrador de ônibus, do empresário que anda num carro importado, da moça bonita que passeia pela rua.
Falo de todos nós.

Daí o motivo pelo qual senti tanta pena daquelas pessoas esmagadas, estropiadas, machucadas, caminhando quase sem forças para ratificar o significado e a força de sua fé.

Por isso tenho essa impressão, de que Deus e a própria Virgem de Nazaré não devem gostar de ver seu povo sacrificando-se ainda mais em seus nomes.
Acho que, lá de cima, eles devem olhar aqui para baixo e se penalizar:
- Não, meus filhos, vocês não precisam fazer nada disso. Não precisam me pagar, não precisam sofrer nem se violentar em meu nome. Sou pai, não sou padrasto. Não cobro nada para cuidar de vocês.

Porque a fé, assim como o amor, não pode fazer sofrer.
Não pode machucar, não pode violentar.
A fé é bonita, tranqüila, sossegada.
E para exercê-la, não é necessário buscar templos, imagens, procissões, cordas sagradas: ela está dentro de cada um de nós, e é no dia a dia que a exercemos.
Quando fazemos um sanduíche para uma criança que tem fome, ou quando tratamos com carinho o nosso semelhante.
Quando buscamos fazer o bem e não o mal, quando oramos, quando vigiamos nossas ações de modo a verificar se elas estão em acordo com aquilo que acreditamos.
É assim que pagamos nossas promessas.
Agindo pelo bem, todos os dias, e não somente pela dor, durante algumas horas.

Repito: longe de mim criticar a procissão do Círio de Nazaré.
É um ritual pela fé, para a fé, e por isso sempre terá o meu respeito e a minha consideração.
Mas não posso deixar de pensar que não é esfolando nossas mãos, nem ferindo nossos pés, nem imolando nossa saúde e o nosso bem estar que estaremos demonstrando nosso amor e nossa gratidão por Deus ou por qualquer outro santo.
Tomara que um dia nosso povo perceba isso.
Enxergue que sua fé age dentro, não fora.
E não sangra, nem dói; apenas reconforta.

14 outubro 2008

Livre-Arbítrio.

Vagando pela rede ociosamente atrás de blogues maneiros, me deparei com um, muito interessante, chamado Sabe de uma coisa?, de uma menina de nome Flávia Brito.
Li alguns de seus textos e, quando resolvi comentar, vi o que considerei a melhor e mais clara definição para um dos problemas mais graves e sérios e tristes e preocupantes da nossa geração intelectualóide.
Ela escreveu: Os comentários deste blog não são moderados. Fale à vontade, se expresse, xingue o juiz, chame um palavrão, contanto que o conteúdo esteja de alguma forma relacionado ao texto em questão. Comentários ofensivos, agressivos e afins, contudo, serão sumariamente deletados - "libertinagem de expressão" é prejudicial à saúde.
Libertinagem de expressão.
É exatamente isso.
Sem tirar nem pôr.
Não sei quem inventou, mas traduz com requinte e detalhe uma (péssima, porém latente) característica da geração pós-ditadura (sim, a nossa): a falta de noção sobre o que fazer com a liberdade que recebemos de mão beijada, embrulhada para presente, numa bandeja.
Pois, enquanto há poucos anos atrás nossos pais não podiam sequer se reunir na casa de algum amigo para encher a cara, hoje nós podemos o que quisermos: falar mal, emitir opiniões sem medo de ser feliz, palpitar, opinar, julgar, condenar, fazer e acontecer.
Obviamente, quem fala o que quer ouve o que não quer, mas aqui surge um novo personagem, que permitiu às pessoas agredirem, maltratarem e ofenderem a quem bem desejar sem mostrar a cara: a internétê.
Seja através de blogues, orkute, seja através de um simples e-mail, nada é mais fácil e prático do que inventar um nome e se colocar a atormentar a vida alheia.
E pelos motivos mais tolos: ciuminho, invejinha, intriguinha, fofoquinha e outras coisinhas igualmente pequenas e avarentas.
Isso é libertinagem de expressão: é utilizar da forma mais estúpida o maior bem que um povo pode conquistar, que é o direito de ir e vir, de falar e ouvir, de perguntar e responder.
É aproveitar-se do anonimato para, sorrateiramente, atacar, insultar, depreciar.

Como alguns de vocês já sabem, os comentários aqui no meu blogue não são moderados.
E até hoje, salvo uma pequenina exceção, não tive nenhum problema neste sentido – ainda não sofri nenhuma emboscada.
Mas sei que, mais dia menos dia, vai aparecer alguém disposto a perder seu tempo censurando e enchendo o meu saco, aproveitando-se de um nome ou perfil falso para fazer o que lhe der na telha.
E mesmo quando estes outros aparecerem, mesmo assim eu não vou moderar os comentários.
Sabem por quê?
Porque tenho certeza de que estes sempre serão minoria.
Tenho certeza que, enquanto um aparece para prejudicar, muitos outros vem para colaborar, e são por estes que não podemos vacilar, que não podemos nos deixar intimidar.
Ninguém precisa se derreter em elogios, nem eu nem ninguém está pedindo isso.
Até porque a crítica, quando é saudável e acontece dentro de um contexto adequado, é mais útil que um galanteio.
No entanto, penso eu, é necessário pertinência e um mínimo de educação na hora de soltar o verbo e falar o que bem entender.

A moderação dos comentários do meu blogue não será minha, nunca.
Será de quem vem até aqui.
Será de vocês - que participam desta minha estranha mania de dar opinião sobre todas as coisas - a moderação desta página pretensiosa e metida a besta.
Sempre será de vocês a responsabilidade de ponderar suas opiniões, sua educação, suas idéias, sua livre expressão.
Afinal todos têm o direito de dizer o que pensam.
Mas ninguém precisa ser grosseiro, nem áspero, nem boçal.
E, se você deseja investir contra determinada pessoa, pode fazer, você tem liberdade até para isso.
Mas mostre a cara.
Assuma suas posições.
Assine embaixo.
Mesmo porque o alvo de sua cólera está ali, de peito aberto, dando a cara à tapa.
E atirar pelas costas, vocês sabem: é coisa de gente covarde.

13 outubro 2008

Mini Miss

Muitas coisas são bizarras nessa vida.
O Michael Jackson, por exemplo.
Mas nada, absolutamente nada, se compara a isso:

Aliás, o que é isso?
Isso é uma criança toda emperiquitada que, sem dúvidas, possui uma mãe frustrada e louca que “sempre-quis-ser-modelo-mas-nunca-realizou-seu-sonho” e, agora, joga impunemente para cima da pobre filhota o fardo e a responsabilidade pelo que considera seu maior fracasso.
Se não é isso, acredite: é quase isso.
As pobres menininhas ainda nem aprenderam a escrever o próprio nome e já estão entupidas de maquiagem, cabelo ornamentado, cambaleantes em cima de um salto-alto, fazendo caras e bocas sensuais.
Tratadas pelas suas (pobre-coitadas) mães como legítimas bonequinhas de luxo.
Como Barbies.

A garotinha da foto, para quem não sabe, se chamada Natália Stangherlin, tem cinco anos e foi coroada Mini Miss Mundo 2008.
Ela chupa bico, toma mamadeira e é fã do Tom & Jerry, mas também adora fazer luzes no cabelo, só sai de casa maquiada, possui uma coleção de vestidos para festas e suas grifes preferidas são Dior e Lancôme.
Eu disse Dior e Lancôme!
Que medo.
Que feio.
Que saco.

E Natália não está sozinha.
Eu mesmo conheço crianças assim.
E não são nem uma nem duas, infelizmente.
Meninas de cinco, seis anos, que parecem mais adultas do que a minha mãe nos seus modos de ser, de pensar, de se vestir.
Crianças sexualizadas, sensualizadas, vulgarizadas, um terror!
E o mundo cheio de pervertidos e tarados dando sopa por aí.
Lembram da pequena JonBenet Ramsey?
Eu lembro.

E é justamente por lembrar que, sinceramente, não consigo entender.
Toda vez que enxergo uma criança mais enfeitada que pinheirinho de natal, cheia de batom e cílios postiços, fazendo poses ridiculamente sensuais, com uma faixa dependurada no pescoço, tenho vontade de desistir de tudo e virar uma eremita solitária do alto de uma montanha qualquer.
Todos deveriam ir para a cadeia: pais, mães, jurados e simpatizantes.
Porque o que fazem com essas pobrezinhas é crime - e dos mais hediondos: além de colocá-las a mercê desta vasta gama de pedófilos e psicopatas em geral, essas meninas ainda são estimuladas sexualmente desde muito cedo, e super-valorizam uma beleza que ainda está em formação.

Uma criança de cinco anos precisa ser uma criança de cinco anos: brincar como uma criança de cinco anos brinca, estudar como uma criança de cinco anos estuda, se preocupar com o que se preocupa uma criança de cinco anos.
Fazer coisas que crianças de cinco anos fazem.
Deixem para depois essa bobagem de grife favorita, luzes no cabelo e concursos de beleza.
Permitam que essas crianças cresçam e tenham, pelo menos, a oportunidade de escolher se realmente querem entrar para esse mundo cruel e competitivo onde o que vale é (somente) a beleza e a perfeição.
Permitam que elas escolham não fazer parte disso tudo.

11 outubro 2008

Cada um de nós é um universo.

Tatuei essa frase no meu braço.
Que é para ficar ali, para sempre, para nunca mais me esquecer do quanto somos, todos nós e cada um, completamente diferentes.

Por isso é tão difícil convivermos numa boa.
Porque as pessoas que nos rodeiam pensam diferente.
Agem diferente.
Resolvem seus problemas de um jeito diferente.
E nós ficamos ali, só observando e pensando que, se elas tivessem feito como a gente faria, tudo teria se resolvido para o melhor.

Será?
Será que estamos mesmo cobertos de razão?
Será que somos, verdadeiramente, os donos da verdade?

Não, suponho que não.

Mesmo assim, temos princípios.
Verdades pessoais, opiniões, conceitos.
E muitas (muitas) vezes nossos princípios, verdades, opiniões e conceitos não entram em acordo com os princípios, verdades, opiniões e conceitos dos outros.
Ah, os outros.
É nessa hora que o bicho pega.
É nessa hora que eu preciso olhar para o meu braço direito e ler o lembrete que imprimi ali, para nunca mais esquecer: cada um de nós...
Mas é difícil.
Ô, se é.

Contar até dez e respirar fundo.
Respirar fundo e rever a noção de que o outro não é você, e nunca vai agir pela sua verdade, pois possui a dele.
Respirar fundo e tirar das nossas costas a necessidade de compreender aquilo que está além da nossa compreensão.
Respirar fundo e entender que, o que para nós não passa de uma imensa idiotice, para o outro é de suma importância, e vice-versa.

O pior é que disso tudo eu sei, mas tenho imensa dificuldade de pôr em prática aquilo que me é tão óbvio na teoria.
Culpa da minha tolerância, que não existe.
E por isso eu preciso lembrar (cada um de nós...) todo o tempo, todo o dia, toda a hora, caso contrário terminarei consumida pela minha própria cólera e indignação.

Não adianta tomar veneno e querer que o outro morra envenenado.
Não adianta querer controlar o que está fora do alcance de nosso controle.
Simplesmente não adianta.
Antes de nos meter a querer entender a cabeça dos outros, precisamos olhar para dentro da nossa e, antes de mais nada, dar um jeito de decifrá-la, desbravá-la.
Revira-la para baixo.
É somente este universo que nos cabe conhecer.
Afinal os outros continuarão sendo e pensando exatamente o que são e o que pensam.

Valha-me Cristo.

09 outubro 2008

Soneto para Ressonar.

A última janela
com a última luz acesa
se apagou.
Fez silêncio sobre a cidade.
Só sobrei eu aqui.

Eu e estes malditos grilos,
eu e este cigarro que já apagou,
eu e este copo que já secou,
eu e este sono que já acordou.

O relógio na parede parou de girar.
Receio que não amanheça nunca mais.

Poemas Miúdos

Lembram da oficina de poesia para crianças que eu ministrei na Feira do Livro de Não-Me-Toque, e sobre a qual já falei aqui?
Pois é, rendeu frutos.
Frutos suculentos, robustos e apetitosos.

Durante a oficina, sugeri para a criançada que realizássemos, juntos, um projeto voltado para literatura infantil, misturando trabalhos meus e deles.
Há cerca de quinze dias, recebi um envelope pardo do colégio Ernesto João Cardoso de Não-Me-Toque, recheado de poesias. Até de turmas que nem participaram da oficina.
O único colégio, entre os vários participantes, que enviaram suas produções.
E tudo por causa de uma professora chamada Edilene que, a exemplo de seus alunos, também interagiu, se interessou, se envolveu.
A apatia dos alunos, sem dúvidas, é um reflexo da apatia dos seus professores.
Pude ver isso claramente, nitidamente, obviamente, com estes olhos que, um dia, a terra há de comer.
Os professores bocejavam e os alunos bocejavam.
Nesta ordem.
Até que surgiu Edilene e sua trupe, e tudo mudou.
Me trouxeram um livreto, produzido em comemoração aos 25 anos da escola, que reunia textos e desenhos de alunos de todas as séries.
Um livreto simples, patrocinado por empresas locais, mas que me colocou emocionada.
Porque aquele livreto, concretizado em minhas mãos, era a luz no fim do túnel para um dos problemas mais graves e tristes da educação no Brasil: a má vontade. Era a sombra e a água fresca em meio a um deserto de tédio e indiferença. Era a esperança de que não, nem tudo está perdido.
Por isso aproveito para parabenizar a professora Edilene, o Colégio Ernesto João Cardoso, os alunos e a todo mundo que, de um jeito ou de outro, acredita que pra tudo sempre tem um jeito.
Basta levantar a bunda do lugar, e fazer acontecer com aquilo que está ao seu alcance.

Mas enfim.
O material que a meninada entregou é riquíssimo.
Boas sacadas, em português correto, com concordância verbal e tudo o mais. E estou falando de alunos de quarta a oitava série, de uma escola municipal de uma cidadezinha nos confins do nada.
Tem criançada escrevendo mais e melhor que muito universitário garboso que anda por aí.
Confiram (e comprovem o que digo) os melhores momentos deste valioso material:

“A Débi é uma pessoa muito querida
ela é minha amiga;
O Augusto também é meu amigo,
mas ele gosta é de briga”.

“Sou livre pra namorar
e louca para amar.
Estou bem comprometida
com o homem da minha vida”.

“O recreio é muito animado
pois tem até namorados.
A gente come merenda
no refeitório organizado”.

“Na hora do recreio
eu creio, é maneiro:
tomar coca, comer algo
e não querer ser pedreiro”.

“Logo vem a formatura,
aí a parada é dura.
Enquanto isso
a profe
que me atura”.

“As drogas deixam a vida vazia,
coisas ruins acontecem.
O amor desaparece”.

“Ah Maria,
essas tranças
que balançam
e cantam”

“Silene ainda está a esperar.
Há uma luz
lá na cidade
a nos vigiar.
Há uma menina
lá no campo
a chorar.
Há viver seus dias tristes”.

“Com amor e respeito
vamos cuidar e achar um jeito
de voltar no tempo pra mudar
amar, reciclar, ajeitar.”

“Que vida boa
vivendo sozinho, pescando na lagoa.
Moro num lugar
onde vivem pessoas
em quem posso confiar”.

“Algo aqui me diz
que estou chegando ao fim!
Vejo uma estrela no ar
e digo que estou a ponto de apagar”

“Não há nada milagroso
nem sorte envolvida.
Tem que ter muito estudo
pois a vida não é só folia”.

"Saio de casa nas asas do vento"

“Os professores trabalham
Os alunos atrapalham
Eles estudam e aprendem
e todos juntos se entendem”

“A manhã é fatiada em duas partes”

E isso é somente uma prévia.
O projeto – que foi batizado de Poemas Miúdos – vai reunir estes e outros trabalhos da meninada, em paralelo a escritos meus.
Ou melhor dizendo, trabalhos meus em paralelo aos escritos da meninada.
Pois eles serão a base, a alma e o fundamento deste livro.
Vai ser fantástico.
Quem viver, verá.

07 outubro 2008

Cansei da Clarah Averbuck.

Ela começou escrevendo em um blogue, e agora têm quatro livros publicados, um traduzido para o inglês, outro que custa 168 reais e um filme baseado na sua obra.
É claro que eu me interessei pela Clarah Averbuck.

Comprei um de seus livros (Máquina de Pimball), li seu blogue com certa freqüência, e até procurei algumas de suas entrevistas e textos perdidos pela rede.
E, três meses depois de nosso primeiro encontro, garanto, sem medo de me arrepender: minha relação com Clarah acabou.
Se esgotou, não dá mais, não tem volta.
Mas a culpa não é dela, não, não é.
Eu é que tenho a paciência atrofiada, e existem coisas que simplesmente não agüento mais.
Coisas que me irritam, me cansam, me incomodam. Demasiadamente.
Alguns chamam isso de velhice precoce.

O fulminante fim aconteceu dia cinco de outubro.
Aliás, que diazinho do inferno!
Cheguei em casa exausta e abatida no domingo de noite (por motivo já relatado aqui) e abri meus e-mails. Não deveria. Sempre me decepciono na internéte, e sei disso. Mas resolvi arriscar mesmo assim.
Havia recebido o especial do zine CardosOnline, em comemoração aos dez anos de sua primeira edição.
Para quem não sabe, foi este zine que lançou autores como o Galera, o Pellizzari e todos estes que, atualmente, bombam por aí.
Inclusive a Clarah Averbuck.
Passei os olhos pelos textos, até encontrar o dela.
Nele, ela conta que foi assistir a um show do Ben Harper não sei aonde, e (coincidentemente) havia em sua bolsa um exemplar de seu livro traduzido para o inglês, e (despretensiosamente) ela resolveu deixá-lo no camarim, de presente para Harper. No dia seguinte, Harper mandou um de seus capangas telefonar para ela, e marcar um jantar, no qual ele a elogiou muito e a comparou com o Bukowski.
Ai, ai.
Copio e colo, logo abaixo, a gota d’água:

eu estava transbordando em contentamento. perceba, eu vivo em um
lugar onde NINGUÉM ENTENDE NADA. possivelmente você, leitor, não entende. onde todo mundo julga TUDO ERRADO. onde todo mundo faz tudo pelos motivos errados. parei de sair de casa e fico aqui no quentinho
onde tudo é claro só com meu esposo e meus amigos porque não suporto
mais. normalmente, quando chegam a mim, é para dizer VOCÊ NÃO PODE PENSAR ISSO e mais alguns impropérios infundados que mofam dentro
das cabeças pobres das pobres pessoas que não sabem conviver com nada
diferente delas sem apontar um dedo e gritar qualquer merda.
é inútil dizer tudo isso. pensei antes de contar essa história porque não queria nenhuma mácula de nenhum idiota achando que era algum
deslumbre. eu não trabalho com deslumbre. mas isso também ninguém entende, porque NINGUÉM ENTENDE NADA. e a melhor das coisas é encontrar alguém que entenda onde você menos espera. e eu encontrei o ben harper, que virou meu amigo não porque ele é FAMOSO, mas porque
ele ENTENDE. foi absolutamente do caralho. porque ele entende. porque
ele faz e sente. porque é outro nível de conversa quando a pessoa vem
de um lugar onde não importa se você tem um BLOG ou doze tatuagens ou
seja um bêbado ou uma garota ou um anão. BEYOND SURFACE, my friend. o
mundo é um lugar horrível porque isso é raro. saber que existe gente
assim faz dele um lugar um pouco menos pior e dá uma leveza no peito.
estava acostumada apenas a sentir essa leveza com gente morta. agora,
como ben disse, faz algum bem saber que podemos sofrer juntos, ainda
que não estando no mesmo lugar. o sofrimento vira uma outra coisa e
tudo passa a fazer sentido.


Tá! Tá! Tá!
Sempre esse mesmo papo.
Que saco.
A mulher só sabe dizer que ninguém entende nada, e que todo mundo é idiota, e que “por favor” a deixem em paz, e não sei mais o que.
Óquei, tudo bem, respeitemos a Lady Averbuck.
Mas já que é essa sua vontade, porque, afinaldecontas, ela expõe tanto a sua vida pessoal?
Convenhamos que, se eu escrever aqui sobre o trago que fiz ontem à noite, e sobre como estou completamente apaixonada por um cara que só quer me comer, vocês irão opinar sobre isso, certo?
Então, como não quero que dêem palpites na minha vida, abstenho-me de me exibir gratuitamente, desnecessariamente.
Mas Averbuck não.
Muito pelo contrário.
Quem já leu seus blogues e seus livros sabe do que estou falando.
Ela faz questão de falar sobre sua vida pessoal, e seus namorados, e suas festas, e suas bebedeiras, e suas intimidades.
Foi inclusive este o ponto em particular que chamou a atenção para seu blogue, em meados de 2001.
E, tudo bem, não há nada de errado nisso.
Agora, não encha meu saco nem me faça perder tempo ouvindo a mesma ladainha sempre:
No dia de estréia do filme baseado em sua obra, ela se levantou no meio da sessão para tomar uma dose de conhaque no bar.
Nos seus textos, ela só sabe dizer que seus leitores (aqueles que pagaram seu conhaque) são burros e idiotas.
E agora ainda me vem com esse papo sobre o Ben Harper? “Não é porque ele é famoso, é porque ele entende”?
Sei.
A mim ela não engana mais.
E se quer saber: eu não entendo mesmo, Clarah.
Talvez se você explicasse, pudesse ficar mais fácil.

Sempre pensei que os escritores deveriam respeitar os seus leitores.
Dar-lhes atenção, compreender que é por causa deles que se está podendo escrever, que se está tendo reconhecimento.
Lógico, existem pessoas sem noção por aí. Invasivas, petulantes, mal amadas. E estas, sem dúvidas, atormentam de verdade a vida de qualquer cidadão que esteja em evidencia.
Mas não são todos assim.
Nunca são todos.

No entanto Averbuck, como uma legítima adolescente rebelde e sem causa, joga todos os seus leitores no mesmo saco, e chuta, chuta, chuta.
Cansei de levar chutes da Averbuck.
Cansei.
Se ela não quer palpites em sua vida, não exponha sua vida.
Se ela não quer que ninguém leia o que escreve, não lance mais livros nem venda originais para o cinema.
Se acha todos os seus leitores retardados, pare de escrever.
Simples assim.

Mas não.
Ela continua.

E como sou adepta da velha e sábia filosofia “os incomodados que se retirem”, é o que faço agora, humildemente.
Realizo seu desejo, Miss Averbuck:
Saio de cena, não a leio mais.
Não a procuro mais.
Não quero mais nem saber.
Adiós Lounge!

06 outubro 2008

C de Calhorda e Cara de Pau

Sabem como foi o dia 5 de outubro de 2008 para mim?
Engraçado, e terrivelmente trágico.
Como isso é possível?
Explicarei.

Trabalhar nas eleições foi bacana.
Ganhei um adesivo escrito PRESIDENTE para colar na blusa (rárárá), a urna eletrônica funcionou magistralmente, meus colegas de sessão (ao contrário de dois anos atrás) eram agradáveis e tudo correu conforme os conformes.
A tragédia começou às 17 horas.
Milhares de fiscais de partido e curiosos em geral invadiram a sessão, e começaram a me fazer mil perguntas, me pedir mil documentos, todos falando ao mesmo tempo, massacrando minha paciência sem dó nem piedade. E eu ali, sem entender nada.
De repente, não mais que de repente, todos foram embora.
To-dos.
Só sobrou eu, a urna, e um rapazinho que, sinceramente, não sei o que fazia ali: acho que sua função era orientar os mesários, mas o guri não sabia nem falar. Eu precisava de ajuda para retirar o disquete da urna e ele mudo, me olhando, com cara de boboca que tomou um susto.
Gritei com ele, e quis matá-lo.
Mas isso era só o começo.
Quando imprimi o Boletim de Urna (aquele documento onde saem quantos votos cada candidato recebeu) vi que a tragédia iminente começava a se tornar real: o único candidato que não poderia ganhar de jeito nenhum estava disparado na frente dos outros dois.
Corri para ver os boletins de urna das outras sessões e estava lá, terrivelmente óbvio: ele estava na frente (consideravelmente na frente) e caminhava para a vitória a passos largos.
Aqui, permitam-me abrir um parênteses e explicar.
Na minha cidade havia três candidatos. Vamos chamá-los de A, B e C (isso é ridículo, mas não vou dar nome aos bois). O Candidato A e B são candidatos normais, sem rabos presos, antecedentes comprometedores ou referências péssimas.
Porém o candidato C possui um currículo mais sujo que saco de mendigo.
Quando foi prefeito da cidade, há alguns anos atrás, praticamente faliu com a máquina pública, ficou meses sem pagar o funcionalismo, foi incriminado por Impropriedade Administrativa (que, em outras palavras, significa desleixo com o patrimônio público) e etecetara, etecetara e etecetara. Isso para não falar de seu vice, que até preso já foi e possui uma carteira de identidade falsa.
Não vou entrar em mais detalhes aqui.
Não precisa.
Tudo que citei é fato, é verdade, não sou eu quem está dizendo.
Pessoalmente, não tenho nada contra o tal candidato C.
Ele apenas não presta nem para ser síndico de prédio.

E agora, passados alguns anos de seu tempestuoso mandato, quem ressurge das cinzas, cheio de sorrisos e promessas estapafúrdias?
Sim, ele, o inquebrável (como todo vaso ruim) candidato C.
Que – tamanha é sua cara de pau – foi para a televisão dizer que passado é passado, que suas mãos são limpas e “o que passou, passou, tristeza nunca mais”.
E prometendo um asfaltozinho aqui, uma cesta básica ali, quinze pilas acolá, o homem (mais uma vez) foi pras cabeças.

Óquei.
Como em toda história que envolve política, políticos e politiqueiros, o furo é bem mais embaixo, e vocês sabem.
Mas concentremo-nos no fato de que C é o novo prefeito daqui.
Pelos próximos quatro anos.
Pior que isso, só dois disso.

Continuando minha saga: 5 e 15 da tarde de domingo, eleições. Eu odiando aquela situação, e aquele guri xarope me olhando com cara de guri xarope, sem me ajudar em nada. E para agravar o que já estava pra lá de ruim, aqueles malditos boletins de urna, sentenciando que o pior estava para acontecer.
Perdi as estribeiras, literalmente.
Quem me viu no Fórum, ontem, por volta das 5 e meia, sabe do que estou falando.

Enfim.
Perdemos, e eu chorei.
Não por mim nem por essa cidade – agora jogada a Deus-dará.
Chorei porque, mais uma vez, as pessoas se mostraram estúpidas e estúpidas e estúpidas e estúpidas e mil vezes estúpidas.
Chorei porque foi injusto - e injustiça é uma das piores coisas que existem para se engolir.
Chorei porque não posso, agora mesmo, comprar uma casinha simpática no interior, cercá-la com um muro de 20 metros de altura e nunca mais presenciar os despautérios que sou (somos?) obrigada a presenciar.
Ó, senhor: me tire daqui.


Em tempo 1:
Da série só-podia-ter-acontecido-comigo-mesmo:
Tentem adivinhar em qual sessão o candidato C votou?
Sim, é claro que sim.
Na minha.
E eu tive que apertar a mão do pulha enquanto uma repórter imbecil tirava fotos.
Apertei sua mão, e foi nojento.
Mas a minha cara de desprezo para a posteridade valeu o sacrifício.

Em tempo 2:Aqui, entre os 44.393 eleitores, 6.308 NÃO COMPARECERAM. Destes 38.085 que FORAM VOTAR, 906 VOTARAM EM BRANCO e 1.193 ANULARAM SEU VOTO.
Salve, salve.

04 outubro 2008

Nós, os surdos.

Assisti um filme bacana chamado Desventuras em Série.
Bem, eu achei bacana.
Talvez você não ache.

Dizem na internéte que é baseado numa série de livros chamada "A Series of Unfortunate Events" de um sujeito de nome Daniel Handler.
Aparentemente, o filme não atrai.
Parece uma história infantil (será que não é?) e o Jim Carrey faz um dos papéis principais. Nada contra o Jim Carrey, juro. No entanto, os filmes dele nunca me inspiraram uma linha sequer.
Enfim.
Nos primeiros cinco minutos, três crianças são avisadas (sem nenhuma cerimônia) de que a mansão de sua família pegou fogo e seus pais passaram desta para melhor. Sem eira nem beira, elas acabam encaminhadas para um tio malvadão e ganancioso (o Jim Carrey. Mas a maquiagem disfarça bem) que deseja matá-las para ficar com sua herança rechonchuda.
Pulando os detalhes e indo basicamente para o que interessa: as três passam o filme inteiro tentando avisar os adultos que as rodeiam de que aquele tio deseja matá-las. Porém ninguém (nenhuma autoridade, parente distante, figurante, contra-regra, ninguém) lhe dá ouvidos.
- Crianças têm uma imaginação, não?
O final é meio idiota e nem vem ao caso (vocês já devem imaginar) mas gostei muito da maneira como a coisa foi colocada.
Afinal, se tivessem escutado as crianças desde o começo, uma série de desventuras poderia ter sido evitada.
Simples assim.

Então fiquei pensando nisso.
Talvez se a gente escutasse mais o que as crianças têm a dizer, pudéssemos descobrir um jeito mais fácil de resolver nossos problemas e levar nossas vidas adiante.
Lembra quando você era criança?
E como era legal, e feliz, e divertido, e a tristeza não durava nada, e você não tinha traumas, e mágoas, e ressentimentos, e essas coisas bestas de adulto?
Não lembra?
Então porque não as escutamos?
Porque não lhes damos uma chance de nos relembrar como se faz para viver assim?
Por quê? Por quê? Por quê?

Nós já esquecemos; elas ainda não.
Enquanto as ignoramos, eram elas quem deveriam nos ignorar - sumariamente.
E deste jeito vamos disfarçando aquilo que consideramos inconveniente (mas que Delas não conseguimos esconder), dando uma risadinha amarela, fazendo uma cara de paisagem, resmungando um comentário boboca (“ai, ai, essas crianças...”) ou as três alternativas anteriores.

A verdade dói.
A simplicidade das soluções nos incomoda.
A opinião desinteressada e sincera (explicitamente sincera) acua.
Por isso as ignoramos.
Por isso as levamos no psicólogo quando elas nos contam que conversam com um amiguinho invisível.
Por isso as mandamos para o quarto quando precisamos desabafar com a melhor amiga.
Por isso tratamos suas opiniões com desdém.
Não escutamos as crianças, e por isso somos burros.
Escutamos a tevê, escutamos o chefe, escutamos música, escutamos psiquiatras, escutamos até estranhos.
Mas não escutamos as crianças.
Nem quando querem nos dizer uma bobagem, e menos ainda quando desejam nos contar uma verdade absoluta.
Sim porque elas conhecem a verdade absoluta.
E se nós fossemos um pouquinho mais espertos, pararíamos para ouvi-las de vez em quando e descobriríamos rapidamente a saída.
Que, aliás, deve ficar logo ali.

03 outubro 2008

Pára tudo!

Acabei de encontrar na internéte um poema do Bukowski, ainda inédito para mim.
E como pensei que talvez fosse inédito para vocês também, resolvi fazer a boa ação de hoje postando-o aqui, para o deleite de todos.
Afinal, ele não decepciona nunca.


A ÍNDOLE DA MULTIDÃO

Há suficiente traição, ódio,
violência,
absurdo no ser humano comum
para abastecer qualquer exército a qualquer
momento.
E os melhores assassinos são aqueles
que pregam contra o assassinato.
E os melhores no ódio
são aqueles
que pregam amor.
E os melhores na guerra
- enfim - são aqueles que pregam paz.

Aqueles que pregam Deus
Precisam de Deus
Aqueles que pregam Paz
Não têm Paz.
Aqueles que pregam amor
não tem amor.
Cuidado com os pregadores.
Cuidado com os conhecedores.

Cuidado
com aqueles
que estão sempre
lendo
livros.

Cuidado com aqueles que ou destestam
a pobreza ou orgulham-se dela.

Cuidado com aqueles rápidos em elogiar
pois eles precisam de louvor em retorno.

Cuidado com aqueles rápidos em censurar:
eles temem o que
desconhecem.

Cuidado com aqueles que procuram constantemente
multidões;
eles não são nada
sozinhos.

Cuidado
O Homem Vulgar
A Mulher Vulgar
Cuidado com o amor deles;
seu amor é vulgar, busca vulgaridade.
Mas há força em seu ódio
Há força suficiente em seu ódio para matá-lo,
para matar qualquer um.

Não esperando solidão
não entendendo solidão
Eles tentarão destruir
qualquer coisa
que difira
deles mesmos.

Não sendo capazes
de criar arte
eles não
entenderão a arte.

Considerarão seu fracasso
como criadores
apenas como falha
do mundo.

Não sendo capazes de amar plenamente
eles acreditarão que seu amor é
incompleto.
Então te odiarão.

E seu ódio será perfeito
como um diamante brilhante
como uma faca
como uma montanha
como um tigre
como cicuta

Sua mais refinada
arte.

02 outubro 2008

Ai, ai.

Como muitas outras pessoas que andam sobre esse mundo de meudeus, eu também escrevo.
Mas há tempos parei de escrever para mim e passei a escrever para os outros, ou seja: deixei de levar a coisa por hobbie e passei a encará-la com um mínimo de seriedade e profissionalismo.
Com 19, terminei meu primeiro livro com a certeza absoluta de que o enviaria para a Editora Globo, e eles ficariam impressionadíssimos com meu talento, e então eu seria contratada, publicada e lançada ao hall da fama.
Rárárá.
Nada disso aconteceu, obviamente.
Então baixei a bola e, devagar e sempre, fui aprendendo umas coisinhas aqui e outras ali, fui vendo por onde dava para seguir e de onde eu deveria desviar, fui percebendo que existiam milhares de centenas de outras editoras além da Globo e, assim, estou até hoje, garimpando meu lugar ao sol.

No entanto, desde que parei de me considerar a "nova revelação da literatura brasileira" e decidi que escrever seria minha profissão (trabalho sério e de preferência remunerado) muitas, muitas, muitas portas se abriram.
Consegui bons contatos, participei de dez antologias, terminei um livro que, sem nenhuma modéstia, considero o meu melhor, descobri novas editoras, enfim: saí do lugar, caminhei para a frente.
As portas começaram a dar seus primeiros rangidos para finalmente (quem sabe?) se abrirem para esta que vos escreve.

Lógico, estou muito longe de aparecer no Jô e algum diretor cult comprar meus originais para produzir um filme, mas não posso reclamar.
E é justamente por ser uma aspirante a escritora ainda muito longe dos holofotes, que eu me comporto como uma aspirante a escritora ainda muito longe dos holofotes.
Parece óbvio?
Pois não é.
E é justamente aqui que começa a história.
Até então, enchi uma lingüiça como forma de ilustração.

O ponto onde exatamente quero chegar é: porque se comportar como um escritor renomado, como um rockstar, como uma modelo internacional, se você não é nem uma coisa nem outra?
Evidente que o sujeito precisa acreditar no seu trabalho mas, antes de mais nada, ele precisa ter um trabalho no qual acreditar.
Uma porrada de potenciais cantores, modelos, escritores, atores e Cia. Ltda. sequer possuem uma única música, um único texto decente, uma única peça ensaiada, nada, absolutamente nada.
Mas já estão por aí, fazendo caras e bocas, se sentindo os reis da cocada preta e dando ataques constantes de estrelismo.
Cansa, sabe?

Eu nem deveria falar sobre isso aqui, e poupar o meu e o seu tempo destas divagações acerca de quem pensa que é Deus.
O problema é que, em tempos de internéte, todo mundo virou artista ou crítico de arte, e está ficando cada vez mais difícil ignorá-los e engoli-los.

Se a arte for sua forma de trabalho, é como um trabalho que deve ser encarada.
Com responsabilidade, coerência, compromisso, seriedade.
Primeiro se planta, só depois é que se colhe - essa é a lei.
Parece careta, mas é o único jeito de dar certo.
Se você apenas quer fazer pose, dar uma de artista blasé que só bebe e pouco produz, talvez seja hora de se inscrever no Big Brother Brasil.
Eles estão sempre atrás de novos talentos.