30 setembro 2008

Por favor; não!

Eleições chegando, candidatos (que até então você nunca tinha visto mais gordos) andando pelas ruas e beijando criancinhas, propagandas políticas na tevê, nas rádios, nos alto-falantes, nos muros e nos panfletos.
É sempre assim: a cada dois anos, aspirantes a cargos públicos de todas as cores, formas e tamanhos invadem nossas casas e nossas vidas nos enchendo de promessas, santinhos e, em alguns casos mais desprezíveis, dinheiro e cestas básicas.
Bem vindo.
Essas são as Eleições Brasileiras.

Lógico, eu também não gosto.
Também me irrito com as promessas absurdas, também fico indignada com a cara de pau de alguns candidatos, também sinto ânsia, nojo, desprezo.
Também me canso.
Mas vocês haverão de concordar comigo: a coisa já foi bem pior.

Vejam os americanos: todos metidos a primeiro-mundo e com aquela insuportável superioridade patriótica, não são capazes de organizar um simples pleito. Ainda contam cédulas e sua democracia – vamos e convenhamos – é bastante duvidosa.
Em Cuba, Fidel Castro ocupou o cargo de presidente por mais de 40 anos, e só agora passou seus poderes para seu irmão – que provavelmente ficará por ali, até cair doente e então estender seu poder para outro membro da família Castro.
Até a China, milenar, culturalmente rica e muitas outras referências primordiais, está lá, obedecendo cegamente as ordens de um tal de Mao Tsé Tung.

O próprio Brasil, há pouco mais de vinte anos atrás, vivia neste regime sórdido e brochante chamado Ditadura, e fumar um simples cigarro com um amigo num bar poderia render uma sessão de tortura daquelas.
Ninguém podia expressar sua opinião, ninguém podia fugir às regras – e o estado abalizava a violência contra seus próprios cidadãos.

É claro.
Se você tem vinte e poucos anos, nem sabe o que isso significa.
Eu mesma, no alto dos meus vinte três, sei da Ditadura somente o que os livros, os filmes e os mais velhos me contam.
E talvez por não termos sofrido na pele as conseqüências de um estado déspota e intolerante, sequer possamos mensurar o tamanho da liberdade que, gentilmente, abriu as asas sobre nós em meados de 87.

Ainda não atingimos a perfeição?
Não, não mesmo.
Estamos bem longe disso.
Mas você precisa admitir que evoluímos pra caramba, muito mais do que alguns países que costumamos invejar.
Hoje, podemos escrever o que quisermos, e falar o que nos vier à cabeça, e produzir arte, e chamar os policiais de porcos sem que nada – absolutamente NADA – nos aconteça.

Mas não aconteceu assim, da noite para o dia.
Enquanto repousávamos tranqüilos em nossos berçinhos (ou, em alguns casos, ainda no saco de nosso pai), uma porrada de gente protestava, ia para as ruas, era torturada, estuprada, violada, extraditada, literalmente expulsa de seu país. Enquanto nós sequer imaginávamos o que se passava além das janelas de nossos quartos confortáveis e quentinhos, as coisas lá fora pegavam fogo.
Quando crescemos e saímos para o mundo, já estava tudo organizado.
Mais ou menos como chegar a uma festa em seu auge (a música já está tocando, a cerveja já está gelada e a banda já está no palco). Não podemos nem imaginar o trabalho imenso que deu para colocar (nem que porcamente) tudo em seu devido lugar.
E deve ser por isso, por esta nossa ignorância típica de quem pegou o bonde andando, que escutamos tantas asneiras de eleitores quando o assunto é política.

Assim, compreendendo nossa estupidez, admitindo que não somos os donos da verdade e independente das nossas concepções políticas particulares eu peço, encarecidamente: não votem em branco nem anulem o seu voto.
Não cometam este disparate contra a democracia.
Lembrem do tempo em que tudo que o cidadão mais queria na vida era poder escolher, e não podia.
A gente pode, sempre pôde.
Se os candidatos que estão concorrendo pela sua cidade não lhe agradam, escolha o que te desagrade menos.
Procure saber se o que eles estão prometendo é plausível, futrique em suas fichas e vidas pessoais, trate de descobrir de onde eles vieram, o que pretendem, para onde vão.
Não vale olhar para as fuças do candidato e simplesmente dizer: não fui com a sua cara.
Não vale falar mal de quem vende o seu voto, se nem ao menos votar você vai.
E, peloamordedeus: parem com esse discurso chato, gasto, de adolescente rebelde e retardado de que votar em branco ou nulo é uma forma de protestar.
Não é.
É apenas um jeito (imbecil e covarde) de tirar o seu corpo fora, de passar a batata quente para as mãos dos outros, de assoviar para disfarçar.
E depois, quando as coisas estiverem de mal a pior, não vá querer você, logo você, que abriu mão do direito universal de todo cidadão, querer palpitar e falar mal.

O pior é que as pessoas que tenho escutado dizer que irão anular seu voto não são ignorantes, não moram na vila diabo, não passaram fome, não sofreram abusos durante a infância, não cursaram somente até a terceira série.
Pelo contrário: é gente que fez faculdade, que lê, que tem acesso a informação e cultura.
Gente que, no mínimo, deveria ter noção do que vai acabar fazendo contra seu país, sua cidade e suas próprias vidas quando atira seu voto na fogueira.

Eu posso entender o sujeito que nem água encanada tem em casa vender seu voto por quinze pila.
Juro, posso entender.
Mas entender pessoas como alguns amigos meus, inteligentes e esclarecidos, que me dizem com a boca cheia e o peito inflado que vão jogar seu voto no lixo, me arrepia até os pêlos do nariz.

E para encerrar, de forma até piegas e apelativa, descrevo aqui uma frase de um cara muito maneiro chamado Martin Luther King que, tenho certeza, deve se revirar no túmulo toda vez que algum cidadão fala em cuspir na democracia:

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa, é o silêncio dos bons”.

29 setembro 2008

Vocês conhecem a história da Cigarra e da Formiga?

Com certeza sim, mas, de qualquer jeito, vou relembrar aqui: durante o verão, enquanto as formigas trabalhavam sem parar, a cigarra só queria saber de cantar.
Quando o inverno chegou, a cigarra começou a sentir fome e frio – afinal não havia se preparado, como fizeram suas previdentes vizinhas formigas.
Faminta e tremelique, bateu na porta do formigueiro (se é que formigueiros possuem portas) para pedir abrigo e um pouco de comida, prometendo lhes ressarcir quando o verão voltasse.
A formiga, rancorosa e egoísta, perguntou:
- O que você fazia no calor de outrora?
Ao que a cigarra respondeu:
- Noite e dia, eu cantava no meu posto.
E a chatonilda da formiga retrucou:
- Você cantava? Que beleza! Pois, então, dance agora!

Rapaz!
Odeio essa fábula.
Sempre achei a tal formiga uma caninana mesquinha e metida a besta.
Sou muito mais da cigarra - talentosa, alforriada, artista e sensível. Tô com ela e não abro.
Pensem comigo: enquanto as obsessivas e materialistas formiguinhas trabalhavam exaustivamente, como verdadeiras escravas, seguindo cegamente as ordens da rainha tirana e má, o que fazia a cigarra?
Cantava.
Ou seja: tornava o ambiente cansativo e monótono das formiguinhas mais alegre, descontraído e feliz.
Posso até dizer que a cigarra ajudou substancialmente no trabalho das formigas, tornando-o mais leve e animado.
Mas as individualistas das formigas, as caretas e previsíveis formigas, as pouco caridosas formigas fizeram o que, quando a cigarra veio pedir amparo?
Nada!
Não lhe deram nem um cházinho quente.
Rancorosas!
Bobocas!
Metidas!
E ainda por cima tem a maldita da Moral da História (odeio Moral da História, sempre odiei): Os que não pensam no dia de amanhã, pagam sempre um alto preço por sua imprevidência.
Imprevidência?
AH!
Vão empilhar coco em descida, seus xaropões.
Prá mim, a verdadeira Moral da História que quiseram, sordidamente, implantar na cabeça das criancinhas inocentes que escutavam esta fábula besta é: cantar é coisa prá vagabundo. Vocês TEM QUE ter um emprego sólido e trabalhar muito para guardar COISAS para amanhã. Mesmo que essas coisas sejam inúteis e que vocês percam o verão enfurnados numa sala, com uma gravata impedindo a sua respiração e um chefe escravocrata a lhe dar ordens.

Definitivamente: nunca gostei dessa fábula.
Tô com a cigarra e não abro!
E se ela quiser continuar cantando no verão, pode vir bater na minha porta quando o inverno chegar.
Ao contrário das formiguinhas chatas e bestas, eu lhe darei casa, comida e roupa lavada.
Até porque, na minha Fábula da Cigarra e da Formiga, a formiguinha trabalha o verão inteiro e, quando o inverno se aproxima, um humano sacana despeja formicida no formigueiro, e todas elas morrem sem ter tido a chance de aproveitar os frutos do seu trabalho narcotizante.
Bem feito!
A bem da verdade, elas só trabalham porque não sabem cantar.

25 setembro 2008

Salve Inácio!

Eu fui batizada na igreja, mas não fiz catequese, comunhão, crisma, primeira eucaristia e essas frescuras todas. Me lembro que, até pouco tempo atrás, quando contava que não havia cumprido com tais protocolos, as pessoas me olhavam com espanto e, não posso negar, certo receio:
- O quêêêê? Tu não fez?
- Não.
- Nossa.
Mas isso nunca chegou a me abalar.
Não fiz nada disso porque, lá em casa, a gente diz que é ESPÍRITA quando perguntam sobre a nossa religião.
- O quêêêê? Espírita?
- Sim.
- Nossa.

Apesar de se dizer espírita, ninguém na minha família freqüenta o Centro, faz evangelho nem cumpre com nenhum ritual.
Apenas acreditamos na maioria dos preceitos do espiritismo kardecista, e só.
Não falamos com os mortos, não adivinhamos o futuro, não curamos com as mãos e não matamos galinhas pretas durante a madrugada, como (inacreditavelmente) muita gente costuma acreditar.
No entanto acreditamos em vida após a morte, psicografia, Deus e todas essas coisas.
Eu cresci em um lar assim: quando dizia que estava conversando com a falecida vovó, mamãe não chamava um padre para exorcizar a casa.
Ou seja, sempre foi muito bom.
No entanto, provavelmente por ter nascido em um lar espírita, o espiritismo nunca tenha me interessado. Mesmo com a imensa biblioteca espírita que minha mãe sempre manteve em casa, nunca me dignei a ler até o fim um livro sequer.
Achava todos chatos, pedantes, exagerados.
Tudo me parecia muito monótono e careta.

Até o dia em que caiu nas minhas mãos uma série de livros escrita pelo Dr. Inácio Ferreira, em parceria com o médium Carlos Baccelli, que me fez rever os meus antigos conceitos: livros que desmistificaram tudo que eu já havia lido e ouvido falar a respeito do espiritismo.
Primeiro porque o narrador não se coloca numa condição semi-angelical.
Não!
Dr. Inácio é tão humano quanto qualquer um de nós, e xinga, fala alto, trabalha duro, tem medo, inseguranças, fome, como eu e você.
Ele até fuma cigarros de palha, vejam só!
Aquele famoso distanciamento entre o narrador e o leitor (que tanto me irritava na literatura espírita) simplesmente não existe.
Dr. Inácio é gente como a gente.

E é corajoso.
Tanto ele quanto seu médium, Carlos Bacelli.
Pois tocam em assuntos delicados, inconvenientes, fantásticos, curiosos, chocantes – que nos fazem, literalmente, parar para pensar.

Eles conseguiram responder a perguntas que eu sequer havia feito.

Mas afinal, porque estou escrevendo isso?
Não sei, vontade de compartilhar.
De contar que existem livros espíritas que – apesar dos títulos piegas – são bacanas, esclarecedores, surpreendentes e melhores do que tudo que você já ouviu falar a respeito de romance e filosofia.
Você não os lê; os devora.
Para quem está a fim de dar uma espiada no outro lado, é uma grande pedida.

Onde você pode encontrar os livros do Dr. Inácio:

- Planeta News

Vale a pena.

23 setembro 2008

Fui convocada para trabalhar nessas eleições.

Numa função de nome metido: Presidente de Mesa.
Com iniciais em maiúsculo e tudo.
Dizem que é a segunda autoridade depois do juiz eleitoral.
Sei não.
Isso me parece papo de quem quer impressionar.
Bem, pouco importa.
O fato nu e cru é que fui convocada.
Con-vocada.
Ou seja, não existe uma opção B.
Convocado não é um convite, que você pode negar alegando que já tem compromisso:
- Não, obrigada.
É quase como ir para a guerra.

Há dois anos atrás, também fui convocada.
Só que era para ser mesária, e minha única preocupação era coletar as assinaturas dos eleitores.
Mas presidente de mesa, essa não; é trabalho pesado.
Precisa verificar as credenciais dos fiscais, emitir uma tal de zerésima, digitar números, processar requerimentos. É o presidente o responsável por entregar para a Justiça Eleitoral uma porrada de documentos importantes, e digitar códigos imensos, e cuidar para que a urna eletrônica não entre em pane, e muitas outras funções mirabolantes que exigem concentração e responsabilidade.
Agora imaginem eu, fazendo tudo isso.
Não vai dar certo.
Óbvio que não.
E ainda por cima vai ser chato e cansativo pra burro.

Bolei um plano infalível: não iria de jeito nenhum.
Minha idéia era, basicamente, adoecer justamente no final de semana do dia 5, e já havia até arrumado um atestado médico fajuto para livrar a minha cara do trabalho duro.
Óquei, eu sei que isso não é algo para se orgulhar.
No entanto foi a única idéia que me ocorreu.
Costume, entendem?

Assim, dia 16 de setembro, novamente acabei convocada para uma reunião, onde nos seriam passadas as instruções básicas para o dia eleição.
Fui, evidentemente, para não dar bandeira.
Até porque, pensava eu, meu plano já estava elaborado e minha saída era estratégica e perfeita.

Fui lá, assisti a videozinhos falando sobre a importância dos mesários, e presidentes de mesa, e secretários, e todos que colaboram para o exercício da cidadania, e mais aquelas coisas que a Lavínia Vlasak fala nas propagandas da justiça eleitoral.
Quase morri de sono.
Mas eu tinha meu plano e era a ele que me apegava.

Só que depois, quando cheguei em casa, fiz aquilo que jamais deveria ter aprendido a fazer um dia: pensei.
E ali fiquei, matutando, ponderando, meditando, repensando, até que, num surto de boa vontade e espírito patriota decidi: vou trabalhar.
Oras, não me custa nada ser útil; e ainda por cima vai ser bom para espantar o diabo que, ultimamente, resolveu fazer da minha cabeça vazia sua oficina particular.

Amadurecer dá nisso: nossa mãe pára de nos fazer cobranças, mas a nossa consciência não perdoa.
Aquele velho discurso rebelde-sem-causa já se esgotou e, sinceramente, nessas alturas do campeonato é até meio ridículo.
Porque, analisando bem, não tem problema nenhum em trabalhar nas eleições. É até interessante, afinal, para que tudo funcione, alguém precisa colocar a mão na massa.
É ou não é?
E já que eu não preciso cuidar de filhos, nem trabalhar oito horas por dia, nem bater cartão; já que tenho a sorte e o privilégio de trabalhar exatamente com o que gosto, e nos horários que determino; já que a vida tem sido tão bacana e tão maneira comigo, porque não dar uma força?
É bem verdade que terei de madrugar em pleno domingo, e não poderei tomar um trago no sábado nem usufruir de nosso religioso churrasquinho dominical mas, e daí? É só um domingo, entre centenas de milhares de domingos que ainda virão, e no final das contas vai acabar sendo até divertido.

Sim, eles me convenceram.
Dia 5 estarei na seção 67 no colégio Sorg.
Digitando códigos e salvando a democracia.
No mínimo, vai ser engraçado.

18 setembro 2008

- Brigada Militar, emergência.

- Ô, boa noite, quem fala?
- Quem ta falando?
- Oi, meu amigo, seguinte, ó: esse bar aí do lado do Natus, sabe, o Natus da Avenida Brasil? Seguinte, eu vou ser bem sincero pra ti, ta? Eu roubei um carro ali, ta, agora. E eu peguei o carro e tinha uma criança dentro, cara, e eu não vi, entendeu, não vi. Então o que que eu fiz? Eu peguei o carro e botei o carro atrás do (colégio) Fagundes, ta? Então tu manda uma viatura lá e manda o filho-da-puta do pai dele pegar ele e levar pra casa; é um piázinho, ta.
- Ta, ok.
- Ta, valeu.


Sim.
É exatamente o que você está pensando.
Um ladrão roubou um Monza que estava estacionado na frente de um bar, às duas horas da manhã. Andou quinhentos metros e reparou que havia uma criança, de mais ou menos cinco anos, dormindo no banco de trás do veículo. Estacionou, procurou um orelhão, ligou para a polícia e ainda deu um tremendo puxão de orelhas nos pais, que esqueceram o filhote no carro enquanto, muito provavelmente, enchiam a cara de pinga.
Aconteceu ontem, aqui em Passo Fundo, a terra que inspirou a série Além da Imaginação.

Pra finalizar, nosso adorável larápio ainda advertiu: se dá próxima vez que roubasse esse Monza ele encontrasse a criança no banco de trás, procuraria seus pais e, pessoalmente, os mataria.
A identidade do ladrão que ganhou repercussão nacional ainda não foi descoberta, e provavelmente nunca será. A própria delegada de Passo Fundo, Cláudia Crusius, já avisou: “Se eu descobrir quem é, não vou pedir prisão. Assim como ele agiu de bom senso com a criança, eu também vou agir de bom senso com ele”.
Os pais – é claro – disseram estar envergonhados e arrependidos, além de muitas outras lorotas.
E eu, assim como o resto da cidade e da humanidade, fiquei com aquela sensação esquisita que toma conta do nosso estômago quando o bandido vira herói (ou, como diriam ao mais intelectualóides, anti-herói).
Particularmente, sempre tive uma puta admiração por anti-heróis. Tudo que é ANTI me atrai, começando pelos anticoncepcionais.
Agora, independente de divagações acerca do arquétipo humano, uma coisa é fato: esse mundo se encontra, atualmente, de pernas abertas e cabeça para baixo.
Ou será que sempre foi assim, e as pessoas é que não reparavam?
Não, tenho certeza que não.
Houve um tempo em que os papéis estavam muito claros e bem definidos; ou se era uma coisa, ou se era outra: vilão ou mocinho, esquerda ou direita, Mao Tsé Tung ou Gucci.
Agora não.
As máscaras caíram e todo mundo deixou suas mil facetas à mostra, despudoradamente.
Seja boa ou má, não temos mais a capacidade de refrear nossa verdadeira essência e, ao menor descuido, vomitamos a nós mesmos, como o bêbado que vomita a cachaça barata que tomou pela manhã.
Vocês não têm essa impressão?
Eu mesma, se parar para pensar na minha vida e nas minhas atitudes, posso perceber claramente o quanto sou capaz de ser uma tremenda boa samaritana em determinadas situações, e o quanto me transformo no próprio demo encarnado em outras.
Quando vejo, fiz.
Pelo céu ou para o inferno.
Perigoso, perigoso...


Até já ouço o badalar dos sinos, lá longe.
E vocês sabem o que isso significa.

15 setembro 2008

Uma Carta por Benjamin - 1º capítulo

"Não existe Deus senão o homem"
(Aleister Crowley - O Livro da Lei)

1.

— Uma carta?
— Uma carta.
— Mas quem é que manda cartas, hoje em dia?
— Ah, eu achei romântico.

Benjamin caminhou até a mesa da cozinha e pegou o envelope pardo, seu nome e endereço digitados em uma máquina de escrever.
Riu, debochando.
— Aposto que o remetente anota seus recados em um pergaminho.
Ofélia não entendeu o que Benjamin quis dizer. De qualquer maneira, não era paga para entender nada. Só sabia que, uma vez por semana, deveria ir até o apertado apartamento de Benjamin, limpar a casa, recolher as cuecas, tentar tirar os grudes de cima das mesas e as bitucas de cigarro do chão. Também devia dar uma organizada em seu ainda mais minúsculo escritório, que chamava de agência de publicidade, mas era na verdade uma fábrica de panfletos vagabundos de mini mercados e motéis baratos.
Benjamin sequer notou o pouco caso da diarista. Afastou do sofá alguns pacotes de salgadinhos, uns vazios, uns ainda cheios, e espalhou migalhas pelo chão.
Não se importou.

Querido Benjamin,

Tenho tido pesadelos.
Sei que estou afastada de ti há muito tempo, como também sei que esta carta pode até te surpreender, mas quando parei para pensar sobre minha vida – minha miserável vida — a única pessoa que me veio à cabeça foi você.
Não gosto de pensar sobre tudo que já aconteceu, e ainda hoje acontece.
Não gosto porque me faz sofrer.
Agonia—me não ter ouvido os teus conselhos, não ter seguido o teu exemplo e hoje, imaginando a imensa alegria que seria poder te dar um abraço, te pagar um vinho, sentar contigo em um bar e jogar conversa fora, penso que nada valeu a pena.
Não valeu de nada a ideologia, como também nada valeu minha ambição desenfreada e cretina, que me colocou exatamente onde agora estou.
Toda noite, os pesadelos.
Reais, sinistros, perturbadores.
Acordo e eles continuam.
Porque me lembro de cada mínimo detalhe, Benjamin, e você sabe como sou detalhista.
Espero em breve te rever.
Saudades,
Madalena

Quando terminou, voltou ao início e leu novamente.
Depois mais uma vez, e outra, e somente na quinta vez balbuciou:
— Mas que porra é essa?
Ofélia nem interrompeu sua canção, distraída tentando lavar a louça, imunda e numerosa.
Encafifou—se.
Não conhecia nenhuma Madalena, muito menos uma que sofresse com pesadelos. Outra: jamais, em toda sua monótona existência, alguém lhe dissera que gostaria de ter seguido o seu exemplo ou escutado seus conselhos.
Até porque era um sujeito comum, ranzinza, sem namorada, sem ambição, sem vontade de fazer nada; atualmente também não gostava de vinhos, muito menos de bares ou conversas jogadas fora.
Cogitou a possibilidade de ter havido um engano, mas como seria possível? A carta tinha seu endereço, escrito corretamente, e seu nome completo.
Estranho.
E enquanto Ofélia cantarolava uma moda de viola, sentiu—se subitamente sem ar. Respirou fundo duas ou três vezes, mas não adiantou; tinha a impressão de que algo comprimia seus pulmões.
Precisou sair do apartamento para pegar um ar, e Benjamin não gostava de sair do seu apartamento.
Fizesse sol ou chuva, calor ou frio, ele sempre preferia ficar.
No entanto, naquele momento, as paredes do seu muquifo pareciam lhe roubar o oxigênio, e ele bandeou—se porta afora.
“Maldita nicotina” pensou, enquanto descia afobado pela escadaria do prédio e alcançava a calçada principal.

13 setembro 2008

Multidão.

Dentro de mim existem muitas ruas.
Ruas que levam para muitos lugares.
O mapa que eu trago no bolso é incompleto e confuso, e ninguém me passa as coordenadas.
Tenho que ir, mas sinceramente não sei se quero.
Está tão confortável e silencioso aqui, na segurança da minha estupidez.
Não, eu preciso ir.
Essa voz dando ordens dentro da minha cabeça, não cala a boca nunca!
As pedras rolam, a caravana passa, os bêbados continuam bêbados e o planeta gira em torno do seu próprio umbigo.
É preciso seguir.

Dentro de mim existem muitas ruas.
Ruas de chão batido e ruas asfaltadas.
Ruas elegantes e ruas sujas.
Ruas santas e ruas profanas.
Ruas com parques e ruas com presídios.
Ruas onde impera uma mata fechada e densa, e ruas onde não há nada, além de deserto e vento.

Essas ruas levam para muitos lugares.
O mapa que eu trago no bolso é incompleto e confuso, mas traz as informações que preciso saber.
Está ali, escrito.
Basta ler.
Mas não sei se quero, me sinto vazia e confortável aqui.
Não, eu preciso ir, e é só disso que tenho certeza.
Vejo um poste com a luz apagada, e sento ali, à toa, enquanto um cachorrinho simpático e sarnento faz seu xixi sossegado.
Coloco a mão no bolso, retiro o mapa.
Ele está dobrado ao meio; eu estou dobrada ao meio.
Olho para o cachorrinho e ele me observa com piedade.
Pobres humanos, deve pensar.
Sinto vontade de ser um cachorrinho, ter um poste onde possa mijar, e sentir pena de criaturas como eu e você.
Tenho vontade de não saber ler.
Tenho vontade de ficar.
Mas preciso ir.

Dentro de mim existem muitas ruas.
E no mapa só está escrito MULTIDÃO.

11 setembro 2008

Não importa o que se dê ao homem. Ele nunca estará satisfeito.

Maldita verdade.
Por exemplo: toda noite, eu tenho vontade de comer chocolate; menos nas noites em que tenho chocolate em casa.
Óbvio.

Reparei isso na semana passada.
Cansada de passar vontade depois das 23h, decidi, ainda de tarde, passar no supermercado e comprar uma caixa de bombom. Desta vez estarei prevenida, pensei, me sentindo esperta. Passadas às 23h, qual não foi minha surpresa ao me pegar desejando comer pão de queijo.
Meu reino por um pão de queijo.
Olhei para os chocolates e os execrei.

Foi então que percebi: somos assim com tudo.
Bastou a gente alcançar, conseguir, ter, possuir e pronto! Perdeu toda graça.
E é por esta razão que somos tão infelizes e insatisfeitos.
Nossa vida é como um estômago sem fundo: não importa o quanto de comida ingerimos; estamos sempre com fome.

Somos muito imbecis mesmo.
E nos achamos, o que é pior.
Desde o chocolate que perdeu a graça até grandes projetos realizados, não adianta: é sempre a mesma história.
A gente esquece até do quanto aquilo desejou.

Então pensei: no momento, o que mais quero na vida é publicar meu livro.
Certo.
Sejamos otimistas e imaginemos que eu consiga.
E daí?
Como vai ser?
O que mais vou querer depois de alcançar o que mais quero nessa vida?

Eu sei, isso é ambição.
É o que faz a humanidade evoluir.
Mesmo assim, acho que exageramos.

É evidente que precisamos ter sempre algo a alcançar, caso contrário nossa existência perderia também sua razão. Mas não é por isso que devemos nos cegar para aquilo que já é nosso, seja o amor de outra pessoa ou um tênis novo.
Queremos demais e queremos o tempo inteiro.
Definitivamente: imbecis.
Todos nós.

09 setembro 2008

Gentileza e Hipocrisia passeiam pelo parque de mãos dadas.

E digo mais: a humanidade precisa mais de gentileza-hipócrita (assim, com hífen e tudo) do que de sinceridade.
Começa que o conceito de sinceridade é muito variável, e um número significativo de pessoas acaba acreditando que está sendo sincera quando, na verdade, está sendo inconveniente.
Afinal podemos conviver com algumas mentiras, algumas fofocas, algumas convenções sociais.
Mas sem a gentileza-hipócrita a vida se torna insustentável.
*
A gentileza-hipócrita é o alicerce da civilização.
Sem ela, não teríamos formado uma sociedade (mais ou menos) organizada, e provavelmente ainda hoje habitaríamos cavernas e comeríamos costelas de pterodátilos no jantar.
*
Exemplifico: esta semana, recebi do presidente da câmara de vereadores da minha cidade uma proposição de autoria de um determinado vereador (candidato a reeleição) cumprimentando-me por estar conquistando meu “espaço no mercado editorial” e me desejando sucesso e “distinta consideração”.
Isso foi sincero?
Não, não foi.
Provavelmente eles nunca leram nada do que eu escrevi.
Mas, e daí?
É simpático, é gentil, é agradável.
Pior seria receber “Prezada Eleitora: ciente da proximidade das eleições municipais, gostaria de lhe pedir encarecidamente que deposite seu voto de confiança em mim. Prometo não aparecer mais depois da vitória, que me garantirá um salário decente pelos próximos quatro anos. Minha família agradece. Até o dia 5 de outubro. Cordialmente”.
Não, obrigada.
*
O quê?
Vocês não concordam comigo?
Acreditam realmente que a hipocrisia, mesmo acompanhada da gentileza, é um mal que deveria ser completamente abolido de nossas vidas?
Pois então paguem para ver.
O mundo se tornaria um lugar intolerável, e sem dúvidas passaríamos nossos dias azedos, destilando veneno para todos os lados.
Talvez voltássemos a grunhir.
Retornaríamos a um estado selvagem.
*
Como é?
Vocês acreditam em sinceridade-gentil?
Ora, eu também acredito.
Mas sei que as pessoas (e isso incluiu eu e você) caminham devagar, muitas vezes dando dois passos para frente e três para trás.
*
Imaginem a seguinte cena:
Estou eu em um supermercado, e lá encontro um de meus desafetos. Com toda a sinceridade que existe nas minhas entranhas, me aproximo e lhe dou uma porrada no meio da cara. Agora imaginem todas as pessoas vomitando para fora sua sinceridade, dizendo e fazendo umas para as outras aquilo que – realmente - tem vontade de dizer e fazer. Só eu mataria uns três ou quatro ainda no primeiro dia. Se é que eu duraria mais de um dia. Sim porque, já dizia minha sábia vovozinha: quem fala o que quer, ouve o que não quer.
*
Enfim, não daria certo.
A sinceridade deve ser consumida com moderação; pois quando mal empregada, pode se tornar razão para mágoas desnecessárias e desavenças sem propósito.
*
E é aqui que entra em cena a hipocrisia.
Claro, ela sempre entra em cena, mais cedo ou mais tarde (admitam).
E é ela quem me faz passar ao lado do meu desafeto no supermercado e até lhe cumprimentar com a cabeça:
- Oi.
- Oi.
Sem ela, estaríamos ferrados.
*
Nos falta ainda muita estrada até aprendermos (com nossos miseráveis e catatônicos oito por cento de aproveitamento cerebral) a encontrar a medida exata e saudável de nossa sinceridade; àquela desprovida de interesses e gostos pessoais, livre de segundas intenções.
A sinceridade que faz a diferença, e não serve somente para magoar.
*
Mas por hora, não abro mão da velha e agradável hipocrisia de sempre.
Ela é necessária.
E conserva os dentes.

Fato:

A vaidade é uma merda.

08 setembro 2008

Réquiem de Natal

A Andross Editora está com as inscrições abertas para a coletânea Requiém de Natal, antologia de contos sobrenaturais, de suspense e de terror, que trará, obviamente, histórias envolvendo a temática do natal.
Acesse o site da Andross e confira o regulamento.
O lançamento está previsto para 12 de dezembro e a comunidade na Internet já está rolando.

Então bora tirar aqueles escritos da gaveta ou das entranhas mais profundas da memória do seu computador, e mandar para os caras.
Vale muito a pena - e você ainda pode conhecer uma galera porreta.


Pena que deste eu não vou participar.
Afinal, agora só escrevo histórias de princesinhas que se dão bem.

Muak para meus leitores imaginários.
:)

06 setembro 2008

Morreu Fausto Wolff.

Acordei hoje pela manhã e, antes de escovar os dentes, tomar um café preto e acender meu primeiro cigarro, desnorteada li a pequena chamada do jornal: aos 68 anos, Fausto passou desta para melhor.
Então eu chorei.
Sentei na mesa da cozinha – minha xícara com café fumegando - e chorei.
Até soluçar, até ficar com os olhos vermelhos e a cara inchada; chorei por não ter podido conhecê-lo pessoalmente, nem lhe dizer o quanto incrível são os seus escritos e o quanto seus livros abriram as portas da percepção para mim; chorei porque não vou ter a chance de tomar uma cerveja nem devorar uma fritada de lambaris com o velho lobo do Pasquim.

Morreu o Fausto Wolff e, por mais exagerado que isso possa parecer, eu o carregava comigo tal e qual um velho companheiro.
Nosso contato, é bem verdade, não passou de algumas correspondências despretenciosas de minha parte, ao qual Wolff sempre respondeu, prontamente.
Para mim era a glória: abrir minha caixa de e-mail e ver as respostas sempre gentis de Fausto às minhas dúvidas infantis de aspirante a escritora.
Queria ser como ele.
Escrever como ele.
Viver como ele.
E queria ter tido a chance de lhe dizer tudo isso, pessoalmente.

Por isso hoje eu choro.
Choro como quem chora por um amigo de quem vai sentir saudades.
Choro como quem chora por um tio querido, que não vai mais aparecer para a ceia de natal.
Choro como o acrobata, que pede desculpas e cai.
Choro por esta estranha sensação de orfandade, que tomou conta de mim desde hoje de manhã, quando li a chamada avisando que Fausto Wolff morreu.

Que os anjos da boêmia te levem em seus braços aconchegantes, e te façam sentar em uma mesa de bar celestial, e que de lá possamos te ouvir falar sobre vida e sobre morte, e sobre como uma centopéia também é Deus.
Cem poemas e uma canção despreocupada para ti, gaiteiro velho.

Vai em paz, amigo.
Até breve.

05 setembro 2008

Desabafo.

Este não é um texto engraçadinho.
Não, não é.
Se estiver a fim de dar risada, vá ler as tirinhas do jornal.
E desde já, me desculpe o mau jeito.
É que hoje eu estou puta da cara.

Ontem de noite, vivi (mais) uma situação absurda no condomínio onde moro.
Aliás, absurda é pouco.
Para o que aconteceu, ainda não existe nome.

Por causa de duas vizinhas (e não é aquela do Sandy e Júnior, calculem) passei eu, meu maridinho e meus amigos por momentos angustiantes e desnecessários, que envolveu troca de identidade, polícia, ataque nos corredores e promessas de morte (de minha parte, é claro).
Tudo porque as imbecis confundiram um dos meus (melhores e maiores) amigos com um bandido.
Sim.
Aconteceu.

Não vou descrever aqui a coisa toda (óquei, entendo a sua curiosidade, mas lembre-se de que ela já matou o gato), menos ainda vou citar nomes.
Porque, a bem da verdade, isso não importa.
O que importa é que eu estou puta da cara.


Sabem, pode até não parecer, mas costumo ser muito tolerante com as pessoas.
Procuro relevar, ponderar, refletir, pensar pelo outro lado, controverter, analisar; chego quase a justificar as imbecilidades alheias.
Faço isso, não por nobreza, muito longe disso.
Faço única e exclusivamente por mim.
Procuro entender os outros, e seus erros e falhas, porque também tenho os meus erros e falhas, e não é lá muito ortodoxo apontar o dedo embaixo de um teto de vidro.
Mas tem determinadas coisas que simplesmente não dá para relevar-refletir-ponderar.
Porque estão além da tolerância, além de qualquer forma de compreensão.
Determinadas coisas que você não consegue engolir porque simplesmente jamais seria capaz de fazer.

Estou puta da cara porque não tem como estar de outro jeito.
No entanto, logo a raiva vai passar e então eu sei: vou ficar triste.
Pelas pessoas e suas miudezas, pelo vazio que existe em algumas vidas que, de tão imenso, parece não ter mais fim.
Triste pelo jeito minúsculo delas verem a vida, e sua enorme ignorância e falta de grandeza e covardia.
Triste por saber que essa gente anda por aí, para cima e para baixo, a vida inteira, como moscas em volta da merda: sem rumo, sem nada para falar, sem nada para pensar, sem nada para fazer.
Resumindo suas existências a bisbilhotar e criar burburinho.
Certamente se ocupassem suas cabecinhas com qualquer coisa útil, se tivessem algum outro interesse em suas vidas além de seus próprios umbigos, se parassem de espiar os outros pelo olho mágico e aumentassem um mínimo sua auto-estima, quem sabe?

Quando a raiva passar eu vou ficar triste.
Triste por muito tempo.
Senhor, piedade.

04 setembro 2008

Chove.

O tempo é tão instável quanto meu apetite.
O frio que precede o calor ainda é o pior de todos.
O livro terminou, e eu me sinto de luto.
Queria terminá-lo, mas não queria.
Entende?
As idéias tão instáveis quanto o tempo e meu apetite.
Vem e vão, rindo da minha cara de sono.
Tenho vontade de dormir, mas não tenho.
Deve ser o luto.
Entende?
Não, não estou naqueles dias; só estou assim.
O livro terminou, e eu não queria.
Uma cadela no cio geme no prédio da frente.
Seus gemidos tão instáveis quanto o tempo, minhas idéias e meu apetite.
Dá vontade de escalpelar a dona do cachorro, mas não;
minha vontade mesmo é de dormir.
Mas não é.
Entende?

01 setembro 2008

Prezado Sr. Deus:

Primeiramente, peço desculpas por não saber o seu nome verdadeiro. Aqui na terra inventam um diferente a cada semana, e eu acabo me confundindo. Mas, sinceramente, acho que você não vai se preocupar com isso. Afinal, essa coisa de nome-sobrenome é mundana demais para encafifar sua cabecinha Toda-Poderosa.

Te escrevo, a bem da verdade, para trocar uma idéia.
Para me desculpar por algumas besteirinhas que andei fazendo e, também, para pedir ao Senhor que olhe um pouco mais para baixo – aqui, para o andar térreo.
Imagino que você tenha muitas coisas para fazer – pois cuidar de todo o universo deve ser um trabalho bem cansativo e, por vezes, pouco gratificante – mas quem mandou se meter a Criador?
Agora não tem outro jeito a não ser agüentar o tranco.

Bem, mas como eu ia dizendo, a coisa aqui embaixo tá preta, Senhor Deus.
As pessoas estão loucas, os preços estão altos, a natureza está furiosa, tem gente passando frio e fome e em vários lugares os homens continuam se matando em guerras idiotas, que defendem os interesses de meia dúzia de velhos fumadores de charutos e só. Quem tem, acaba tendo cada vez mais e quem não tem, continua tendo cada vez menos.
Precisamos nos preocupar com tantas amenidades que não nos sobra tempo para raciocinar sobre o que realmente importa – na verdade, sequer sabemos o que realmente importa.
E eu te pergunto: como poderemos nos tornar mais sábios e menos mesquinhos se nossa vida se resume a trabalhar de dia para comer de noite? Se andamos amassados dentro de lotações, se o relógio não nos dá sossego, se somos assaltados o tempo todo, se tomamos um tiro na cara por causa de um relógio de pulso?
Não é fácil, Deus.
Quero dizer, Senhor Deus.

Me perdoe a petulância, mas seus anjos de luz não precisam pagar aluguel todo mês; ou precisam?
Pois então.
Na minha insignificante concepção, penso que é muito mais fácil ser santo quando temos tempo para exercitar nossa santidade. Quando não estamos presos no trânsito, ou na fila do banco, ou num trabalho escravizante e chato que nos tira muitas horas de nossas vidas – tão curtas; quando não precisamos pagar contas, e impostos, e taxas, e pedágios, e seguros de saúde; quando não precisamos nos preocupar em sorrir, quando nossa vontade é dizer: pow, me deixem!

Posso estar errada, sei que posso.
Afinal, sou apenas uma micro-criaturinha em toda a imensidão de vida que o Senhor criou, e estou longe de conseguir entender todas as suas entrelinhas e artimanhas.
Também porque acredito, de verdade, que o Senhor deva saber o que está fazendo: que é pai, e não padrasto; que olha para nós, que nos ama e quer nos ver feliz. Que existe, por trás de todo este caos, um sentido que explique o que, para nós, no momento, é inexplicável.

Por todos estes motivos – e muitos outros que, agora, me fogem à memória - gostaria de lhe propor um trato, Senhor Deus:
Você cuida de mim, e eu cuido de ti.
Assim, bem simples, sem cláusulas contratuais nem advogados.

E eu prometo que, no meio de toda essa bagunça e algazarra, vou ser o melhor que puder ser. É claro, nem sempre vou conseguir com cem por cento de êxito mas, te asseguro: farei o meu melhor.
E você, por sua vez, me dê uma força, né?
Me oriente a tomar decisões acertadas, colabore para que não cruze por meu caminho mais nenhuma criatura escrota; que eu tenha a chance, sempre, de aprender pelo bem. Que eu possa crescer e evoluir sem ter que me machucar demais. Que a doença não acabe com a minha saúde, e que exista um negócio chamado esperança que não largue do meu pé nunca mais.
Que além de conhecimento, eu possa ter sabedoria.
Que mais do que sobreviver, eu consiga existir.

O que você acha?
Parece-te bom?

Pense com carinho na minha proposta Senhor Deus, porque acho que nós dois sairemos ganhando.

Um beijo estalado em suas bochechinhas celestiais.

Janaína