31 julho 2008

Santa Salomé de Araque

- Entrem. Só não reparem na bagunça.
Meu cinzeiro está transbordando, minha louça está suja e minha televisão coberta de pó; mas bagunçada mesmo sou eu.

- Entrem. Só não reparem meu sobrepeso, meu mau humor, meus exageros, nem no fato de eu estar com 25 anos e ser viciada em maconha, não ter um emprego fixo, meus pais pagarem meu aluguel e eu simplesmente não saber o que pretendo fazer quando tiver quarenta e nove anos.
- Entrem. Só não reparem que eu não gosto de crianças nem de cachorros nem de carnaval, somente me interesso por profissões que não pagam bem nem assinam carteira, não separo o lixo seco do lixo orgânico, não faço sexo há seis meses e minha vida social é nenhuma.
Também não reparem na minha total inaptidão para a cozinha, minha leitura atrasada, meus peitos pequenos, meus preconceitos, minha dificuldade em calcular, minha intolerância, meu conhecimento inútil, meu computador velho.
Não reparem, mas no inverno eu durmo com o lençol térmico ligado no máximo, não gosto de frutas, de verduras, menos ainda de legumes; sou sedentária, egoísta, melodramática, chocólatra e irresponsável.

- Entrem, não reparem. Fiquem a vontade.
Prazer, eu sou a Salomé.



Este é o capítulo primeiro no meu novo livro, Santa Salomé de Araque.
Se tudo correr como o previsto (e vocês sabem: nada nunca corre conforme o previsto), devo terminá-lo em um mês.
E se tudo continuar correndo conforme o previsto (oremos.), O Santa Salomé... será publicado pela Não Editora (que é uma editora porreta) e eu me tornarei uma Não Autora.
Maneiro, né?
Então: estou aceitando rezas brabas, vibrações positivas, torcidas sinceras e mandingas.
Bora lá pesoal, juro que mando beijo prá todo mundo quando eu aparecer no Jô (este gordo capitalista).

:)

29 julho 2008

CAFÉ ESPACIAL

A Café Espacial é uma revista independente que mistura quadrinhos com literatura com fotografia e com tudo o mais que existe de bom nessa vida.

Foi indicada ao Troféu HQMix em 2008 e em 2009 e 2010 levou para casa o Troféu HQMix como Melhor Publicação Independente de Grupo. Já recebeu o Troféu Bigorna em 2008 e o Prêmio DB Artes (Divisão Brasileira de Artes) em 2009 como Melhor Publicação Independente.
Custa a bagatela de 7 pila (frete incluído) e quem não comprar é a mulher do padre.

Equipe Espacial:

André Chaves
Bárbara Stracke
Daniel Esteves
DW
Ebbios
Fábio Lyra
Fernanda Chiella
Gus Morais
Jana Lauxen
Laudo Ferreira Júnior
Laura Gattaz
Lídia Basoli
Lese Pierre
Mario Cau
Paula Mello
Samanta Flôor
Shiko
Sissy Eiko
Sueli Mendes

Como comprar?

Através do e-mail cafeespacial@gmail.com ou jana.lauxen@hotmail.com.
Ou indo em algum dos pontos de vendas da revista.
Confira quais são eles clicando aqui.

+

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Edições:

(#8 / capa: André Diniz Fernandes / + informações)



(#6 / capa: Guilherme Caldas / + informações)
.
(#5 / capa: Ebbios / + informações)
.
(#04 / Capa: Shiko / + informações)
.
(#03 / Capa: Fábio Lyra / + informações)
.
(#02 / Capa: Samanta Flôor / + informações - ESGOTADA)
.
(#01 / + informações - ESGOTADA)

24 julho 2008

Ora,

parem seus tolos;
não tentem mais me enganar!


Vocês,
como eu,
também cagam
e trepam
peidam
arrotam
lacrimejam
vomitam
mentem,
regurgitam.


Tem dor de barriga,
de cabeça,
de ouvido,
de estômago.


Vocês,
como eu,
também tem nariz entupido,
remela nos olhos
meleca no canto da boca
cera no ouvido,
dente amarelo.


Tem pentelho,
febre,
labirintite,
buço,
ranho,
cicatriz,
catarro;
coceira,
frieira,
gripe e anemia.


Tem espinhas amarelas dentro do nariz.
Tem sujeira nos cantos das orelhas, embaixo das unhas;
Tem bafo
chulé,
raiva,
câimbra,
mão grudenta.


Vocês,
como eu,
também tem furúnculo
sudorese
escarlatina.
Tem lombriga
abscesso,
tem encardido,
tem cárie.


E suam,
tem vertigem
tem pereba, gases, espinhas.
Vocês também fedem.
Cospem amarelo, verde, marrom.
Tem piolho, caspa, afta,
marca de vacina
casca de ferida
axila suada
pêlo encravado,
alergia
cabelo sujo.


Nas fotos, senhoras e senhores
vocês sorriem enquanto tentam engarfar uma lagosta viva,
que é o seu jantar.

E eu não conto
que tem uma casca de feijão no teu dente, cavalheiro;
e que a mão da sua esposa está amarela de tanto se masturbar.

Ora,
parem seus tolos;
não tentem mais me enganar!


Vocês,
como eu.

18 julho 2008

AAAH!

Grita
o grito honesto dos desesperados, dos sem culpas, dos apaixonados;
de todos aqueles que abriram a porta que você não abriu.

Vomita
o vomito seco dos desistentes;
do soldado que entregou seu escudo e sua espada,
da menina que antecipou a morte do rei.
O amargo da boca de quem não pode mais dormir em paz;
porque não existe paz.

Sonhe
o sonho ruim das noites sem luzes
sem lua, rua vazia, cabeça cheia demais para voltar para casa.
Do tempo que parou.
De homens desiludidos, em fuga, com sede, mal ditos.
O sonho que sonham os que estão acordados.

Sinta
a cólera que só sente quem já morreu uma vez, e voltou.
Dos que olharam nos olhos a besta fera.
Do sentimento que só é pleno no alto do cume da montanha mais alta e fria e triste
de todas as montanhas altas e frias e tristes deste mundo que não sente mais.

Cante o canto maldito que evoca os mortos.
Passeie pelo seu lado sombrio.
Beba a água daquela fonte.
Voe junto aos morcegos.

Os pingos da chuva nunca mais poderão te afogar.

Santa Salomé

O elevador está lotado.
Salomé resolve não entrar.
É preciso cautela na hora de atravessar o rio,
é preciso admitir que o monstro que habitava o armário era você.
Porque Salomé?
Por quê?

- Cante Salomé, cante.
É o último entardecer
antes da primavera chegar.

Hey, santa de araque!
Incapaz de criar juízo, de ter um pouco de razão.
Suja, feia, malvada, falando de moral na mão.
Porque sem fé não pode ser nada,
nada além do que realmente é.

- Sonhe Salomé, sonhe.
O amanhecer vem
de mãos dadas com um troço qualquer.

A cigana enxergou teu futuro numa bola de sorvete.
Seus fantasmas manipuladores, seus corredores vazios.
O tapete voou, e você?
Nem viu.

- Siga Salomé, siga.
Lembre-se do conselho: a vida é porque é.
O coração um dia adormece; a luz volta.
Você deixa de acreditar que tem o controle da situação
e então está livre.

Querubins, nos altos, gargalhavam
- bêbados de dai-me e casimira –
“Veja os humanos,
tão abestados,
correndo concentrados,
como formigas.
Apertados em seus carros,
esmagados em suas vidas”

- Durma Salomé, durma.
Transforme sua dor em reza.
Espere o inverno chegar.

Oh santa!
Peço perdão por não ser como tu és.
Não sou de gesso, ou barro,
pedra ou madeira.
Tenho carne, sangue e ainda tenho saída.
Perdôo sua inanição
e você perdoa minha vida.

Todo pecador é um santo e o elevador voltou vazio.
Vá Salomé, vá!
De santa você só tem o pau oco.

16 julho 2008

Síndromes e Pânicos

Contam os mais estudiosos que, certas pessoas, que passaram por algum trauma violento, podem desenvolver determinadas formas de fobias e reações, como a popular Síndrome do Pânico ou Síndrome do Stress Pós-Traumático.
O trauma violento eu enfrentei há pouco mais de um ano atrás e, quando terminou, acreditei realmente que havia passado por ele sem maiores danos; tinha certeza de que não havia restado nenhuma seqüela, nenhuma cicatriz.
Me enganei.
Alguns meses depois, quando tudo na minha vida já estava lindo e maravilhoso novamente, passei a sentir (não sei precisar exatamente quando) um medo absurdo, imenso, exagerado da morte.
Não exatamente da minha morte (e de tudo que eu não sei sobre ela), mas da morte das pessoas que eu mais amo: medo de perder meus pais, meu namorado, meu irmão, meus amigos, meu animalzinho de estimação. Medo de sentir dor, de sofrer, de ficar triste.
Medo, medo, medo.

Inicialmente, dissimulei.
Fingi que não estava acontecendo nada, que logo aquela maldita sensação de angústia e impotência iria passar – haveria de ser “só uma fase”.
No entanto passou-se um mês, dois, três, seis, e eu me dei por conta de que aquilo tudo não iria simplesmente terminar, como terminam as gripes e os resfriados, da noite para o dia.
A coisa ficava cada vez pior.

Então, eu encarei.
Me cagando, mas encarei.
Admiti: óquei, eu tenho um problema e preciso tratar de resolvê-lo.
Nada poderia ser pior do que sentir o que eu sentia, pensei.
Não dava para ter medo do medo.
Ainda mais o tempo inteiro.

Procurei ajuda médica, conversei muito sobre o assunto, tentei entender de tudo quanto foi jeito e até aos santos me apeguei.
Ouvi centenas de teorias.
Alguns culpavam a maconha, alegando que, a longo prazo, seu uso crônico tendia a desenvolver psicoses semelhantes as que eu sentia.
Outros garantiam que eu havia assistido filmes demais quando era criancinha, e estava impressionada.
Teve ainda quem dissesse que se tratava de problemas espirituais, e até um que sugeriu a ingestão de alguns comprimidos.

Do meu jeito, fui tentando entender o que estava acontecendo.
Poderia ser a maconha, os espíritos ou os filmes, mas havia ainda algo maior, que era meu.
Aquilo que eu sentia vinha de dentro de mim.
E eu precisava resolver.


Falo sobre o isso porque esses dias, assistindo tevê, ouvi um psicólogo dizendo algo que me fez parar para pensar e, posteriormente, concluir que era exatamente aquilo que se passava comigo.
De todas as teorias e possibilidades, era aquela, exatamente aquela que se enquadrava na minha situação.

Ele disse que algumas pessoas – principalmente às que passaram por um trauma – costumam desenvolver uma dependência emocional do sofrimento.
Parece um absurdo, mas acontece.
Não ficamos viciados somente em chocolate, nicotina e café; também criamos vínculos profundos com sentimentos ruins.

O fato é que acabamos nos acostumando a sofrer; logo, não sabemos mais viver longe do sofrimento.
Conhecem a história do preso que ganhou a liberdade mas não queria deixar o presídio?
Mais ou menos assim.

Bingo!
Percebi que era exatamente isso – nada mais, nada menos – que eu vinha fazendo, desde então.
Inventei um medo exagerado e idiota no qual me apegar, no momento em que minha vida se organizava, na hora em que a bonança chegava depois da tempestade.
Nossa mente é traiçoeira, e se não ficarmos espertos ela nos passa uma tranca.

Tal constatação foi fundamental para que eu pudesse enxergar, com mais clareza, alguns detalhes importantes do meu trauma.
E só por isso estou escrevendo sobre o assunto, e colocando meu problema a vista, para qualquer um ler.
Não para que morram de pena de mim – muito menos para que pensem “bem feito” - mas para mostrar que, muitas vezes, não conseguimos nos livrar daquilo que nos faz sofrer porque estamos dependentes deste sofrimento.
E como tal dependência se dá nos lugares mais remotos de nosso inconsciente, acabamos nem percebendo que não nos livramos da dor porque precisamos dela.

Foi isso que aconteceu comigo.
Mas com você talvez aconteça diferente.


15 julho 2008

EPIDEMIA



Um dia, eu disse:
- Vocês ainda vão sentir falta da maconha.
E cá estamos nós, pouco mais de cinco anos depois, já saudosos.

“Cocaína e maconha caíram bastante”
Christian Nedel, delegado do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (Deca)


Confesso que achei que demoraria mais.
Sabia que as coisas iriam piorar – pois era óbvio, o caminho natural – mas acreditava realmente que passariam ainda uns 14 anos antes de tudo vir abaixo.
Me enganei.
Nos enganamos.

“Uma advogada de 43 anos julgava ter sua família a salvo do crack.
Nem se preocupou em saber um pouco mais sobre aquela droga “estritamente marginal”, muito distante do universo da classe média alta.
Até que seu filho caçula, de 15 anos, provou o contrário.
- Antes de descobrir sobre o uso do crack por meu filho, diria que era impossível”.

O responsável por essa bandalheira toda?
Atende pelo nome de Crack.
Primo pobre da cocaína, é sua forma de uso (fumada) que garante seus efeitos mais potentes - e devastadores.
Chega ao cérebro entre 8 e 12 segundos após o consumo.
A cocaína, mesmo quando injetada, leva de 30 a 34 segundos para fazer efeito.

“Em 2006, pela primeira vez na história, a quantidade de crack encontrada com traficantes superou a de cocaína. Agora, já é três vezes maior.”

É por causa dele que estamos morrendo por causa de um relógio ou um par de tênis.

“Sinto que sou capaz de fazer qualquer coisa para conseguir R$10 e comprar crack, até matar uma pessoa.” F. Usuária de 17 anos.

É por causa dele que, à noite, precisamos recolher as cadeiras de plástico da varanda e as roupas do varal.

“55% dos garotos envolvidos em ocorrências relacionadas a drogas estavam sob efeito de crack. Em 2005, o índice não chegava a 2%.
A polícia não encontra forças para reagir
.”


É por causa dele que os hospitais e as clínicas de reabilitação estão lotadas, inclusive por crianças.

“O crack se aninhou entre os brinquedos e os personagens de desenho animado que enfeitam a ala infantil do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. A maioria das crianças internadas nos dez leitos do serviço, especializado em menores de 12 anos, é de viciados em pedra. Há dois anos, a droga respondia por 10% das internações infantis. O índice já passa de 60% - o equivalente a mais de 70 crianças atendidas por ano”.


É por causa dele que famílias inteiras estão adoecendo, vendo seus filhos perderem para o crack.

“Os índices de desistência (em tratamentos com usuários de crack) são acachapantes. Dos 159 pacientes que ingressaram entre janeiro e junho, 74 desistiram no período. Conseguir levar um dependente até o fim do período de nove meses não é garantia de êxito. Depois que vão para a rua, 90% recaem.”

É por causa dele que estamos perdendo, absolutamente, o controle.

Vou matar os traficantes. Era só nisso que C. conseguia pensar diante do caixão do primo, que se enforcara para fugir do crack. Estava revoltado com a droga. Eles vão ver só. Desabalou do cemitério para a boca-de-fumo, decidido a descarregar sua cólera. Vou acabar com eles. Entrou, ficou frente a frente com o traficante, olhou nos olhos dele. Agora vou dizer umas verdades. E então sentiu que a voz falhava, que a decisão fraquejava.
- Quero crack – ouviu-se pedir”


Mas acredite: as coisas não chegaram nesse ponto da noite para o dia.

“As apreenssões da pedra se multiplicam ano após ano. Passaram de menos de meio quilo em 2000 para 120 quilos no ano passado. E devem bater um novo recorde em 2008”

Em outubro de 2007, afirmou o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab:
“Não existe mais a velha cracolândia, a serviço da droga, a serviço do crime. Cada vez mais essa é uma página virada na história de São Paulo”.
A velha cracolândia realmente não existe mais, pois deu lugar a nova cracolândia, distante apenas um quarteirão e meio da antiga.
- Eles fizeram uma operação para higienizar, ou seja, expulsaram os meninos de lá e esses meninos fizeram o quê? Foram para a rua transversal ou para outra rua, argumenta Lúcia Pinheiro, coordenadora-geral da Fundação Projeto Travessia.
"Hoje já está disseminado e não há mais controle", alerta.

“Perguntei sobre o pai da criança, e ela me disse que era um traficante que vendia crack no Centro mesmo. Questionei-a se era marido, namorado ou companheiro, ao que me respondeu que mantinha relações sexuais com ele em troca de ‘pedra’, mas que quando ele descobriu que estava grávida deu dez pedras para ela sumir e nunca mais aparecer. Disse que aceitou na hora. Na outra noite, quando ela foi atrás de mais pedra, ele deu um chute na barriga dela para tentar matar a criança. Quando perguntei se ela já tinha escolhido o nome do bebê, ela me olhou nos olhos e perguntou se eu não queria sexo oral. Ela faria por vR$ 3”.
Manoel Soares – colunista ZH

Ninguém acreditou no poder do crack.
Subestimamos, eu e você, sua força.
E discretamente ele entrou em nossa cidade, em nosso bairro, em nossas casas, subiu em nossas camas e, de um minuto para o outro, integrou-se a nossa sociedade de uma maneira sórdida e letal.
Já houve quem dissesse que o crack está para o Brasil assim como a AIDS está para a África.

“A fissura do crack é avassaladora. Estamos permanentemente estudando como lidar com isso, mas a própria comunidade científica não sabe o que fazer. Há especialistas dizendo que o mínimo necessário para se livrar da droga seriam três anos de tratamento”.
Francisco Trein, coordenador do Centro Terapêutico São Francisco.


Não adianta fazer essa cara de “não-tenho-nada-a-ver-com-isso”.
Talvez você não seja usuário; talvez nenhum de seus amigos, nenhum de seus filhos, sequer algum de seus conhecidos consumam crack.
Porém, quando um dos seus tomar um tiro no meio da cara por causa de um celular, você vai entender que o crack tem tudo a ver com você.

“É um mecanismo perverso, em que o crime desesperado alimenta o crime organizado. Os trocados que cada usuário rouba de um vizinho ou do cobrador de ônibus, como último recurso para saciar seu vício, multiplicam-se em milhões de reais nos cofres do tráfico, estimulando massacres pelo controle de ponto-de-venda de droga e oferecendo capital farto para financiar quadrilhas de assaltantes de bancos e de carros-fortes.
Na base dessa usina de violência está uma pedra vendida por R$5”.

E agora?
O que fazer?
Juro: não sei, e compartilho isso com vocês numa tentativa tola de exorcizar aquilo que aperta meu coração.
Envolve boa vontade: é preciso criar mais leitos e mais clínicas de reabilitação públicas; fechar o cerco contra o tráfico de drogas, aumentar o policiamento nas ruas, além de outros problemas que chegam até as raízes do nosso país, e dificilmente serão resolvido JÁ.
E precisamos de uma solução agora.
Imediata.
Emergencial.
Pra ontem.
Não podemos esperar mais.

“Não gostam que eu diga isso, mas até agora meu índice de recuperação de pacientes de crack é zero. É preciso fazer algo para que não ocorra o uso da droga, porque, depois que acontece, conseguir algum resultado é muito, muito difícil”.
Sergio Paula Ramos, especialista em tratamento de dependentes químicos.


E ontem, quando sai para jantar,
encontrei um sujeito
sentado em um banco,
na frente do meu prédio,
fumando crack.

(*) Citações retiradas do Jornal Zero-Hora, da série A Epidemia do Crack. Os egoístas não disponibilizaram o especial no site.

11 julho 2008

Maneiro.

Dia 30 de julho está previsto o lançamento d'O Livro de Ouro da Poesia Contemporânea Brasileira (tchararan!).
Esta antologia é uma das várias promovidas pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.
Se liga que dia 15 abrem as inscrições para as antologias de julho.
Tudo é de graça (oba!) e a única obrigação do autor é adquirir pelo menos um (UM!) exemplar da obra em que publicou.
Moleza.
Vale conferir.

Enfim.
Se quiserem conferir os poemas selecionados para esta edição, cliquem aqui e em seguida no nome de cada autor, em azul.
Se quiserem comprar um exemplar (custa 26 pila), cliquem aqui.
Se quiserem ler o poema que tive selecionado, cliquem aqui.
Se quiserem me convidar para tomar uma cerveja, me liguem.


Muak.

07 julho 2008

Pai de artista, parceiro é.

A maioria das pessoas acredita que para se dar bem no complexo e concorrido mundo das artes (seja na música, literatura, cinema ou tantas outras) é preciso, antes de tudo, ter TALENTO – e não estou falando do chocolate.
Pensam que, tendo a tal da aptidão, do ‘jeito pra coisa’, o resto acabará por vir, cedo ou tarde.
Óquei.
Pode ser até (uma parte da) verdade.
Mas tem mais.

.

Eu já penso que o talento faz parte da receita.
É um, entre muitos outros ingredientes.

.

Anota aí o que eu acho:

- Precisa-se de SORTE.
Ela é fundamental.
Para conhecer a pessoa certa, na hora certa, no lugar certo, fazendo a coisa certa.

- É necessário também domínio sobre a sua arte e, acreditem: isso nada tem a ver com talento. Tem a ver com técnica, treino e prática.
Pensem comigo: um escritor profissional, por exemplo, sempre irá escrever mais e melhor que um escritor amador. Afinal o primeiro é pago para escrever, e escreve o tempo inteiro, enquanto o outro, provavelmente, só irá escrever quando tiver tempo e disposição, ou quando a inspiração (sorrateira) resolver aparecer – e ela vem só de vez em quando, fica pouco e não toma nem um café.

- Logo, também se torna imprescindível ter TEMPO para produzir a sua arte.
Todo trabalho que é realizado somente nas horas vagas ou quando ‘sobra um tempinho’ não vai sair tão bom quanto outro, exercido em tempo integral e encarado com seriedade – não passatempo.
Um chef de cozinha sempre vai cozinhar melhor do que a namorada que resolveu fazer um agrado para o namorado no sábado de noite;
Um fotógrafo profissional sempre vai tirar melhores fotos que um turista;
Um nadador sempre vai nadar melhor que um veranista;
Um pianista sempre vai tocar piano melhor que você, que conhece o dó ré mi fá sol e olha lá.

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O último ingrediente é tão ou provavelmente mais importante que todos os citados até aqui: trata-se de TER OS PAIS CERTOS.
Sim, seus progenitores.
Àqueles que muitos afirmam não terem sequer tido a chance de poder escolher.
Eles: seus pais.

Acreditem quando eu digo: ter os pais certos pode ser decisivo na hora de se dar bem (ou não) fazendo arte.

Porque essa história de ir contra tudo e contra todos para, ao final, triunfar soberanamente, lançando um olhar de “viu só?” para todos que duvidaram do seu talento, só funciona nos filmes.
Na vida real, é BEM diferente.

Começa no berço:
É cientificamente (e obviamente) comprovado que crianças estimuladas são mais inteligentes e criativas que as outras.
Passa para a infância:
Crianças instigadas acabam por se tornar, naturalmente, mais curiosas. É necessário um pai e uma mãe dispostos a tornar esta curiosidade saudável – e não nociva.
E continua na adolescência:
Precisamos dos nossos pais para, primeiramente, nos incentivar e nos mostrar que somos mais que um monte de espinhas.
Depois para nos mandar ir em frente; para nos alicerçar; para não nos deixar esmorecer.
Quando temos dezessetes anos precisamos mais de amigos do que de carrascos; mais de apoio do que pressão.

.

Você pode até acreditar que eu estou exagerando; que 'os pais são importantes, é claro, mas nem é tanto assim'.
Pois eu lhes digo para prestar atenção aos que vivem ao seu redor, e a todos que você conhece.
Observe se os mais interessantes, os mais inteligentes e criativos, não possuem pais e mães tão interessantes, inteligentes e criativos quanto os próprios.
A fruta nunca cai longe do pé; para o bem e para o mal.

.

Não dá para ser artista em um ambiente onde a arte é renegada.
Onde a mãe joga na cara que o filho da Fulana se formou em medicina e ta enchendo o bolso de grana, enquanto você blábláblá.
Não dá para ser artista tendo um pai que te acha um fracassado; que te olha quase com desgosto, imaginando que merda de azar ele deu para ter um filho tão mal sucedido quando você.
Não dá para ser artista com pais desmotivadores, intransigentes e limitadores, que não conhecem nem querem conhecer aquilo que o seu filho é, o que pensa, o que gosta e o que gostaria de ser.
É impossível.
Você pode ter talento, técnica, sorte e tempo - pode ter até as costas quentes - que, muito provavelmente, a coisa não irá adiante.

.

Enrolei até aqui só para chegar ao ponto mais importante dessa história: OS MEUS PAIS;
que nunca me compararam com nenhum primo ou filho de amigo bem sucedido,
que sempre me incentivaram a escrever, a ler, a desenhar, a ouvir música e a fazer coisas interessantes,
que sabem que reconhecimento não é o tipo da coisa que vem da noite para o dia, e o importante mesmo é que eles conhecem e reconhecem você.

Os meus pais nunca fecharam as portas para mim, nunca duvidaram, sequer me questionaram, e jamais pretenderam que eu fosse uma extensão daquilo que eles não foram.

Eles me aceitaram sem nunca colocar nenhum muro na minha frente, nenhuma pedra no meu sapato.
Pelo contrário.
Muito pelo contrário.
A porta sempre esteve aberta e eles sempre vão ser meus maiores cúmplices.

.

Escrevi isso, a bem da verdade, só para agradecê-los:
- Valeu mãe.
- Valeu pai.

Seria tão mais difícil, tão mais tortuoso e tão mais chato sem o apoio deles que, sinceramente, eu acho que já teria desistido.

E hoje poderia estar infeliz e ranzinza; o que seria péssimo.

03 julho 2008

Câmara Brasileira de Jovens Escritores

A casa do novo autor brasileiro
- Fundada em 29 de dezembro de 1986 -
CNPJ 08080745/0001-10
Rua Crundiúba 71/201F - Rio de Janeiro/RJ Cep.: 21931-500 - Tel/fax: (21) 3393-2163
http://www.camarabrasileira.com/

COMUNICADO OFICIAL

Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea - Edição 2008
Janaína Lauxen (09/01/1982)
Passo Fundo / RS
Escritora
Poema: "Madalena"
Janaína,
É com satisfação que informamos que o poema que você inscreveu na seletiva para a Edição 2008 do Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea, foi selecionado pela nossa Comissão de Avaliação.

Informamos, também, que o prazo para adquirir suas antologias vai até o dia 10 de julho. Tão logo chegue a confirmação do seu pedido, um link no seu nome (em azul) direcionará para a nossa Antologia on line onde você terá uma página exclusiva e permanente. Da mesma forma, você terá garantida a publicação do seu poema no livro impresso (Livro de Ouro/2008) e o recebimento dos seus exemplares através dos Correios, entre os dias 31/07 e 10/08/2008 (dependendo da localidade).

Creia que para nós da CBJE, é um prazer e uma honra contar com sua participação neste programa que há 21 anos divulga e promove os novos autores brasileiros.

Cordiais saudações

Gláucia Helena / Pres.Conselho de Administração
Georges Luiz / Editor-executivo

E eu?


02 julho 2008

“... eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu ...”
Alice no País das Maravilhas – Lewis Carrol

(...)

Não é tanto, mas é quase.
Uma das coisas que mais me intriga e fascina nas pessoas é sua capacidade constante de mudar.
Nada (na-da) pode ser mais aborrecível que uma criatura absolutamente igual e invariável, o tempo inteiro, sempre com as mesmas opiniões, as mesmas certezas, a mesma cara e o mesmo corte de cabelo.
Ano vai, ano vem e ela continua lá: intacta.

(...)

Abomino “donos da verdade” do mesmo jeito que abomino mostarda.

(...)

Eu, como boa parte da humanidade, mudo freneticamente também.
Mas como tenho esta estranha mania de escrever, acabo registrando no papel estes pensamentos todos, e eles ganham notoriedade – vida após a morte, entendem? – para algum tempo depois me matarem de rir; ou de vergonha.
Lendo alguns de meus rascunhos de ontem, e anteontem, chego a enxergar minuciosamente a Janaína – na época, cheia de convicção - que escreveu aquele texto, e que não é, com absoluta certeza, a mesma que escreve este.

(...)

O que coloquei no papel até o dia de hoje dá a medida exageradamente precisa de quantas já fui.

(...)

Era de esquerda, depois de direita, em seguida subi no muro e hoje acredito no que (eu acho que) é certo, e o (meu) certo não possui nenhum lado.
Já acreditei em deus, dele já duvidei, ele já odiei e hoje penso que, seja lá como for, deve haver alguma força superior em qualquer lugar, cuidando e administrando isso tudo por aqui. Ao menos, assim espero.
Uma vez afirmei que o ser humano era essencialmente bom, para depois garantir que, basicamente, não tinha nada mais que maldade. Hoje acredito que tudo não passa de escolhas, e ponto final.
Já tive medo de coisas que hoje me fazem rir; e já ri de tantas outras que hoje me causam arrepio.
Já achei que a maconha deveria ser legalizada, e agora penso que talvez seja melhor tudo continuar como está.
Já fiquei do lado do Didi, depois passei pro lado do Dedé, e atualmente posso perceber que eu gostava mesmo era do Mussum.
Já li um livro e o execrei para, tempo depois, relê-lo novamente e considerá-lo a oitava maravilha do mundo moderno.
Já odiei pessoas que hoje eu amo, e já amei algumas outras que, por mim, tanto faz.
E isso é só o superficial.
A gente troca os óculos que usamos para enxergar o mundo, e conforme vamos pensando, analisando, e conforme o tempo vai passando e nossa vida vai acontecendo, vamos mudando as lentes e vendo as coisas de um jeito diferente; hora aqui, hora acolá.
“A gente muda o mundo na mudança da mente”.

(...)

As pessoas que eu mais admiro são aquelas que ainda possuem a capacidade de me surpreender.
Nem que seja negativamente.
- O quêêê? Ele fez isso? Não acredito.
- O quêêê? Ela disse isso? Não pode ser.
Gosto disso, dá a impressão que a vida flui, evolui.

(...)

Tem quem diga que mudar demais é não ter personalidade.
Mas é mentira de gente que se intimida com o novo.
Mudar demais é ter personalidade sobrando.
Tanta personalidade, mas tanta, que o torna capaz de perceber que muitas das coisas nas quais acreditava e tomava por certeza possuíam (muitos) outros lados – e, consequentemente, (muitas) outras verdades.
É preciso ter (muita) personalidade e coragem para se dar a chance de estar enganado.

(...)

Neste momento?
Eu acredito que o universo é muito grande para guardar somente meia dúzia de certezas.
E esta é uma boa hora prá gente rever nossos conceitos.