26 junho 2008

A Morte

Caminhei como a criança que dá seus primeiros passos
e cheguei às margens do grande rio.
Em cima de sua canoa,
Ela me observava com olhos matreiros:
a morte com seu jeito familiar:
- Pronta para conhecer o outro lado?
- Pronta para voltar. Já conheço, já estive lá diversas vezes.

O rio refletia o céu da noite e era negro;
Ela segurava os remos com placidez e segurança e
por mais que remasse quase sem forças, a canoa deslizava perene e serena rio adiante.
- Aposto que pensas em tudo que deixou de fazer.
Eu a olhei, e respondi:
- Eu fiz o que poderia fazer. Nada mais.

- Eu vejo ao seu lado um demônio grande e um anjo pequeno. Para afastar o mal e deixar o bem florear, você precisará responder algumas perguntas.
Eu concordei com a cabeça e então desconhecia o medo, camarada de minhas horas solitárias.
- Um dia você disse ao seu pai que havia ódio germinando dentro de você; era porque havia perdido a fé em seu próximo?
- Era porque eu não conseguia ser boa como deveria ser; tampouco má como achava que precisava. Então a semente do ódio abrolhou, e eu desejei morrer com a mesma intensidade com a qual desejava matar.
Ela riu:
- Vocês... Consideram aborrecido existir em constante paz, precisam de dores para viver. Diga-me: o sofrimento alheio diminuía sua dor individual?
Tive que pensar para responder:
- Durante um tempo, foi assim; depois descobri que não desejava a luz de volta em minha vida, mas apenas a certeza de que não havia nada além de trevas e insuportável agonia. Não era a vida, Deus ou o destino; a crueldade vinha de mim.
- A história de um homem é a história de toda a humanidade. As pessoas desejam tudo transformar, mas ao mesmo tempo desejam arduamente que tudo mantenha-se exatamente igual. Muitos se acostumam de tal forma com a derrota, que qualquer chance de vitória parece um fardo pesado demais para ser carregado.

Surpreendi-me ao descobrir uma carteira de cigarros no meu bolso. Acendi um, sem lhe perguntar autorização.
- Continue. – disse, entre fumaças.
- Qual espécie de idiota você era? Aqueles que deixam de fazer alguma coisa porque receberam uma ameaça, ou aqueles que acreditam que irão fazer alguma coisa porque estão ameaçando?
Neste momento, então eu ri:
- Dos idiotas que não avisam, apenas atacam. Homens e mulheres perigosos não ameaçam.
Ela olhou-me, pela primeira vez, com seus olhos de álcool e fome:
- Como dominamos um homem?
- O fazemos sentir medo.
- E como se enfraquece um adversário?
- O fazendo acreditar que estamos ao seu lado.
- Você acreditava que sua arma vinha carregada por festim?
Atirei o toco de cigarro no rio, e Ela pareceu desgostar minha atitude:
- Talvez você divida o mundo entre crimes leves e crimes pesados – atrevi-me a enfrentá-la - mas não é assim, na verdade.
Suas perguntas eram armadilhas embrulhadas em pequeninas palavras.
Eu havia sacado a morte.
E Ela prosseguia:
- Porque os homens comportam-se?
- Porque temem a punição. E nada mais.

Ela então contou-me a ordem após a morte da carniça:
atravessava-se o rio,
enfrentava-se o cão,
e então se entra por uma porta
da qual jamais tornaremos a sair.
Porém o cão eram suas perguntas sobre a vida.
Porque de vida, A Morte nada entendia, e aproveitava-se de suas almas sofredoras para tentar descobrir pistas sobre o desconhecido.
A Morte não é rainha.
É súdita, como todos nós.

Ela não percebeu que eu havia lhe desvendado os olhos crus.
- Qual o inferno de Deus? – quis saber, por último.
- Seu amor pelos homens.

Então, dentro de minha cabeça, soou o sibilo mais agudo deste mundo.
Fechei os olhos na tentativa inútil de proteger-me, e repentinamente, tudo serenou.
Eu havia voltado para a minha casa.

*
Publicado na Antologia de Contos Fantásticos, pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores.

Redenção

O CÉU afastou-se sem estrondo
E em cada canto do mundo
todas as raças,
e cores,
e culturas de dores e amores
observaram o mesmo acontecimento.
As nuvens deram espaço ao grande zepelim,
que trazia a bordo o Demônio e seus 600 sortilégios.
Do lado contrário,
um balão carregava Deus,
e seus anjos contadores de prosa.

Era chegado o dia do confronto entre o bem e o mal.
- Não confrontarei meu inimigo, pois trago honra e paz no meu coração. Proponho então um diálogo, uma vez que não tenho rivais que não sejam tão bons ou melhores do que eu.

E não importava mais a cor dos olhos,
da pele,
o que consideravam sagrado e o que consideravam profano:
todos os povos puderam ver e ouvir
a conversa entre Deus e o Diabo.

O bêbado levantou da valeta, sóbrio.
O motorista não conseguia mais compreender os sinais.
O ator teve medo dos aplausos.
O doente ouviu seu coração bater, e soube que ainda estava vivo.

O médico quis subir no palco e recitar uma poesia.
O assassino sentiu medo da morte.
O escritor desaprendeu a ler.
A contadora de histórias perdeu a memória.

O culpado dormiu em paz.
A dona de casa resolveu sentar um pouco, e descansar.
O político conheceu a misericórdia.
A esposa arrependeu-se do adultério.

O monstro parou para ver a flor nascer.
O professor aprendeu que não tinha mais nada para ensinar.
O padeiro resolveu escrever uma canção para as crianças.
O acrobata desculpou-se, e caiu.

O poeta convenceu-se de que havia sujeira em suas palavras, e nunca mais escreveu.
O viciado sentiu fome, tomou um copo de leite.
O vaidoso se esqueceu de olhar o espelho.
A prostituta acreditou na palavra de um homem.

A cigana viu o presente em uma bola de sorvete.
O padre pediu perdão pelos seus pecados.
O guerreiro decidiu voltar para casa.
A mãe esqueceu seus filhos no estacionamento do supermercado.

O rei decidiu andar nu pelo reino.
O atleta parou para fumar um cigarro.
O pirata desejou voltar para a terra firme.
O sacerdote queimou seu livro sagrado.

O inocente não tinha um álibi.
O homem triste contou uma piada.
O aniversariante não foi na festa, porque não quis.
O ignorante compreendeu os segredos do universo.

A bruxa esqueceu os passos da feitiçaria.
O filho não voltou para casa.
O homem feliz ficou preocupado.
O emburrado quis sair para passear.

O abstêmio pediu uma dose.
O pai foi comprar cigarros, e voltou estranho.
O excêntrico tornou-se popular.
O patrão não foi trabalhar.

O criminoso pediu perdão e sumiu.
O vampiro tinha sangue correndo por suas veias.
O faminto não compareceu ao banquete.
O otimista deixou de acreditar nos homens.

O soldado abandonou a infantaria.
O cantor saiu em turnê a pé.
O delegado deu ordem de prisão para si próprio.
O condenado fez planos.

A florista teve uma crise de alergia.
O miserável apareceu de black-tie.
O estudante tacou fogo em seu juramento.
O policial pendurou sua farda no varal, e foi dormir quase em paz.

O céu fechou,
e em cada canto do mundo
todas as raças,
e cores,
e culturas de dores e amores
viram a conversa entre Deus e o Diabo dar-se por encerrada.
Estava feita a revelação.
E todos souberam quem eram
quem não eram
quem era quem.

Princesa Latifa

Princesa Latifa não tem castelo.
Não tem trono,
não tem realeza,
não tem sangue azul.
Não tem dama de companhia,
nem carruagem mágica,
nem príncipe encantado;
nem mesmo um beijo de amor
capaz de despertá-la para a vida.

Princesa Latifa tem um quarto sujo no subúrbio da cidade velha
com uma janela que dá vista para um muro alto e cinza.
Princesa Latifa enche-se de substâncias
capazes de amenizar a dor,
porém incapazes de curar.
Os homens deitam
e os homens deixam sua cama,
largando sobre o bidê de abajur enfeitado
moedas quentes
notas velhas de pouco valor.

Não;
Princesa Latifa não sofre
e não chora.
Porque a humanidade é assim, e muito a interessa;
porque conhecer os homens – ela sabe – é enxergar também um pouco da face de Deus.
Chovia rosas, vez que outra, na sua plantação de Lótus,
e ela, sem guarda-chuva,
vivia encharcada de amor.
Seus óculos podiam ver os próximos capítulos da vida:
porque os homens repetem-se
previsivelmente.
A todo instante

O Sacerdote não absolve os crimes de Latifa;
mas dela gosta, e por ela deseja o bem.
O Coronel não assume
mas a teme com a mesma intensidade com que teme a morte
(porque Latifa conhece e não respeita sua alma).

A senhora por Latifa sente curiosidade
imaginando todas as noites
o quanto gostoso pode ser o gosto da liberdade que traz solidão.

Latifa, princesa suja da grota
Coberta por desconhecidos
Emanando fluídos forasteiros
Lamentando por todos os amores perdidos deste mundo.

Não;
Princesa Latifa não sofre
e não chora.
Sua história sem castelo,
sem trono,
sem sangue azul nem carruagem mágica,
nunca entrará neste seu livro rosa de fábulas encantadas,
onde a vida se encerra com um equivocado final feliz.

Como pode uma princesa ter com tantos príncipes?
Como tantos beijos podem não despertar para a vida?
A coragem de um homem dá a medida exata de seu poder sobre a humanidade.

Ela é princesa dos meninos de rua;
dos velhos bucaneiros;
dos bêbados da praça.
Amiga íntima de tantas vagabundas.
Vadiando no sonho da senhora,
despertando a perversidade da senhorita e seu chapéu.

Princesa Latifa, plantando ópio em vasos de barro;
O Sacerdote não a absolve.
Coberta por desconhecidos,
Princesa Latifa lamenta todos os amores perdidos deste mundo.
Encharcada de amor depois da chuva
Princesa Latifa entra no bar,
atrás de comida, algumas moedas quentes e um amor eterno
para distrair desta vida curta.

Princesa Latifa olhou o olho gigante
que do meio da terra
a tudo observa.
E este olho,
- Este olho, senhoras e senhores:
É
o
olho
de
Deus.

Latifa, princesa suja da grota.
Ela conhece os velhos que roubaram a tua juventude.

Desacelera homem

E sente a vida acontecer nas tuas veias, nessas ruas.
Não pratique mais jogos neuróticos a dois,
não profane o amor.
Não trate mais sua fé como um tabuleiro de xadrez.

Desacelera homem
E veja estas estrelas na mão do teu filho.
A grande porta da igreja está entreaberta
e lá dentro o padre boceja, esperando a salvação.

Desacelera homem
E aprenda sobre ternura e sobre dor com todas estas mulheres nuas,
sujas, feias e malvadas,
perdidas na marquise da pequenina praça principal.
Quando você cair na sarjeta,
embriagado e rouco
Não deixe de ler as poesias que o seu Alfredo pintou em cada valeta.

Desacelera homem
E ouça um conto de fim de mundo.
Perceba como a humanidade tem medo do céu
e como vive feliz
presa em seus infernos cotidianos;
limpando óleo com água corrente;
carregando tijolos de areia para o alto do morro.

Desacelera homem
E beba logo a sua cerveja,
antes que ela esquente.
Grite ao mundo que você está certo.
Porque nossas vidas são como este copo de rum com gelo e com água:
ou bebemos de uma vez
ou não beberemos nunca mais.

Desacelera homem
E passe para o nosso lado;
o lado dos homens bons.
Pois com toda esta força que você vive escondendo
poderíamos,
nós dois,
transformar este mundo em uma terra de sol.
Você tosse porque não pode mais respirar este ar poluído,
que destrói a tua imaginação.

Desacelera
E a vida vai voltar a bater na janela da tua casa.
Não, nem tudo é dor.
E, sim: é domingo, é permitido ser feliz.

Desacelera homem bom
O dia amanhece.
O Deus que habita teu corpo cansado precisa tomar posse.

A manhã anoiteceu

Sob pretexto de um espetáculo no circo voador.
A cigana preparava uma mandinga para o coração:
- São nas ruas escuras que o amor nasce;
e nos gramados verdes,
cheios de sol,
acabam morrendo por inanição.

Você é grande, homem.
Escreveu versos santos em um guardanapo de bodega;
ouviu o canto dos pequenos pássaros;
esboçou uma teoria relativa para todas as suas emoções;
descobriu o homem por dentro,
avistou a mulher no escuro.
Atirou um trem contra a catedral.
Viveu uma temporada no céu e toda uma vida no inferno
e quando a revolução dos caranguejos estourou,
manchando de laranja e azul sua roupa nova,
você relaxou
e descobriu um santo entre os pecadores.
Seu escudo me protege
e por ele lhe sou grata.

*

Se essa rua
Se essa rua
Fosse minha
Eu mandava
Eu mandava
Ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas
De brilhantes
Para o meu
Para o meu
Amor passar

*

Contou histórias para crianças.
Levou um chapéu para viajar.
Nunca vigiou;
jamais puniu.
Pesou na balança o escorpião mais venenoso.
Você é um contador de histórias, homem.
De histórias verdadeiras, fantasiosas
de histórias que viveu na carne.
Seus delírios são verdes, amarelos, azuis e vermelhos
e uma fumaça azul passeia por suas veias bailarinas.

Amo viver as tuas histórias.
E tudo o que vibra dentro de mim, por você.
Sua voz quando diz que a vida é boa,
e quando chora
com raiva destes duvidosos julgamentos.
Seus olhos grandes, meu menino,
a enxergar Deus e o Diabo em uma terra de homens,
são dois pequeninos olhos grandes.
Eu estava no palco ontem
e agora que estou aqui,
não sei mais interpretar.

Quero que saibas que entre tudo que traz este mundo tão grande e tão arrabalde
Não há nada,
nem ninguém,
nem coisa alguma
que possa ser comparado a você.
A tua voz quando acorda deseja um dia bom,
e ao deitar, pede aos anjos que embalem o sono dos justiceiros.
Quando sorri seus olhos encolhem
e quando fuma, morde o cigarro só para morder.

*

Se eu roubei
Se eu roubei
Teu coração.
Tu roubaste
Tu roubaste
O meu também
Se eu roubei
Se eu roubei
Teu coração
É por que
É por que
Te quero bem

*

Vou escrever o evangelho,
o testamento mais novo de toda a história da humanidade.
Sem messias,
sem um Deus,
sem profetas nem mandamentos.
Onde o amor será rei
O amor será lei
A liberdade,
a ordem maior.
E toda chuva levará para longe teu desassossego,
e tua dor.

Vou te dar carona na cauda de um cometa maluco,
e te levar pela estrada mais bonita da via láctea.
É o meu evangelho,
e eu sou o meu senhor.
Nada me faltará.

Obrigado por seus versos santos,
por seu amor nesta rua tão escura.
A noite amanheceu e sua luz veio me habitar.

E eu, homem?
Eu amo você.


(Para o Cavanhas)

Uma oração de amor por mim.

Pai nosso,
Que estais em mim:
Santificado sejam os nossos dias;
Venha a nós
o nosso reino;
Seja feita
a nossa vontade;
Aqui em casa
como em qualquer outro lugar.

O pão de cada dia nos permita obter hoje,
assim como conforto, saúde, educação, respeito, emprego, casa e segurança.
Perdoai o mal que habita em nós,
assim como nós perdoamos a tua indigência.

Não nos deixeis optar pelos caminhos do mal
sem benevolência ou perdão.
Nos livrais dos homens com duas verdades,

À-mim.

Cara amiga,

Ontem à noite fui visitar a tua casa,
e você não estava.
A porta abriu-se sem que necessário fosse girar a maçaneta,
e eu entrei na tua sala cheia de penduricalhos,
tuas paredes coloridas
tua imensa vontade de continuar criança e lúcida.
E na tua cozinha, amiga, havia um rato.

Ele me olhou por sobre a pia com seus olhos ruivos e sujos,
e estranhamente sequer moveu-se ao perceber a minha presença.
Ele não estava com medo.
Ele era imenso, maligno,
obsceno.
Aquele rato, amiga,
dava vida a tudo que a nossa relação se transformou.

Porque, cara amiga,
você não é minha amiga.
Nunca esteve presente na hora em que os ventos varreram meus jardins;
nem quando morri de dúvidas,
de medo, de alegria, de ansiedade.
Nem quando estava sozinha,
nem quando a primavera se foi.

Você esteve, sim, enquanto a sua vida acontecia.
Enquanto homens entravam e saíam do teu quarto,
enquanto teu coração apertava,
enquanto os teus sonhos desciam ralo abaixo.
Você nunca perguntou se estava tudo bem.

Suas mãos não vencem armas;
você enxerga, mas é completamente cega.
você veste vestidos de seda e veludo,
e acredita que é pura.

Só te escrevo, cara amiga,
porque não te desejo mal.
Porque sei que você está parada, há anos, em uma estação de trem,
esperando uma condução que leve
quem não sabe mais para onde ir.
Parada em frente a amarelinha,
sem saber atirar a pedra no quadrado certo,
sem nunca alcançar o céu.

Amiga, teu mapa está todo errado;
mas você poderá usar o meu, quando precisar.
Não porque sou nobre
Não porque amo você
Nem mesmo por te respeitar.

Mas porque
naquela noite em que visitei a tua casa,
e mais uma vez você não estava,
eu encontrei aquele rato na tua cozinha.
E enxerguei este oceano a nos separar,
e estes cortes que eu julgava curados
apareceram abertos,
jorrando sangue e supuração.
Eu descobri, amiga,
a imensa piedade que trago por você,
doce princesa deste castelo abandonado.

Uma placa avisa para não pisar na grama

mas sigo sossegada, pois sequer tenho os pés no chão.
Vou caminhando pelo gramado verde
de um lugar
onde encontrei
um pote de ouro.
No final do arco-íris,
que surgiu daquela chuva
que lavou o mundo inteiro.

Onde eu moro,
guardamos com cuidado os sorrisos recebidos,
pois todos são de graça, não escondem um plano nem uma intenção.
Já aprendemos que saber e não fazer, ainda é não saber.
Que vivemos para amar – e caso a vida acabe, o amor ainda permanecerá.

Não contamos dinheiro aqui.
Não exigimos que as pessoas e suas coisas caibam em nossos apertados modelos.
Ninguém acredita no mal;
enquanto aí você é escravo de papéis sujos
e de um relógio apressado
pendurado na parede,
aqui não existe dor,
e quando chove,
a gente dorme até mais tarde.

Se voa,
se vive à toa,
e isso não é errado
nem é defeito.

Ninguém segue,
ninguém persegue
ninguém proíbe,
ninguém ordena.
Aqui respeitamos quem da gente discorda;
e não há doentes
nem angústia
nem saudade
nem fotografias sem bastidores.

- Nossos sorrisos francos, senhoras e senhoras,
são francos de verdade;
quando saímos ao mundo pela primeira vez,
carregávamos nos bolsos um pouco de dignidade.

Hoje não tem espetáculo, não senhor.
Nosso rei não está nu,
pois não temos um rei.
Ninguém aqui odeia a diferença.
Ninguém aqui adora a perfeição.

Crimes contra a própria essência não são cometidos.
Por isso não há leis,
não há juiz,
não há condenados,
não há prisões.
Não é necessário.

Mas,
evidentemente,
você não sabe do que eu estou falando.

Então peço
que tenham piedade do seu imenso vazio.
Porque você não vê a torre;
Não ouve o mestre;
Não conhece o lobo;
Nunca visitou a taberna da estepe;
Não enxerga o futuro;
Não acredita em milagres;
e isso deve ser muito triste.

Você tem moedas de ouro guardadas em cofres
e corações e almas e sonhos esquecidos na sarjeta.

De costas

Eu olho para um lado, fixo.
Para o outro lado, fixo.
No meio,
uma pedra chamada culpa;
crime, castigo, tudo que vai volta, tudo que sobe desce, nem tudo que sorri é amor.
Ao redor, todo um mundo, desbravado e apossado teoricalmente.

Toca uma música, mas a culpa incomoda minha cabeça, pesando.
Não gosto dela, evito-a sempre,
mas tem horas que ela arma uma arapuca
(maldita! ataca justamente pelas costas),
nos derruba no chão,
nos maltrata,
atormenta como um portão que bate ao vento.
(sua voz fininha, seu sobrepeso, sua sensação de dor)

Eu de costas para eu
Fixa em um lado,
fixa em outro
Nada divisando, por fim.
- Culpa é para os fracos.
[o mestre sempre é hostil perante nossa fraqueza]
- Além de burrice, evidentemente.
Os inteligentes, eles erram todo o tempo.
Mas ao contrário de você, verme!, não perdem tempo (precioso, precioso) lastimando-se pelo que não se pode mais mudar.
Aconteceu, terminou.
Olhe adiante e caminhe,
você não está aqui para dramatizar, ator barato!

Da raiva tiro a força,
como humana que sou
de linhagem vira-lata.
Agarro meu tempo e trato de preencher meu dia,
solucionar este problema,
transformar esta culpa em lembrança.
Cômica, se não for pedir demais.

A pedra do crime enfraquece,
me faz recostar no outro eu,
me faz sentir meu calor.
O mestre tem razão, eu estou viva.

Levanto e o procuro pela primeira porta aberta que encontro:
- Pai: preciso te contar uma coisa que eu sei, que eu errei,
que você precisa saber.
Eu choro enquanto falo
Ele olha-me sério, angustiado,
mas todo seu amor resplandece nos seus olhos bons.
Ele abraça
Ele sorri
Ele me salva.

- Desculpe mestre, mas o maior homem deste mundo eu chamo de pai.

Fina flor da juventude,

desculpe minha voz já pelo fim.
Mas preciso te contar: seu tempo, minha filha, vai acabar.
Antes mesmo das traças devorarem aquela sua roupa nova;
antes mesmo do seu perfume secar.

Porque o tempo é assim, um sujeito apressado e sem cerimônias.
Vem andando frenético pela avenida,
sem nada observar com atenção
(ele não vê nossas fraquezas, ele é um cara afobado).
Vem atropelando velhinhas, passando por cima de carros.
E um dia,
você cansa dele fugir.
Então senta na varanda no final de uma rua principal
E espera ele chegar até você.
Basta servir uma bebida quente e doce, e o tempo se aquieta.
Mas prossegue.

Você não consegue fazer do tempo seu hóspede por muito tempo.
Ele não é do tipo que deita para dormir,
que sossega na frente da lareira, bebericando vinho e fumando charutos.
Não.
O tempo tem pressa.

Então, fina flor
Trate de encher essa sua carcaça de coisas boas ou,
no mínimo,
proveitosas.
Porque provavelmente será isso o que fará toda a diferença
quando o tempo já houver visitado sua cama muitas vezes.

Não criança, nem tudo é justo,
e não,
eu não sei porque.
Só sei que é assim.

De paletó irlandês,
em uma poltrona amarela
você fuma e observa as horas
– invenção estúpida –
virarem em um relógio parado.
Você está indignado.
Eles estão indignados.

Fina flor da juventude
atire fora esse espelho.
O tempo vai e o tempo vem.
Ele tem pressa.
Apresse-se.

Amarelinha

São nove números e o céu.
Eu tinha sete anos e um vestido vermelho meio ridículo.
Na frente de casa, um tijolo laranja desenhou no chão
os nove números da minha amarelinha;
e eu me preparei para alcançar o céu.

Em cifras a vida seguiu.
E houve tempestade,
falsa bonança,
pingos disfarçados,
vento violento e entristecido
uivando na noite clara como um espírito desamparado.

Houve boas novas, sorrisos,
um que outro olhar desinteressado.
E vozes desejavam boa viagem aos meninos que iam embora.

O canto manso do santo
Era canto de fim de serenata.
Era canto de sol intrometido
quando a boca da noite é refúgio;
de um cigarro que eu fumei na janela
e me fez sentir o coração mais vazio
deste mundo de corações vazios.

São nove números e o céu.
Eu tinha catorze e uma idéia boba.
”Ela fecha a porta, nem se importa”.
E eu então entendi tudo o que você havia dito,
em prosa, em verso, em palavras duras.

O manto santo do cavalheiro
Parecia pranto de quem somente apaga a luz e fecha a porta
(vai embora).
Eu tive uma conversa contigo
E naquele bar entendi quem você era,
e quem não era.
Escondido atrás de uma fumaça azul, desaparecendo e retornando;
ainda bem que no final você estava aqui.

- Porque me tira para dançar se não deseja me amar para o resto da vida?
São nove números e o céu.
Eu tinha como quem tinha uma rosa de verdade (vida curta, ela tem).
Queria as de plásticos mas, daí, qual a graça?
para sempre duras e sem perfume,
num vaso sem água e sem nada mais.

As doenças você criou, doente;
As tristezas você procurou, donzela.
O coração você congelou, senhor doutor.
Fechou a porta, sequer se importou.
Agora você chora e eu te olho
e com minha misericórdia ludibriada pelos seus justos flagelos
me torno um anjo de bondade.

Ele olhava a platéia e inquiria um a um:
- Porque te cala, homem bom?
A minha amarelinha tem nove números e um céu.

Joaquina pede água.

- O tempo tem esfriado.
Me dizia a velha senhora, de dentes amarelos e de mentira.
Seu nome foi Joaquina.
- Espero que no outro lado não esteja frio – ela abriu um tímido sorrisinho – “... temo o inverno por ser a estação do conforto”.
Não reparei na citação de Rimbaud. Me sentia tonto.
- Acho que você não deve se preocupar com isso – falei, por não saber o que falar.
Ela não perdeu a placidez quando respondeu:
- Até às sete horas da noite vou estar morta. E eu sei disso.

Era para ser um simples e corriqueiro favor.
Fui visitar alguns clientes na Cantareira, e Arnaldo, meu tio, pediu (pelamordedeus!) que eu entregasse algumas roupas para Flávia, sua ex-namorada, que morava por aqueles lados.
- Não quero nunca mais ver aquela biscate!
Eu não podia negar.

O endereço, anotado em rabiscos num guardanapo, me levou até uma casa azul e rosa, com um pé de jabuticaba do lado da varanda e tulipas nos canteiros.
Mas lá não morava nenhuma Flávia.
A porta da frente estava escancarada. Toquei a campainha e ninguém apareceu. Podia ouvir o barulho da televisão, e ver as janelas, todas abertas. Estranhei. Toquei outra vez. Nada. Bati palmas. Silêncio e só.
Resolvi gritar:
- Hey! Tem alguém em casa?
Uma voz surgiu distante:
- Entre meu filho, estou aqui em cima.
Deveria ter considerado, no mínimo, tal situação esquisita, e dado o fora dali antes que tudo piorasse. Porém quando me dei por conta, já subia as escadarias e alcançava uma porta de madeira, pintada de verde.
Na cama, uma velha senhora estava deitada, seus olhos mansos voltados para um lustre colorido. Parecia esquecida ali, apesar do asseio impecável do quarto, os lençóis tão brancos e limpos que davam a impressão de serem celestiais.
- Que bom que veio – ela disse, e só então me conscientizei do absurdo das circunstâncias.
- Hã, olá senhora. Estou procurando por uma moça chamada Flávia. Conhece?
Ela não pareceu me ouvir. Estava concentrada tentando, inutilmente, se sentar:
- Não conheço nenhuma Flávia. Mas fique a vontade – disse, fazendo um gesto gentil com a mão.
A ajudei se acomodar, e tive a impressão que poderia quebrá-la ao meio, tão frágeis e finos eram seus ossos. Sua pele mais parecia um delicado tecido de algodão.
- Obrigada, filho.
- De nada. – respondi cordialmente, já em movimento - Bem. Se a senhora não a conhece, vou indo embora – e alcançava novamente a porta quando ela falou:
- Por favor, fique. Eu estou morrendo.

E ela estava morrendo, realmente.
Havia tomado um coquetel de remédios letal, que paralisaria seu sistema nervoso e interromperia sua vida em pouco mais de duas horas.
- Tu não tá falando sério. Tá? – me sentia, subitamente, apavorado.
Ela balançou a cabeça afirmativamente, e me mostrou os vidros e as cartelas de remédios, algumas vazias, outras pela metade.
- Meu médico receitou. Pedi somente que fosse lento e sem dor.
Como assim?
- E quem nesse mundo quer morrer devagar?
- Se for sem sofrimento, eu quero. Morremos uma única vez na vida, e este não pode ser um momento vão, ligeiro, insignificante. Quero estar viva para ver a minha morte chegar.
Senti minha bexiga apertar. Sempre tenho vontade de ir ao banheiro quando fico nervoso.
- Esse teu médico é um pilantra, isso sim.
- Não, meu filho, não o julgue sem de nada saber. Ele é um médico bom, humano, que entende quando a vida precisa terminar – ela puxou da gaveta um cigarro, e eu ainda tive a capacidade de me espantar – E mais: se não me ajudasse, eu daria outro jeito e ele sabe disso. Apenas facilitou as coisas para mim.
Sentei na cama e acendi um cigarro também, mandando definitivamente a boa educação para o diabo:
- E porque quer morrer?
Ela suspirou tão profundamente que chegou a me doer:
- Ah, eu cansei de estar viva, esta é a verdade. Olhe para mim: estou velha, triste, meus amigos estão mortos, não entendo porque minha hora não chega. Fumo, sempre fui sedentária, nunca cuidei da minha saúde, já tive três infartos, mas a morte simplesmente não vem. Agora vou obrigá-la a comparecer.
- E a tua família?
- Uma filha ingrata que nunca me deu netos, e só. Tenho essa casa e meus dois gatos, nada mais. Estou entediada, cansada e com sono.
- Me desculpe perguntar, mas quantos anos a senhora têm?
- Muitos, meu filho, muitos. Anos até demais.
- Eu não acredito.
Na verdade não quis dizer nada disso, apenas pensei alto.
- Não acredita em que?
Hã?
- Nessa situação – achei melhor responder com sinceridade; não podia mentir para alguém que estava morrendo - Eu só vim procurar uma garota para lhe devolver algumas quinquilharias, e encontro uma senhora que acabou de cometer suicídio, mas ainda não morreu. Que grande merda.
Rapidamente me desculpei pelo palavrão, e ela apagou o cigarro numa xícara de café vazia:
- Você é jovem e acha a vida bonita. A morte lhe é antipática e ruim, significa interromper todos os teus anos, tua beleza, teus sonhos. Mas um dia os anos viram fardos, a beleza se torna pó e os sonhos terminam. Então a morte deixa de ser ameaçadora, e é a vida quem passa a horrorizar.
Ela calou-se por alguns segundos, como se pensasse em qualquer coisa; em seguida riu debilmente:
- Ora, você não pode entender. Ainda não.
Pigarreei.
Existem coisas que prefiro ignorar:
- Quer dizer que a última pessoa que você vai ver antes de morrer sou eu?
Ela puxou outro cigarro:
- Parece que sim – respondeu sinceramente satisfeita - Pelo menos o silêncio não é melhor que a sua voz, e isso é muito raro.

Apesar do fim iminente, ela não queria conversar. No entanto, parecia necessitar da minha presença ali, nos seus últimos instantes. De certo não queria estar sozinha quando a morte passasse pela porta verde do seu quarto.
- Gosta de música? – perguntei, tentando oferecer a situação um mínimo de normalidade.
- Não mais, elas me entristecem muito. Quase todas as coisas boas e bonitas da vida parecem vestidas de melancolia quando surgem para mim. Como se eu não pudesse participar de nada daquilo, somente testemunhar. É mais ou menos como passar a noite de natal sozinho, escutando o teu vizinho rindo com toda a família no apartamento do lado, entende?
- Humm. – apenas grunhi. Não concordei nem discordei, porque não sabia se concordava ou discordava.
- Você já passou uma noite de natal sozinho? – ela perguntou, sutilmente desinteressada.
Pensei um pouco.
Não, nunca havia passado nenhuma noite de natal sozinho.
- É bem chato – concluiu.

Anoitecia.
Fazia quase uma hora que eu estava ali, esperando com uma velha senhora de dentes amarelos sua morte chegar.
Notei que seus lábios esbranquiçavam, e quis saber se estava tudo bem.
“Tudo maravilhosamente bem”.
Foi o que ela me respondeu.

Senti vontade de perguntar como era estar morrendo, mas decidi ficar quieto, num respeito sublime e infundado pelo desconhecido. Aquele, com certeza, deveria ser um momento único, e muito, muito íntimo.
Ela acendeu mais um cigarro e fechou os olhos.
Falou:
- Sabe o que me deixa mais aborrecida?
Eu estava em pé na janela de seu quarto, e o céu alaranjava.
- O que?
- Tenho certeza que os mortos não fumam.
Eu sorri, mais por solidariedade do que por graça. Estava deprimido ao mesmo tempo em que me sentia minuciosamente vivo.
Feliz por ainda haver vida em mim; triste por ver a de Joaquina tão no fim.
- Me alcance aquele copo de água, meu filho. Minha garganta está ficando seca.

Ela morreu e de repente ficou frio.
Minhas mãos estavam mais geladas que seu corpo, agora abandonado.
Mesmo já parecendo morta quando a encontrei, agora ela me dava a melancólica sensação de estar viva.
Cobri seu corpo como se pudesse ainda protegê-la do inverno.
Em seguida desci, desliguei a tevê, fechei todas as janelas. Deixei sua casa sem reparar em nada, numa tentativa acanhada de preservar um pouco da dignidade daquela velha senhora, de dentes de mentira.

Apenas encostei a porta da frente, e fui para casa me sentindo gelado.

Gibraltar

No final da minha rua existe uma casa verde
onde mora um homem chamado Gibraltar.
Ele não é forte como um rochedo e, quando sai,
e sobe pela rua de calçadas quebradas e cachorros nervosos
vem avaliando e monitorando seus sonhos
- sua vida tratada como um estoque de enlatados para viagem -

Ele conta que pela poesia fora seqüestrado, quando criança ainda era,
e que era também livre - que tudo a ele pertencia - pois não tinha nada.
Gibraltar era dono somente de um grande medo
e de uma casa verde no final de uma rua.

Ele dizia que a consciência é bendita.
Que o tempo, quando passa, se torna bom.
Que as drogas são o imperativo dos poetas;
e que a lei que transforma cultivadores de papoula e peyote em gângsteres
impede que o escrivinhador explore a dor da vida.

Falava que as pessoas têm somente a si mesmas,
e não costumam levar sua condição solitária numa boa.
Por isso deliram,
sem nunca lembrar de comemorar o simples e complicado fato de continuarem vivas.

“As rezas funcionam”, ele garantia
subindo pela rua de calçadas quebradas e cachorros nervosos;
deixando para trás sua casa verde
carregando seus sonhos enlatados,
sua venturosa solidão.

Havia um machado suspenso sobre a cabeça de Gibraltar
e existe um momento em que todo mundo pode enxergar.
Sua cama, tão visitada, era a mais solitária entre todas as camas,
de todas as casas verdes,
no final de todas as ruas de calçadas quebradas desse mundo.
Gibraltar se sentava em uma pedra, no cume do precipício
e ali ouvia mensagens do mundo inferior.
Isso punha melodia no blues que era sua vida errada.

Gibraltar morava em uma casa verde no final da minha rua
e no caminho havia cachorros nervosos, sonhos enlatados e calçadas quebradas.
Ele dizia que era guia de uma irmandade de perdedores:
homens que não tinham nada e por isso tinham tudo.
Seus nomes, ele invocava, poderiam ser escritos na água.
E enquanto a juventude é uma borboleta
e a velhice uma lagarta
para eles nada disso era levado em conta:
eles tinham ingressos para o paraíso.

Um dia,
o machado caiu sobre cabeça de Gibraltar.
Ele não é forte como um rochedo;
e sua casa verde ficou velha
virou solidão.
Ele deixou-me um recado
escrito no guardanapo de um botequim:
“Os homens são algo para se temer. Sempre os homens, e nada mais”
Guardei seu conselho no bolso e segui pela rua de calçadas quebradas.
Se assim é, temam-me todos: estarei chegando para o jantar.

*
Publicado na Antologia de Escritores Brasileiros, pela Academia Poçoense de Letras e Artes.

Madalena

Que espécie de garota você é, Madalena?
Daquelas que se negam a dançar
ou as outras,
que vivem só para morrer de amor?

Madalena, onde foi parar aquele sonho?
No fundo daquele sótão, esquecido naquela mesa de bar?
Perdeu-se numa rua suja, numa noite suja?
Onde foi parar?

Madalena, onde se escondeu a garota que ia mudar o mundo?
Que ia derrubar o muro?
Que ia arrancar a roupa do rei?
Cadê quem ia sacar a bandeira do quintal, jogar fora o velho sofá?

O que você espera, Madalena?
Dançando em teto de vidro,
tentando consertar o violino para aprender a tocar?
É daquelas que não falam com estranhos
ou as outras,
apaixonadas por quem nem conhecem?

A verdade só te assusta porque você não a deixa entrar;
O barulho na cozinha é um rato sobre a pia;
O homem só é nobre porque é o próprio Deus;
O cavalheiro que lhe tira para dançar não deseja lhe amar para o resto da vida, não.
Embaixo da máscara existe um rosto e agora?
O que fazer?

Sem nenhuma verdade no bolso, Madalena
Você corta a rua principal.
*

Martina e seu Deus

Martina chegou ao céu.
E a primeira coisa que fez foi procurar Deus.
Queria explicações. Muitas explicações.

Na sala celestial do Pai Todo-Poderoso, nada demais, nenhum luxo, aparentemente nenhum pecado capital.
Cadeiras de madeira corroída, uma mesa, uma máquina de escrever – que surpreendeu exageradamente Martina, que imaginava equipamentos ultra-modernos, tecnologicamente desenvolvidos, de design arrojado e contemporâneo, piscantes e coloridos a vigiar e controlar toda a humanidade. Sem conseguir disfarçar seu choque pela precariedade do local de trabalho divinal, adentrou a saleta observando escancaradamente cada miserável detalhe.

Uma debilitada lâmpada pendia do teto destacando a fumaça azul de um cigarro, chegada de mãos brancas e perfumadas, dedos longos:
- Entre, minha filha, e diga qual é o seu problema.

Martina repentinamente sentia-se constrangida.
Imaginara a vida toda aquele encontro, e até anotara em um caderno todas as suas dúvidas e reclamações, ensaiara inclusive os xingamentos que dirigiria à Ele, quando Este se perdesse em suas explicações mal elaboradas.
Agora Deus estava ali, diante dela, velho, surrado, cheio de rugas, uma barba branca mal cuidada, um cabelo prateado e despenteado, levemente sujo, e – não era possível – um cigarro! Deus fumava um cigarro de filtro vermelho!
- E então? – ele continuou, movimentando-se ligeiramente para apagar o fumo em um cinzeiro de latão, envelhecido – Pensa que tenho toda a eternidade? Você não é a única a querer reclamar e perguntar, e então tornar a reclamar e perguntar. Vamos depressa.
Deus era hostil, mas sua ironia superdotada o fazia parecer cordial.
Sua irritação pairava na sala lado a lado a fumaça de seus cigarros, e não era preciso ser muito sensível para aprisionar tal resistência e antipatia por parte do Criador.
- Hã... Bem, na verdade anotei tudo neste papel aqui. Posso me sentar neste banquinho?
Deus concordou com a cabeça, olhando pela janela, modos desinteressados.
E Martina lembrou-se do tempo todo que esperara para conversar com Ele, em todo o interminável tempo que passara sem nenhum banquinho para descansar suas pernas, fatigadas de aguardar em pé por respostas que nunca chegavam. E agora que deveria botar para quebrar, pedia para sentar.
Martina sentiu-se uma imbecil. Mas conteve-se, e ali permaneceu.

Puxou o caderno, com um desenho da Minie na capa, cruzou as pernas, encarou-o, descruzou as pernas e pigarreou:
- Certo, vamos lá. Primeira pergunta: se o sexo é somente para a procriação, Senhor, porque nos deu o tesão?
Deus encarou-a com surpresa e comédia pelo conteúdo da pergunta; e tão logo pareceu ofendido.
- Ora, e quem disse que sexo é para procriação?
- Você.
- Onde? Quando?
- Na Bíblia.
Deus virou os olhos e parecia impaciente. Então respirou fundo, sentou em frente à menina e, como aquele que repete um fadado discurso pela milionésima vez, iniciou:
- Tenho certeza de que, em seguida, irá me perguntar sobre: aids, velhice, doenças, religião, guerra, fragilidade humana, dinheiro, aborto, drogas, sistema nervoso central e capacidade cerebral. Não necessariamente nesta mesma ordem. Estou certo?
Martina olhou-o; olhou então para o papel em suas mãos: sim, realmente, suas perguntas passavam por todas estas questões.
- Pois bem, o que tenho a lhe dizer é: olhe para os lados, minha filha. Olhe minha sala, minhas paredes descascadas, minha cortina cheia de poeira, meus dedos amarelos, este maldito e impregnante cheiro de cigarro, minhas vidraças manchadas, meu carpete rasgado, minha alergia que nunca passa... O que pensa sobre mim? Até onde acredita que vai minha habilidade de controlar vocês?Criei seres independentes, teoricamente capazes de lidar com a própria vida. É verdade, não lhes fiz muito inteligentes, dei-lhes somente um mísero de todo o talento racional que poderiam usufruir, se eu houvesse realmente acreditado em vocês alguma vez, ao longo de todos estes anos. Você há de concordar comigo: imagine o que não teriam vocês feito, se eu os tivesse criado mais espertos e racionais? Poderiam fazer grandiosas obras mas, paralelamente a isto, estariam descobrindo maneiras de aniquilar multidões utilizando borboletas e canudinhos. Atrapalhando tudo, como sempre.
Deus falava rápido, e alto, e Martina quase nem entendia suas palavras. Ele continuava, frenético, servindo-se de café, acendendo cigarro sobre cigarro:
- Aids: o homem inventou. Criou, deu-lhe resistência, espalhou-a. Não tenho nada a ver com isso.
- Doenças: também sou inocente. As pessoas não se entendem com elas mesmas, e criam sozinhas tumores, cânceres, cistos, e mais o diabo a quatro que vemos por aí. Não faço nada, absolutamente. Aliás, doenças sequer existem, o que temos por aí são doentes e nada mais.
- Religião: ora, faça-me o favor. Quero novamente deixar claro: não tenho categoricamente nada a ver com bíblia, virgens e rios de mel, livros sagrados, histórias malucas, bispos curando gente ao vivo pela TV: NADA! O homem inventou, o homem inventou.
- Fragilidade Humana: essa foi a única coisa que acertei: fiz vocês mais sensíveis e frágeis que moléculas de hidrogênio (Deus ri, baixinho). Pelo menos morrem fácil, não duram muito para continuarem perambulando inutilmente por aí.
- Dinheiro: o homem inventou. E ponto final.
- Aborto, drogas, esqueça: não faço nada, quem faz são vocês, criaturas. Descobrem a maneira de fazer filhos, o fazem, e em seguida descobrem uma maneira de tirá-lo. E as drogas, olhe, ainda fui legal nesta parte: criei umas ervinha aqui e ali, para o pessoal dar uma relaxada, não viver o tempo todo com a desgraçada condição de ser um pobre e estúpido humano, mas o que vocês fizeram? Como me agradeceram? Inventaram drogas em laboratórios, potencializaram o que era somente natural, entupiram-se de porcarias, destruindo-se e destruindo tudo a sua volta através da pouca chance de prazer que lhes ofereci. Ora, francamente: vocês humanos cansam.

Martina mal conseguia pensar.
Deus não era Deus por acaso, pois calou sua boca reclamilda de longos 40 anos em breves cinco minutos, sem lhe dar nenhuma oportunidade de defesa ou contra ataque.
Deus estava em pé, e era possível ouvir sua respiração pesada e aflita:
Martina notou que o homem estava matando Deus, exatamente como o coração matava o homem.

E foi embora, sem querer mais explicações.
Martina era melhor que Ele.
Deus era feio.
Deus era sujo.
Deus era malvado.
Deus era seu irmão gêmeo.

Assassinos sem corpos

Prostitutas sem colchão.
Viciados sem dependência.
Doentes sem doença.
Artistas sem janelas.
Milagreiros sem visão.
Ricos sem fortuna.
Criminosos sem pecado.
Malandragem comportada.
Revolução muda.
Líderes sem palanques.
Escritores sem biografia.
Ciganos apegados.
Poetas sem musas.
Lunetas quebradas.
Heróis covardes.
Bêbados sem sarjeta.
Gentileza bruta.
Escravos sem punição.
Corajosos aleijados.
Cantores sem melodia.
Muros de areia.
Bons calados.
Banquetes de sucata.
Gritos de violência muda.
Bailarinas sem pés.
Pintores sem sol.
Inocentes sem álibi.
Relógios sem tempo.
Pianistas sem mãos.
Fúria sem castigo.
Pecadores sem culpa.
Santos sem pedestais.
Curiosos sem novidades.
Pontes de açúcar.
Chuva de gasolina.
Fantasia de palhaço em festa de noite cortês.



Inesperadamente,
o tempo destrói tudo.

Pedro e Manuel em: um mundo ruim.

Pedro e Manuel nasceram em noite de lua cortada ao meio,
céu pálido,
nuvens de algodão preto.
Pedro, de parto normal e enfeite na porta:
“Seja bem vindo, meu doce bebê”.
Manuel, de parto anormal e corte profundo;
Na porta, prematuro conselho de vida breve:
“Cuide-se criança;
Entre todos os males deste mundo, para você somente os menores”.

Pedro cresceu ouvindo canções de fadas e viscondes e duendes e pirilampos,
serenatas de delicadeza e cuidado;
seres mágicos atirando pedrinhas de brilhantes em sua janela.
Tinha medo de lobisomem,
medo de disco voador.
Sua mãe lhe cobria o nariz,
Lhe beijava a testa
Lhe falava com seu sorriso perfumado:
- Meu doce bebê, esqueça o perigo. Eu estou aqui, e aqui ficarei até seu medo desaparecer.
E Pedro dormia
Embalado pelo som da viola dos anjos e dos querubins.

Manuel cresceu ouvindo tiros e gritos de terror
em sua cidade de casas e de vidas pobres.
Tinha medo da polícia
medo da fome.
Sua mãe gritava em meio ao tiroteio,
as balas talhando as frágeis e apodrecidas paredes
(que deveriam proteger do frio)
(que deveriam proteger da morte)
- Manuel, esconda-se embaixo da cama!
(BAM BAM BAM – tiros abafando sua voz de mãe desesperada)
- Não levante a cabeça, fique onde está. Logo, tudo passa.

Mas nunca, nunca passava.

Pedro tinha uma escola colorida
e amigos que jogavam futebol e amarelinha.
Pedro fazia bolas com sabão
Bolas com chicletes
Elaborando sonhos
Guardando certezas concretas de realização.

Manuel tinha um irmão mais velho
todo machucado.
E seus amigos brincavam de desovar corpos e guerrilha,
e fingiam seqüestros e montavam assaltos
imaginando que eram donos do morro
imaginando que eram donos de suas miseráveis vidas.

Manuel apertava o gatilho de sua arma de brinquedo
E matava seus sonhos de viver em um mundo bom.
Nenhuma garantia tinha
De que estaria vivo para ver o sol ir dormir.

O mundo em que vivia Pedro
não via o mundo onde morava Manuel.
E as balas do mundo de um
perdiam-se e encontravam-se no mundo de outro;
e toda sujeira, e toda feiúra e todo o vazio
da vida de Manuel
Trazia desconforto e balançava as garantias da vida de Pedro.
E todos – todos – fechavam os olhos
Negando-se a ver
Negando-se a assumir todas as sujeiras, toda a feiúra e todo o vazio
que também habitava cada qual
na sua condição mesquinha de ser humano.
Na sua condição partidária de morador do asfalto.

Quando adultos viraram
Pedro ganhou um carro e um futuro.
E Manuel uma AK-47 carregada e 300g de ácido lisérgico.
Pedro saiu para celebrar a vida.
Manuel saiu para reencontrar a morte.

E a bala que saiu de sua AK-47
Perdeu-se na floresta encantada
Matou uma fada
Destruiu um sonho
e encontrou a cabeça de uma doce mãe.

A doce mãe de Pedro.

Telefonaram-lhe para contar
E depois de toda raiva
E depois de toda irreversível surpresa
- dor inviolável de morte injusta –
Restou ao menino
Em seu automóvel
Com sua vaga em um lugar ao sol garantida e instaurada,
Chorar.
Como chorou na noite de lua cortada ao meio em que nasceu.

Pedro segurava a mão cinza e gelada de sua mãe
(ele, para sempre, seu doce bebê).
Ela estava séria em seu caixão branco
coberto por rosas e jasmins
Porque sabia que havia colocado seu filho
para morrer em um mundo ruim.

Pedro não tinha mais uma mãe
Para lhe cantigar canções de fadas e viscondes e duendes e pirilampos.
Nem havia mais serenatas de delicadeza e cuidado, nem seres mágicos,
nem pedrinhas de brilhantes em sua janela.

Manuel e seu medo da polícia e da fome
Seguiam em frente
Encapuzados
Sua máscara destemida de criança assustada e melancólica.

Pedro e Manuel um dia se encontraram em um elevador.
Olharam-se desinteressados.
No bolso de Pedro,
As chaves de seu automóvel,
seus projetos,
suas balas de mel.

No bolso de Manuel,
Sua pistola,
seus projeteis,
suas balas de pólvora.

Um deles subiu até o último andar do edifício mais alto da cidade.
O outro desceu ao subsolo
e lá permaneceu.

Era noite de lua cortada ao meio,
Céu pálido,
Nuvens de algodão preto.
*
Publicado no livro Letras do Brasil, pela Taba Cultural Editora.

Passam

Passam carros
e cachorros
e ciganas lendo a sorte
pela rua principal.

Passam homens com gravatas, fingindo ares importantes;
e a prostituta velha,
o ex-fumante,
o encanador que gosta de crianças.
Passa a senhorita e seu coração partido,
passa o homem de neandertau.

Um homem com um carrapato nos pés e três em seu guaipeca moribundo
Observa.

Passam crianças bugras, pretas, sujas
distribuindo cestos e redes e sexo:
- Tem moeda tio?
Mas elas não sabem falar
enquanto ninguém consegue entender,
e a vida é curta.

Passam vendedores e viciados,
passa a caça, passa o caçador.
Passa o policial corrupto,
o cadáver,
o catatônico,
Passam mulheres arrumadas
unhas feitas, perfumadas demais.

Pela rua principal lá vai a mulher infiel,
o esquizofrênico,
o preso que ganhou hoje a liberdade,
o assassino.
O velho e seus segredos,
o padre,
o colheitador de papoulas,
e aquele homem lá:
que maltratado a tudo vê
do quarto andar de um prédio que não existe.

A donzela adormeceu no banheiro da praça
– o príncipe não chegou a tempo não.
O suicida pulou da torre da igreja.
O carro não freou a tempo.
O telefone tocou, mas você havia acabado de sair.
O bêbado não segurou o próprio peso, caiu, bateu a cabeça, sangrou muito.
A bala se perdeu e acertou a sua porta.

A puta, a virgem, o santo e o pecador.
O preto, o branco, o profeta e o ateu.
O culpado, o inocente, o monstro e seu médico.
Todos pela rua principal
vão.

Tico e os Italianos

Uma correntinha de ouro, uma família de estrangeiros no Brasil, um ônibus e Rodrigo Carvalho Cruz, o Tico.
Estes são os elementos e personagens de mais uma história da série Brasil: o país sem noção.

No dia 19 de novembro deste ano, uma família de italianos em férias no Brasil passeava pela linda Ipanema quando, em cima de uma bicicleta, Tico arrancou a corrente de ouro do patriarca da família. Indignado, o filho se colocou atrás do assaltante, alcançando-o, e ambos passaram a brigar; caíram no chão, rolaram até a rua. Um ônibus não conseguiu frear a tempo e atropelou o turista, o matando.
Tico fugiu.
Porque fugir é provavelmente o que ele faz, desde que aprendeu a andar.

Tico se refugiou na favela da Fazendinha, no Complexo do Alemão, subúrbio do Rio, na casa do pastor Isaías da Silva Andrade. Ontem, ele se entregou para a polícia.

Também pudera: não é sempre, aqui no Brasil, que vemos a polícia tão empenhada em capturar um assaltante como neste caso. Centenas de milhares de policiais se deslocaram até a favela, armados até os dentes, numa operação digna de deixar Fernandinho Beira-Mar invejoso.

Não estou aqui para defender o assaltante. Nem para concordar com o pastor, que afirmou que Tico só fazia o que fazia porque estava “possuído pelo demônio”. Acho, inclusive, um absurdo o que acontece com os turistas que vêm visitar o Brasil, que virou e mexeu são assaltados, assassinados, estuprados, violados, levando para fora do país uma imagem tenebrosa porém justa, de um país tão repleto de belezas naturais e crimes hediondos.
O que me irrita, me tira do sério, me arranca o sono e traz dor de estômago é a forma como as coisas são tratadas aqui.
ERA realmente necessário todo aquele alarde, toda a cobertura da mídia, todo esse fuzuê pra prender um miserável, como o tal do Tico?

Porque ele é somente mais um bode expiatório em nosso Brasil.
Tico, negro, 20 anos. Sem estudos, favelado, pequenino ladrão.
Ele não matou o francês. O ônibus matou.
Ele roubou – e isso, é claro, não está certo – mas quantas e quantas pessoas não são violadas no Brasil todos os dias? Já cansamos de ver os registros de câmeras de segurança mostrando a cara de pau dos assaltantes, que roubam a luz do dia, bem no centro da cidade e na maior das caras duras. Acontece todo dia e eu nunca vi a polícia se mobilizando daquele jeito para prender o rapaz de roubou a bolsa da senhora ou que arrancou a carteira do bolso do estudante.
“Mas era um estrangeiro, Janaína. O Brasil precisa mostrar serviço pro pessoal lá de fora não sair por aí pensando que aqui só tem bandido”.

Oquei.
Mas então porque, ao invés de todo esse circo para prender o pobre-coitado do Tico, nosso país não busca soluções no sentido de IMPEDIR que Ticos continuem roubando, ao invés de tentar remediar uma situação que não pode mais ser remediada. Afinal, o filho do italiano assaltado, Giorgio Morassi, está morto e isto é fato consumado e irrevogável.
Eu sei, eu sei. Vão me dizer que a segurança pública no Brasil é problema antigo, complicado... Que a educação seria primordial em casos assim – de prevenção -, e é muito, muuuito difícil, tendo em vista as condições do país, e blábláblá. Eu sei.
Contudo o que quero dizer é que nosso país não pode mais continuar criando algozes e colocando em suas costas a culpa de tudo que nos acontece.
Bodes expiatórios escolhidos aleatoriamente, para responderem por crimes cometidos, na verdade, pelo estado: um estado que não dá educação nenhuma para seus filhos; que joga pessoas nas margens da sociedade, que entope favelas de gente e cria um tal de poder paralelo – somente para confirmar que a polícia nada pode fazer, afinal “eles criam suas próprias leis por lá”.
E, enquanto isso, Ticos, Pedros, Marias e Ricardos são taxados de CULPADO pela sociedade e pelo estado, pela polícia e pelos cidadãos que, ridiculamente, devem estar neste exato momento sentindo-se aliviados – “graças á Deus prenderam aquele ladrão”.

Prenderam sim, mas e daí?
Outros milhares de Ticos continuam soltos por aí, roubando bijouterias e bolsas, e é questão de tempo vermos na TV outro estrangeiro – ou outro brasileiro - estirado no chão, morto por causa de miudezas.

Tem vezes que o Brasil me deixa triste.
Triste porque não vejo um mínimo de interesse em resolver a questão. Tudo é sempre varrido para debaixo do tapete, e alguém é escolhido para pagar a conta.
Acho, honestamente, que o Tico deve responder pelo crime que cometeu.
Mas só isso.
Ele não pode e não deve responder pelos crimes que são de todos nós.


Publicado n'Os Armênios

MIL JANAÍNAS


Ontem eu estava dormindo

quando um barulho me despertou.

Algo havia despencado no chão.

Liguei a luz.

Uma pequenina criatura,

com feições exatas as minhas porém diminutas,

me encarava com grandeza e choque.

Logo desvencilhou o medo de seu olhar

e resmungou insatisfeita.


Tem noites

em que uma das mil Janaínas

que guardo dentro de mim escapam pelos meus ouvidos,

minha boca ou meu nariz.

As mais espertas, fogem pelo bocejo.

Quando apaguei a luz,

ela alcançava meu cabelo.



* enquanto isso, Deus brinca de gangorra no playground *

Denúncia

No Brasil, os dados aterrorizam e fazem pensar:
A cada oito minutos, uma criança sofre violência física dentro de casa.
Uma em cada doze crianças é, de alguma forma, explorada; o país está em terceiro lugar no ranking mundial de trabalho doméstico infantil.
A cada quinze segundos, uma mulher é espancada, geralmente dentro de sua casa, por seu companheiro;
A cada ano, pelo menos quinze mil idosos são vítimas de espancamentos, torturas e abusos sexuais.*

Neste círculo de violência particular e mascarada, pode-se perceber a participação ativa de dois elementos principais: o agressor e a vítima. Cada caso continua sendo cada caso, porém é significativa a situação de poder que o primeiro – sempre - possui em relação ao segundo. Nas mulheres, a dependência ao marido vai desde a financeira até a pior – a emocional; os idosos preferem calar a correr o risco de serem jogados em asilos ou abrigos; e as crianças, alvos fáceis e frágeis, aprendem desde cedo a irreal importância de uma brutalidade desmedida, que as tornará cada vez mais violentas, intensificado mais uma lamentável e nociva bola de neve.


Os números de denúncias crescem significativamente a cada ano. O que não significa que mais pessoas conscientes decidiram delatar, mas que os atos violentos cresceram proporcionalmente. E ainda mais.
Porém, a forma como o assunto é tratado, seja em campanhas de TV ou matérias de revistas e jornais, parte e prossegue basicamente de dois pontos: para a vítima, pede-se a denúncia. Para o agressor, pede-se por consciência.
O que me parece, a um primeiro momento, incoerente.

Primeiro porque, se a vítima tivesse coragem ou independência suficiente, já teria delatado seu agressor sem que nenhum ator global precisa-se pedir-lhe. E segundo: uma criatura capaz de agredir violentamente uma mulher, um idoso ou uma criança, não irá se comover com trilhas dramáticas e apelos teatrais.
Logo, os elementos que tornam este círculo de violência social possível não estão aptos a reagir ou mudar. E é nesta parte que entramos eu e você.
Quem irá realizar a denúncia que colocará um ponto final a tantos abusos e desrespeitos será feito por um inesperado personagem social: o vizinho, o amigo da família, o dono do mercado da esquina, a amiga da amiga, pessoas distantes e neutras deste meio viciado de violência.
A velha história de que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher perdeu-se com o tempo e o aprimoramento dos requintes de violência. Era válida quando se tratava de pequenas cenas de ciúme e banalidades, mas quando socos, chutes e estupros uniram-se ao roteiro, é obrigação nossa tomar alguma providência.
Quando calamos, também consentimos. E quando consentimentos, nos tornamos também violentos. Porque podemos optar por não integrar este estranho complô de silêncio existente em torno da violência doméstica no Brasil, e denunciar. É anônimo, e muitas vezes gratuito também.

Se, enquanto publicitária, me caísse em mãos um trabalho pedindo pelo fim da violência doméstica, certamente não estaria o público-alvo voltado para as vítimas ou os agressores.
Estaria voltado para você.
E se você sabe, por favor, não cale mais. Denuncie.

* Fonte: Unicef e Jornal O Globo


Publicado n'Os Armênios

Confesse, Gioconda.

Chegou em uma manhã cinza de inverno.
Envelope pardo, papel branco, manuscrito em vermelho.

“Senhorita Gioconda: seus dias de mentira estão terminando. Eu sei tudo aquilo que você gostaria que ninguém soubesse”.

Não estava assinado, não havia nenhuma identificação.
Gioconda largou a xícara de café em cima da mesa, e sentiu-se pálida.
Seu marido entrou na cozinha e estranhou sua cor:
- Tudo bem Gio?
- Tudo... Tudo bem...

No mês seguinte, nova carta, mesmo envelope sem identificação:

“Muitas vezes me perguntei como você conseguia deitar sua cabeça no travesseiro, toda noite, e dormir em paz.
Você não passava de uma garotinha quando seduziu seu velho patrão. Não teve nenhuma vergonha de levá-lo para cama embaixo dos olhos de sua patroa, que lhe recebeu em sua casa no momento em que você mais precisava de ajuda. Você a traiu, a humilhou, e por fim, grávida, destruiu seu casamento.
Sabia que, depois que você partiu, levando consigo seu marido, aquela senhora que lhe estendeu a mão se entregou a bebida? Sabia que, em pouco mais de um ano, aquela senhora que te deu comida e abrigo escreveu uma carta de despedida? Sabia que aquela senhora, que te deu proteção e uma cama quente para dormir meteu uma bala na cabeça?
Eu sei.”

Gioconda amassou o papel nas mãos.
Passara os últimos trinta dias agoniada, sentindo-se invariavelmente observada.
Olhou para os lados a modo de verificar se estava, realmente, sozinha.
Estava.
Algumas semanas e uma nova carta chegou pelo correio:

“O bebê que você esperava, morreu. Um aborto espontâneo. Mas você – confesse – sentiu-se aliviada. Já havia conseguido o que tanto queria (seu patrão e seu dinheiro), e um bebê somente estragaria seus planos e, provavelmente, seu corpo jovem.
Manteve-se ao lado do velho durante alguns anos, não sem manter encontros furtivos com o motorista que ele, ingenuamente, pagava para te levar para cima e para baixo, a gastar seu dinheiro.
Evidentemente, devia lhe ser muito difícil fazer sexo somente com aquele homem, que considerava velho e nojento.
Então você novamente engravidou.
E mentiu despudoradamente ao velho que era ele o pai. E o pobre infeliz, em sua confiança cega, assumiu o filho do motorista.
Quantas vezes você riu deste pobre homem, enrolada com o outro em seus lençóis, em sua cama?
Sim Gioconda.
Eu sei”.

Gioconda sentia-se tonta.
Não entendia como alguém poderia conhecer tantos minuciosos detalhes sobre seu maldito passado; sempre acreditou que, se nele não pensasse, se dele se esquecesse, ele também deixaria de existir.
Mas acontece que alguém sabia sobre seus crimes. E parecia disposto a pressioná-la. Até o seu fim.

Sua vida se tornou um imutável pesadelo.
Não dormia, não comia, não falava; sentia-se perseguida, vigiada. Emagreceu. Ganhou olheiras fundas.
O marido e os filhos perguntavam se estava tudo bem, e Gioconda sorria forçada, um sorriso amarelo e fraco, e respondia que sim, estava tudo muito bem.
A carta seguinte não esperou um mês para chegar.
Em dez dias, o carteiro deixou o envelope pardo na caixa de correio.

“O bebê nasceu. O verdadeiro pai, o motorista, reivindicava seu direito pela paternidade.
Mas você não permitiu que ele sequer conhecesse a criança.
E quando sentiu-se ameaçada, pôs-se a arquitetar seu novo plano.
Rasteiramente, foi fazendo a cabeça de seu velho marido contra o motorista, dizendo-lhe que ele não era de confiança, que usava drogas, que era um marginal, que dava em cima de você. Não se passou um mês até o pobre velhote demiti-lo, para sua inteira felicidade.
Você sabe o que aconteceu? O infeliz, desempregado, desesperado por não poder conhecer o filho e contar toda a verdade, enterrou-se no álcool e nos comprimidos para depressão. Bateu seu carro, cinco meses depois de sua demissão, e hoje está paraplégico.
Eu sei.”

Na vida de Gioconda, não havia mais nenhum resquício de paz.
As cartas não paravam de chegar.
Já não eram mensais. Passaram a quinzenais, semanais, chegavam quase todos os dias.
Todas as manhãs, Gioconda tomava um Valium e prostrava-se em frente a janela principal, esperando o carteiro aparecer com novas acusações, novas sentenças de CULPADA.
Sua família começou a se preocupar com sua saúde. Seu marido contava que, nas poucas noites que a esposa dormia, tinha pesadelos, debatia-se na cama, murmurava que era inocente.
E as cartas continuavam.

“Quando seu velho marido morreu, eu sei o quanto você ficou feliz. Já não agüentava mais aquele velhote, não tinha mais paciência para suas conversas, seus carinhos.
Ele já estava doente, mas mesmo assim, você tinha pressa.
Contando com seu espólio, trocou seus remédios para o coração e para a pressão por placebos.
Quanto tempo o infeliz levou para morrer?
Pouco mais de três meses?
E quanta alegria contida no dia de sua morte, não é Gioconda?
Agora você tinha dinheiro, e não precisava de mais ninguém.
Mas eu sei”.



“Com dinheiro no bolso e um filho nos braços, você mudou de cidade; mas não de vida. Em pouco tempo, gastou toda a herança recebida, e estava novamente sozinha, miserável, com uma criança pequena e faminta nos braços.
Como nunca se preocupou em estudar e nada sabia fazer, você caiu nas ruas, vendendo seu corpo por moedas e restos de comida.
Porém você já não era tão jovem, seu corpo já não era tão belo, você já não valia tudo que imaginava valer.
Lembra-se dos homens repugnantes com os quais se deitou? Lembra do quanto eles cheiravam mal, lembra das humilhações?
Um dia, um deles te bateu.
Outros já haviam te agredido, mas aquele homem tanto te espancou que quase a matou. E quando você já estava desfalecida no chão, veio à lembrança da arma. Da arma ao lado da cama, da arma que um deles te deixou como forma de pagamento, dizendo valer “uns duzentos contos”.
Você atirou, e matou o sujeito.
Eu sei tudo sobre aquela tarde Gioconda”.

Gioconda adoeceu, mas não quis ir para o hospital.
As cartas continuariam chegando, e ela precisava estar em casa para recebê-las.
E se alguém as descobrisse? E se um de seus filhos as encontrasse, o que poderiam pensar?
A vida de Gioconda, tão segura e feliz, não existia mais. Ela continuava morando em uma casa grande, tinha carro, dinheiro, um belo guarda roupa, viagens programadas, filhos saudáveis, um marido dedicado, mas agora somente vivia para esperar as cartas e suas sentenças.

“Mesmo assim, você encontrou um novo infeliz para enganar. Apesar de já não ser tão bonita nem tão formosa, seu atual marido resolveu te estender a mão. Por sorte ou acaso, desta vez seu alvo era um homem solteiro.
Solteiro, mas com uma filha adolescente, da qual você não gostava.
E para não dividir sua atenção (e muito menos seu dinheiro), conseguiu destruir o relacionamento entre pai e filha. A menina saiu de casa, jurando nunca mais voltar, e desde este dia, o pobre homem chora todas as noites.
Você sabe disso.
Sabe que toda vez que ele deita e não consegue dormir, toda vez que ele se tranca no escritório, toda vez que ele toma banho, ele chora pela filha que foi embora.
E eu a vi estes dias, fazendo ponto em uma esquina nojenta, na avenida principal. Vendendo seu corpo por moedas e comida, sofrendo agressões e humilhações tal e qual você sofreu.
Mas isso não te importa, não é?
Mesmo sabendo onde a menina se encontra, você não conta para ele, você não a quer de volta.
Eu sei Gioconda”.

Esta foi a última carta que Gioconda recebeu.
Não podia mais agüentar um minuto.
Seus dedos tremelicavam, e ela tentou tomar um comprimido, mas regurgitou-o, seu estômago estava por demais enfraquecido.
Foi até o escritório.
As crianças estavam no colégio, o marido trabalhava, a empregada havia ido até a feira.
Sentou-se, pegou um papel em branco e uma caneta vermelha, e colocou-se a escrever:

“Agora é chegada a hora de você pagar pelos crimes que já cometeu”.

E sem assinar, colocou o papel em um envelope pardo, escreveu seu endereço, caminhou lentamente até o correio e lá depositou a carta que em breve chegaria a sua própria casa.
Quando voltou, com a arma de seu pobre marido, atirou contra a cabeça.
Jorrou sangue na parede azul, e o pesadelo terminou.


Publicado na coletânea Caminhos do Medo, pela Editora Andross.

Uma conversa entre Deus e o Diabo - parte II

Natanael sentia vontade de fumar.
Mas sabia que, na qualidade de arcanjo, braço direito do Todo-Poderoso, não poderia se dar a este desfrute mundano.

Ouvia os passos apreensivos de Deus na sala ao lado.
Tinha certeza que Ele havia feito novamente uma ligação para o andar de baixo.

Sibilo aproximou-se:
- E então?
- Ele telefonou outra vez para o Coisa-ruim.
- Ta brincando?
- Antes fosse.

A porta da sala celestial se abriu num estrondo, e Deus apontou por entre a abertura:
- Aquele pulha já chegou?
Mas antes que Natanael pudesse responder, Lúcifer adentrou espalhafatoso, falando alto:
- Acabo de chegar. E já vou logo avisando: desta vez não aceito desculpas!
Deus franziu a testa desagradado, e recolheu a cabeça para dentro da sala.
- Entre, entre...

Lúcifer continuava o mesmo, porém mais fedido, ainda mais gosmento e com três ou quatro rugas a mais. Olhou pela janela, passou os dedos podres por alguns objetos do Senhor, empestando-os, e finalmente sentou:
- Então? O que posso fazer por você?
- Ora, não te faça de desentendido, Satã!
Lúcifer levantou-se, dando-se por ofendido.
- Ora digo eu! Você resolve dar uma de Criador e não-sei-mais-o-que e depois vem acusar a mim? Não tenho absolutamente nada a ver com esse episódio, sou só um velho diabo.
Deus olhou-o quase com piedade, e jogou-se, exausto, em sua enorme poltrona azul.
- Este era meu medo. Preferiria mil vezes que isso tivesse um dedo seu.
- Ah, eu também. Assim, ao menos, poderia recuperar meu prestígio e minha popularidade de alguns séculos atrás.
Deus suspirou fundo, desanimado, olheiras profundas:
- Onde eu errei Lúcifer, me diga! Onde?
- E eu é que sei? Só sei que por causa dessas tuas invenções estúpidas estamos ficando para trás. Da onde você tirou aquela idéia cretina de transformar um punhado de barro num homem? Porque não foi aprender uma nova receita de bolo, fazer algumas palavras-cruzadas?– e Lúcifer, com expressões nojentas, cuspiu no chão. – Odeio eles. Todos eles.
- Nunca pensei que fosse dizer isso, mas você tem razão. –respondeu o Senhor, suspirando - Infelizmente agora é tarde. Já estou morto.
- Mas e aquela idéia do dilúvio?
Deus o interrompeu balançando a cabeça negativamente:
- Esqueça Lúcifer. Esqueça.
O diabo levantou-se e se pôs a caminhar pela sala, empertigando tudo.
- Pelo menos me ofereça um uísque.
- Só tenho chá. – respondeu, franzindo a testa.
O Todo-Poderoso observou o demônio por alguns minutos, olhos contemplativos como quem estivesse amadurecendo uma idéia. Uma boa idéia.
Através do telefone interno divinal, chamou por Natanael:
- Arcanjo: peça ao Noé para vir até minha sala.



E numa casa feita de chocolate e marzipan, a menina esquecia o que era dor e o que era tristeza, porque Sibilo e Natanael lhe tiravam canções de seus tamborins.


(para Isabella Nardoni)

Uma conversa entre Deus e o Diabo - parte I

Natanael observava seu chefe nervoso.
E nervoso também ficava.
E por isso sua asa esquerda coçava e o deixava ainda mais nervoso.
Sibilo entrou e encarou os dois. Sentiu o ambiente sólido como uma rocha:
- Como ele está? – perguntou, sua voz quase inaudível.
Natanael não respondeu. O que, dada a situação, já era uma resposta.

Passaram alguns minutos.

- Ele telefonou para aquele cara lá de baixo.
Sibilo arregalou os olhos:
- Tá brincando?
- Verdade...
- E...?
- Está chocado também. Disse que não tem nada a ver com isso.
- Então...?
- Os humanos, né Sibilo? Isso é coisa dos humanos...

Deus observava a Terra por entre as nuvens.
Parecia preocupado.
Madalena, sua secretária para assuntos extra-oficiais, adentrou a sala divinal:
- Senhor, ele chegou. Está aqui e está fedendo.
- Mande-o entrar.

Mais alguns segundos e Lúcifer adentrou o salão. Um cheiro funesto dominou o ambiente e Deus aproveitou sua divindade para impedir que aquele odor fosse decodificado pelo seu cérebro todo-poderoso.
- Só vim porque também quero explicações.
- Ora explicações – vociferou inesperadamente Ele – Você é quem vai me explicar direitinho essa história...
Mas Lúcifer, desta vez, não tivera culpa.
Estava em reunião com Mister Bush naquele horário. E nem gostava muito de criancinhas, até porque poucas eram atiradas aos seus poderes, lá no andar de baixo.
- Sabe os detalhes? – perguntou, servindo-se de chá, Lúcifer.
- Sei. E devo confessar que nem você, no auge de sua mocidade e bestialidade, há uns dois séculos atrás, conseguiu ser tão cruel.
- Eu sei. Estou cansado e velho. Essas suas criações também...
Lúcifer andava pela sala celestial como se fosse dono do lugar, e por onde passava empestava com gosmas e sujeira os brancos e limpos cômodos celestiais.
- O que tem minhas criações? – deu-se, por ofendido, Deus.
- Como o que tem?! Se não fui eu, nem você, está na cara que foram eles: os humanos. Os medonhos humanos. Por culpa deles mais pareço um cachorro velho que o impiedoso demônio que sempre fui.
Deus não respondeu, e não foi possível saber se o seu silêncio consentia ou ignorava os comentários satânicos de Lúcifer.
- Não sei onde errei – admitiu, por fim.
- Nem eu. Talvez o barro estivesse vencido...
- Talvez.



Em cima de um telhado feito de nuvens e amendoins, o menino cantava e não ouvia a conversa dos dois lados de cá.
Natanael e Sibilo decidiram levar um pedaço de bolo de chocolate para ele.


(para João Hélio)

A gente quer inteiro e não pela metade.

A raiz de todo o mal é a educação.
Seja quando alguém decide documentar crianças empregadas pelo tráfico ou arrastar meninos pelas avenidas cariocas, surge aos quatro cantos sociólogos, psicólogos, antropólogos, assistentes e afins, repetindo sempre que, para acabar com tanta violência e disparidade social, é preciso incentivar e facilitar o acesso à educação.
E esta é a verdadeira solução.
Segundo um estudo da Universidade Federal Paulista, oitenta por cento dos jovens que estão na Febem apresentam distorção entre idade e série. Noventa e um por cento não terminaram o primeiro grau. E se, com canudo na mão, já é difícil encontrar qualquer sinal de esperança neste mercado de trabalho abarrotado e moribundo, em um país onde um gari precisa ter o segundo grau completo para estar habilitado a trabalhar, para que lado correr? Para o lado do crime, naturalmente: onde tudo é mais fácil e rápido, além de altamente lucrativo.
O problema não é qual a solução para o mal – a educação reduziria drasticamente tantos dados alarmantes; mas de que maneira aplicar tal solução de forma realmente eficaz.
Se boa parte dos estudantes abandona a escola porque precisa, paralelamente, trabalhar, outra boa parte deixa os estudos de lado por não conseguir entender para que regras gramaticais e mínimos múltiplos comuns possam ter qualquer utilidade em suas vidas, algum dia.
Não tenho certeza de que construir novas escolas e incentivar alunos com bolsas-estudos e propaganda possa entregar à sociedade cidadãos minimamente decentes. A educação não poderá ser solução para nada enquanto não passar por um crítico e minucioso processo reformulativo.
Nossos métodos educacionais cortam séculos sem alteração. Não condeno o ensino de química, física e matemática, mas não compreendo o completo e absoluto descaso quanto aos assuntos referentes e presentes na realidade de cada aluno. Não é admissível que não tenhamos aulas obrigatórias de educação sexual, sociologia e filosofia em todas as escolas; que assuntos como racismo, drogas, tráfico, sexo, violência e preconceito não sejam sequer levantados; que muitos professores continuem mantendo seus alunos sob regimes autoritários, que não abram espaço para discussões e que, impreterivelmente, considerem mais importante “concluir o plano de ensino” do que tentar descobrir porque nosso país vive em completo caos.
Os estudantes são sempre dispensados do trabalho de pensar. Devem apenas decorar e responder, como uma tropa de soldados bem treinados.
E porque o ensino brasileiro não caminha conforme a humanidade, não acompanha seus avanços, suas mudanças?
Porque um povo que pensa é um povo que contesta. Não interessa a nenhum comandante megalomaníaco – como a maioria dos comandantes, sejam políticos ou religiosos – tentar manter sob controle pessoas racionais, sempre mais difíceis de serem manipuladas e ludibriadas.
É com este pensamento que há dois mil anos milhares e milhares de “fiéis” continuam acreditando em uma história cheia de buracos, contradições e fantasias. São com programas bobos de entretenimento que se mantêm populações inteiras caladas e distraídas, enquanto nos bastidores os ratos fazem a festa. São com aulas medíocres e assuntos ultrapassados que se conservam jovens alienados, afastados da escola e de qualquer perspectiva. E assim o Brasil desperdiça, diariamente, centenas de cabeças pensantes, cérebros que, em um futuro muito próximo, poderiam tomar decisões sensatas e ditar os novos rumos de nosso país.

De nada valerá pagar para que alunos freqüentem a escola, ou tentar convencê-los de que é melhor ir para uma aula de Microbiologia Celular a se entupir de drogas e enveredar-se pela delinqüência.
O que vejo em meu país é um desespero cego em podar os galhos de uma árvore venenosa, que destrói nossa paz, nossos raquíticos restos de esperança. E assim continuamos, como moscas em volta da lâmpada, chegando sempre a lugar nenhum.
Como ensinou certa vez Nelson Mandela, é preciso olhar nos olhos a verdade e reconhecê-la, sem meias palavras ou subterfúgios, sem hipocrisia e retórica política. E a verdade é que a essência de nossos maiores problemas sociais não está nos ramos, mas em raízes profundas e entrevadas que, para ELES, nunca interessará destruir.
Cabe a nós, então.


Publicado n'Os Armênios

A Mulher Infiel

A mulher infiel anda pela rua coberta de rosas.

Sente sua saia dançar
com uma brisa limpa e leve
vinda do interior de uma alma cheia de tudo que somos
e também deixamos de ser.

Uma alma que é sua
Uma alma que ela nem usa mais.

Sente sua blusa azul e amarela
destacando o que deveria esconder.
E o seu cabelo
preso em uma fita cheia de flores coloridas.

Não ouve a voz que dentro dela
Grita
Esperneia
Implora por atenção; bate o pé irritada.

Com suas unhas discretas ajeita o cabelo
E retoca com vermelho a boca fechada,
tão pequena.

A mulher infiel finge não saber de toda dor
que passeia pelo seu vazio e espaçoso coração.

Melindrosa,
ela corta praças e parques
e ruas movimentadas,
entupidas de todos os ruídos tristes deste mundo.

O sorveteiro lhe serve creme com morango
e além de moedas aquecidas
recebe também seu melhor sorriso brejeiro.

A melindrosa mulher infiel
percebe.
E sente
como o sopro de uma mãe sobre o joelho esfolado;
a melindrosa mulher infiel
caía por todos os lugares
todos os dias
há tantos anos.

Logo
A dor volta a gritar,
passeando frenética.
A voz esperneia,
querendo atenção.
A cabeça pesa, vazia
fazendo-a enganar-se que é a fita de flores coloridas
apertando-lhe os pensamentos.

A mulher e melindrosa infiel
segue pela rua coberta de rosas.
Uma fita cheia de flores coloridas no cabelo
Uma blusa azul e amarela e
uma saia cheia de vento.

Ela não quer escutar.

E pelo seu coração vazio
passeiam livremente
todos os homens
e todas as dores
Deste mundo abarrotado de coisas e amor.


Publicado na antologia de poesias Vide-Verso, pela Editora Andross.

17 junho 2008

Hola.

Quer dar um apoio-sócio-monetário-cultural, sem fins lucrativos, para mim?
Oh, obrigada.
Você pode adquirir as coletâneas nas quais, modestamente, participo, clicando no linque ou entrando em contato com esta que vos fala, através do e-mail 3am.jana@gmail.com .
(não espalha, mas na minha mão sai mais barato, rerere).

1. Vide-Verso, poesia, Ed. Andross, 2008. R$25.00.
2. Expresso das Letras, poesia, Ed. Revolução Cultural, 2008. (esgotado)
3. Caminhos do Medo, contos de terror e suspense, Ed. Andross, 2008. R$ 20.00.
4. Livro de Ouro da Poesia Brasileira Contemporânea, poesia, Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE), 2008. (esgotado)
5. Antologia de Contos Fantásticos, contos, CBJE, 2008. (esgotado)
6. Antologia de Literatura Infantil, diversos, CBJE, 2008. (esgotado)
7. Antologia de Escritores Brasileiros, diversos, Academia Poçoense de Letras e Artes, 2008. (esgotado)
8. Letras no Brasil, diversos, Taba Cultural Editora, 2008. R$15.00
9. Panorama Literário Brasileiro, diversos, CBJE, 2008. (esgotado)
10. Crônicas Faquianas, crônicas, Editora UPF, 2008. (esgotado)
11. Amar é Abanar o Rabo, poesia, Publicação Independente, 2009. Org. Jovino Machado. Distribuição gratuita.
12. Assassinos S/A - Contos Policiais Brasileiros, contos, Editora Multifoco, 2009. R$25.00.
13. Galeria do Sobrenatural - Jornadas Além da Imaginação, contos, Terracota Editora, 2009. Lançamento: outubro.
14. Assassinos S/A - Volume II, contos policiais, Editora Multifoco, lançamento previsto para janeiro de 2010.

Bai, bai.