04 dezembro 2008

Vermelho.

Que me desculpe os gremistas.
Que me desculpe quem não tem nada a ver com isso.
Que me desculpe quem odeia futebol, e também quem pensa que ele serve apenas para distrair o povo de coisas mais sérias.
Que me perdoem todos aqueles que não concordarem comigo.
Mas agora são exatamente uma e cinco da manhã, e meu time querido, do coração, salve, salve Sport Clube Internacional, acaba de conseguir uma façanha.
Não!
Mais do que isso: uma TREMENDA façanha.
Depois de um jogo corrido, sofrido, angustiante.
Depois de eternos 120 minutos.
Eu disse CENTO E VINTE MINUTOS!
Isso é uma vida.
Bactérias e insetos nascem e morrem em 120 minutos.
E aquele maldito gol dos hermanos, ÓH Deus! o que foi aquele gol?
O desespero embaralhando o raciocínio, a sensação de derrota silenciando o Beira-Rio, a vantagem indo ralo abaixo, e ainda por cima o Galvão Bueno, que apenas sendo o Galvão Bueno já é capaz de enlouquecer qualquer santo homem.
E nada do gol colorado.
Nada!
Nem unzinho só.
Não infartei porque não sofro do coração.

Logo, o fim do tempo normal de jogo.
Empate.
Pênaltis? Ora, poderia ser pior. Talvez não seja indolor, mas ao menos será rápido, pensei. Ao menos essa agonia exorbitante desaparece daqui.
Que nada!
Descubro, em franco desespero, que o jogo vai para a prorrogação, ou seja: serão MAIS trinta minutos.
TRINTA MINUTOS!
Isso é uma vida.
Bactérias e insetos nascem e morrem em trinta minutos.
Desliguei a tevê, caminhei pela casa, acessei a internéte, conversei algumas amenidades, tudo para tentar não pensar que o pior estava por acontecer.
Morrer na praia, com vantagem e tudo?
Trinta minutos, um gol.
E em casa! Em NOSSA casa!
Não, não.
Não!
E então, quando já fumava meu nonagésimo sétimo cigarro e sentia meu estômago se transformar em oito, os gritos.
Hesitei, num primeiro momento.
Quem mora aqui no Rio Grande do Sul sabe do que estou falando. Quando o Inter tomou o primeiro gol, a comemoração dos gremistas foi digna de me fazer pensar que o gol era nosso.
Naquela hora, não era.
Mas agora foi.
Histeria, tremelique, até me engasguei.
Faltavam seis minutos para o final da prorrogação.
SEIS!
Isso é uma vida.
Bactérias e insetos nascem e morrem em seis minutos.
Um gol dos argentinos e os pênaltis acabariam com meu coraçãozinho sofrido.
Rezei.
Fiz promessa.
Contei carneirinhos.
Tremeliquei mais um pouco e, quando vi, o tal apito final apitou.
Rárárárá.
Gritos, foquetes, gritos, euforia, gritos, foquetes, euforia, gritos.
Não respeitei meu bom companheiro quando ele advertiu:
- Cara, não berra.
Berrei.
Mas berrei mesmo.
Berrei tudo.
Berrei até extirpar a gastrite que, sem dúvidas, desenvolvi durante aqueles duradouros 120 minutos.
E enquanto escrevo este texto, ainda tenho vontade de berrar.
Ouço a linda e avermelhada passeata lá no centro, e cada buzina parece música para os meus ouvidos.
O Brasil, queridos, é vermelho.

Mesmo que vocês torçam para o Grêmio.
Mesmo que não tenham nada a ver com isso e nem por isso se interessem.
Mesmo que odeiem futebol e o considerem puro e nocivo ópio popular.
Mesmo que não concordem comigo.

Hoje o Brasil é vermelho.
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante.
Vermelhão.
Depois da Libertadores, da Recopa Sul-Americana, do Mundial de Clubes, a Sul-Americana.
Já há quem diga:
- Boca quem mesmo?

Até o Chapolin é Colorado.
Saudações.