26 dezembro 2008

Tópicos mal escritos de natal.

O Rei
Minha mãe, como quase todas as mães deste Brasil, é fã do Roberto Carlos.
Logo eu, que sempre fui fã da minha mãe, acabei virando fã do rei também.
E todo final de ano, no especial de natal, lá estamos nós duas, vidradas na frente da tevê, tomando cerveja, comendo azeitonas e choramingando enquanto ouvimos “... fecho os olhos pra não ver passar o tempo, sinto falta de você...”.
Pra mim, é sagrado.
Passo o natal sem árvore, sem presente, sem peru, mas sem o Robertão, nem a pau.
É um dos raros clichês natalinos que não abro mão.
O problema é que, apesar da nossa idolatria, Roberto andava meio chato.
Sempre os mesmos convidados, cantando as mesmas músicas, usando as mesmas roupas e homenageando a mesma Maria Rita no final de cada programa.
Mas ontem as coisas mudaram.
Quem viu sabe do que eu estou falando.
Roberto trouxe nomes do rock, da MPB, do samba e até do sertanejo para o palco. Cantou músicas que nunca cantou em especiais de natal, não substituiu “se o bem e o mal existem você pode escolher” por “se o bem e o bem existem você pode escolher”, tomou vinho, sambou com a rainha de bateria da Beija-Flor, trocou o famigerado azul por cores mais fortes e vibrantes, sorriu bastante e, o melhor: não homenageou a falecida.
Até não vejo problema nenhum em homenagear as pessoas que você ama muito e já morreram, mas uma hora precisamos deixar os mortos em paz.
Especulamos muito e concluímos que isso tem cheiro de amor novo.
Tomara.
Nunca é tarde para voltar a ser feliz.

A Barata
Ontem estava morrendo de cansaço.
Minhas pernas doíam, meu fígado pedia trégua, meus pulmões tentavam arduamente manter-se em funcionamento e eu decidi que precisava dormir.
Estava me preparando para o sono dos justos quando, de trás da escrivaninha do meu quarto, saiu uma barata.
Não, uma barata não!
Um monstro gigante, nojento, gordo, asqueroso, cascudo e, como se não bastasse, voador.
E atrás dela veio outra, tão gigante, nojenta, gorda, asquerosa, cascuda e voadora quanto a primeira.
Então, a mulherzinha que vive dentro de mim se manifestou e eu tive um ataque.
Disse que não dormiria no quarto dejeitonenhum, pelo menos enquanto não matassem aqueles dois monstros cascudos.
Cavanhas, como o bom marido que é, me defendeu das nojentinhas voadoras e as estraçalhou com um matador de moscas. Porém eu já havia me dado conta de que, se haviam duas, certamente haveria outras duzentas escondidas pelas frestas e por todos os cantos.
Dormi com o cobertor até o nariz e a luz acesa, me sentindo pateticamente vulnerável a um ser que não deveria pesar mais de um grama.
Prefiro encarar um tiranossauro rex do que uma barata.
E é terrível saber que milhares delas devem estar escondidas, neste exato momento, nas fendas, atrás dos armários, dos quadros, dentro de caixas, em qualquer lugar, e ao menor descuido sairão das trevas para atormentar cidadãos pagadores de impostos como eu.
Agora mesmo, enquanto escrevo este texto, não tiro os olhos das paredes, do chão, de todos os lados.
Não suporto baratas.
Suporto tudo, menos baratas.
E pensar que se a bomba atômica explodir apenas elas restarão.
Ai, ai.

O Gato Orelhudo
A noite do dia 24 teve muita cerveja e poucas pessoas.
Nada melhor.
Enchi a cara, assisti dvds, joguei conversa fora e, às 3 e meia da manhã, estiquei meu corpinho bêbado na cama e adormeci, pensando que nada me faria levantar antes das 11 da manhã.
Acordei às 8 e meia com miados na minha janela.
Levantei, espiei pela fresta e detectei a presença de um mini-gatinho, que fora abandonado impiedosamente no meu quintal.
Chamei meu pai e catamos o bichano que, aliás, é o bichano mais feio, mais magro e mais orelhudo que já vi na minha vida.
Pobrezinho.
Envolvidos pelo espírito natalino e seguindo a tradição de nossa família de acolher animais feios, doentes, aleijados e excluídos em geral, carregamos o animalzinho – que não tem mais que dez centímetros, sendo 7 só de orelhas - para dentro de casa.
Por sorte, encontramos um lar e um novo dono para o pequerrucho, pois aqui em casa ele iria se sentir hostilizado pelo nosso cachorro ancião, nossa gata que pensa que é a rainha da cocada preta e nosso gato com deficiência visual.
Sabe como é: eles são muito carentes e temperamentais.

A Piscininha
Depois de vários dias de um calor escaldante, axilas suadas, mau humor, falta de ar e manifestação de todas as formas de alergias possíveis, resolvi montar minha pobre, porém limpinha, piscininha de 3 mil litros.
Comprei há uns três anos atrás, numa tentativa desesperada de não morrer de calor.
Enquanto a piscininha enchia e nós aguardávamos ansiosos para dar o primeiro "mergulho", o céu fechou, nuvens cinzentas apareceram, um vento gelado soprou do oeste e o tempo desabou.
E esfriou.
E eu até coloquei um casaquinho.
Alegria de pobre, definitivamente, dura pouco.

A Vizinha
Estava eu sentada na varanda da casa dos meus pais, tomando um café preto para tentar acordar, quando ouço a vizinha da frente gritar:
- Oi, cortou o cabelo de novo?
Não, eu não havia cortado o cabelo de novo. Mas achei melhor não explicar:
- Sim, cortei.
- Tu ta sempre mudando, né?
- É que eu enjôo muito rápido das coisas. Principalmente da minha cara.
- Ficou bom assim. Tu é tão magrinha, agora teu rosto ficou mais cheinho.
Hã?
Mais cheinho?
Ignorei.
Ela estava longe, do outro lado da rua, e eu deveria apenas estar inchada de tanto dormir e beber.
Bem, pelo menos foi o que pensei na hora.
De tarde, fui no meu avô e minha avó disse:
- Tu deu uma engordadinha né? Ta com as pernas mais grossas, o rosto mais cheinho...
Hã??
- Isso deve ser gravidez, disse meu vô.
Hã???
Rárárá. Como você é espirituoso, vovô. Estou morrendo de rir.
Voltei para casa azeda, deitei na rede, joguei meus pés para o céu e esqueci essa história.
Cheinha é a...#&%@#!
Humpf!

A Justificativa
Quero súper-agradecer aos queridos que me enviaram e-mails, escrépes, cartões, pombos correios e boas vibrações neste final de ano.
Também amo vocês e assim que parar de sentir sono vou responder a todos.
E a cada um.
Beijo na bunda.