30 novembro 2008

Ô mano!

Sábado, 23h, toca a campainha.
Parado no portão, um rapaz com cerca de 16, talvez 17 anos:
- Ô mano, tem dez pila aí pra emprestar?
Hã? Dez pila? Rárárá.
- Não, não tem.
- Ah, então vai tomar no cú.
- (...)

Domingo, 16h, centro de Passo Fundo.
- Ô doutor, tem uma moedinha aí para ajudar?
- Não.
- Pode ser qualquer valor, cinco, dez centavos, só pra dar uma força.
- Não.
- Ô doutor, nenhuma moedinha, nada, nada?
- Não.
- Então doutor, que Deus lhe ilumine, lhe ajude, que esteja sempre em seu coração. Bom final de semana.
- Pra você também.
- Mas doutor, não tem nem uma moedinha mesmo? Pra comprar comida. Pô, não vai negar comida né?
- (...)


Depois deste texto, talvez me chamem de fascista, simplista, anti-socialista, comedora de fígados de criancinha e outras definições semelhantes, pouco amistosas.
Não faz mal.
Só preciso deixar registrada aqui a minha indignação e o meu imenso saco cheio em relação a este pessoal considerado “de rua” que, justamente por ser de rua, acham que o resto da humanidade tem o dever moral e cívico de pagar-lhes comida, bebida e o que mais considerarem conveniente.
Nenhum dos dois pilantras que me abordaram eram doentes ou inválidos, muito pelo contrário: eram jovens saudáveis, em perfeitas condições de trabalho.
Então me respondam: porque eu, logo eu, que mal ganho uns trocados para pagar o aluguel, tenho a obrigação de sustentar vagabundo?
Não entendo.
Se eu posso trabalhar, e meu marido também pode, e meu irmão, meu pai e todas as pessoas que caminham sobre esta terra, porque estes merdas pidunchos não podem?
- Ora, porque você teve uma família estruturada, pôde estudar, teve mais chances na vida.
Ah, quer saber?
Cansei dessa ladainha.
Estamos chegando a um ponto, neste país de meudeus, onde estudar, não passar fome e vir de uma família onde não existem alcoólatras-tarados virou um problema. Ou se é um pobre miserável sem expectativa de futuro, ou se é um egoísta, preconceituoso, indiferente as mazelas sociais.
É impressionante, mas você sofre discriminação porque resolveu completar o segundo grau ao invés de abandonar tudo na quarta série.

O cara morava na favela e virou bandido?
Não é atenuante.
Dezenas nascem em favelas, e passam por mil e uma dificuldades e, mesmo assim, não se tornam bandidos. Do mesmo jeito que muitos, nascidos em berço de ouro e amamentados a leite de cabrita, são os criminosos mais salafrários e filhos-da-puta que circulam – livres – por aí.
Se o sujeito se esforçou, e estudou, e batalhou por um emprego decente, ele tem, automaticamente, a obrigação de amparar aqueles que decidiram trocar os livros e a labuta pela cachacinha e o vira-lata?
Acho que não.

A sociedade não cria os bandidos.
Eles se criam sozinhos, geralmente alimentados por uma imensa preguiça e falta de vontade para arregaçar as mangas e pôr a mão na massa.
Porque se a vida tá difícil para você, mano, pode acreditar que está igualmente difícil para mim.
Se a nossa casa não é de papelão, é porque a gente trabalhou e estudou muito para ter um lugarzinho aonde cair morto.
Se nós temos comida na mesa ao meio-dia, é porque de manhã estávamos trabalhando, e não enchendo a cara.
Se hoje nós temos um pouco mais que um guaipeca sarnento e uma calça rasgada, é porque decidimos dar um jeito nessa vida - que não é justa para ninguém - ao invés de ficarmos sentados numa esquina, choramingando as pitangas e sentindo-nos injustiçados perante as mazelas de uma sociedade tirana e cruel.

Este é um dos principais problemas do Brasil: a desculpa esfarrapada.
Todo mundo tem seus motivos e razões para justificar suas pilantragens.
Por isso eu afirmo, sem medo dos socialistas lunáticos que, por ventura, poderão vir a me atacar: se este país é paternalista, eu não sou.
E não vou tirar da minha boca para colocar na boca de nenhum folgado.
Não vou dar uma moedinha só porque o cidadão não toma banho há dez dias e está fedendo.
Nem vou ter pena, porque estes, definitivamente, não são os dignos de piedade.
Antes, terei compaixão dos trabalhadores, honestos, que saem cedo de casa e se fodem trabalhando; gente que tira seu sustento e seu dinheirinho para um sanduíche e algumas biritas do seu trabalho, e não dos bolsos de outros trabalhadores, igualmente fodidos e mal pagos.
Antes de ter pena de moleque de rua, vou ter pena daqueles que ralam o dia inteiro e ainda estudam de noite, que é para ver se arranjam um lugarzinho maneiro em baixo desse sol.
Antes de ter pena dos teoricamente excluído e marginalizado, vou é ter pena de mim, que não estou pedindo, nem matando, nem roubando, nem me prostituindo.
Tô é trabalhando, acordando cedo, agüentando chefe, salários mínimos, impostos e o escaubau.
E se eu consigo, mano, pode crer: você também há de conseguir.
E por hoje é só.
(...)


Leia aqui o texto que o Rafael de Araújo escreveu após ler este post.