30 dezembro 2008

A grama do vizinho é mais verde que a sua?

Então olhe com atenção.
Se aproxime da cerca que separa seus quintais e observe atentamente.
Mais perto, mais perto.
Está vendo ali, ao lado da árvore, as ervas daninhas?
Está vendo aquele formigueiro destruindo o roseiral?
Está vendo aquelas folhas secas? Pelo visto a folhagem morreu.

Desista, cherry: de perto, ninguém é normal, nem perfeito, nem cem por cento feliz.

E isto não é, em absoluto, uma constatação pessimista ou triste.
Pelo contrário.
Gostamos muito de olhar para os outros imaginando o quanto eles são mais felizes do que nós.
O quanto possuem mais dinheiro que nós.
O quanto estão mais equilibrados e harmoniosos que nós.
O quanto o casamento da vizinha é mais feliz e realizado que o nosso.
Pois eu tenho uma novidade: não, eles não são mais felizes, nem mais ricos nem mais realizados que você ou eu.
E da mesma maneira que os observamos, e pensamos no quanto são privilegiados - enquanto nós estamos na merda - eles também olham para nossa grama e pensam o quanto ela é mais verde e mais bonita que as suas.
Se pudéssemos entrar nas casas e nas vidas das pessoas que costumamos invejar, perceberíamos que todas elas peidam, e brigam, e contam moedas para economizar.
Perceberíamos que, aquilo que mostramos para os outros, é aquilo que desejamos que os outros pensem de nós. Não necessariamente a realidade.
E se nem tudo que pensam sobre você é verdade, porque tudo o que você pensa sobre os outros seria?

Todos nós observamos e somos, constantemente, observados.
Na maioria das vezes, erroneamente.

Quando eu era bem pequena (mas bem pequena mesmo, algo em torno dos 2 anos de idade) meus pais eram donos de uma rede de supermercados e éramos considerados pelas pessoas ricos. Vivíamos em uma casa grande, com uma piscina grande e tínhamos um carro grande. Todo mundo olhava para a nossa família e pensava: nossa, que lindos, que felizes, que inveja! Um casal simpático, uma filha simpática, dinheiro no bolso e saúde para dar e vender.
Isso por fora.
Quem entrava pela porta da pequena mansão onde meus pais habitavam descobria rapidamente que nem tudo o que reluzia era ouro.
Minha mãe, nesta época, era alcoólatra. Meu pai, que nunca bebeu e nem fumou na vida, de saco cheio da esposa pinguça, tratou de arrumar uma amante.
Isso parece a descrição de uma família feliz?
Não, e nem era para ser.
Mas todo mundo achava que sim, incluindo pessoas muito próximas.
Então minha mãe descobriu a traição, se separou de meu pai e parou de beber.
A rede de supermercados faliu. Quebrou. Se encheu de dívidas e fechou as portas.
Agora, quem olhava para nós pensava: ora, coitados.Ledo engano.
Enquanto todo mundo cantava nossa tragédia, nossa família começava a se reconstruir para ser feliz de verdade.
Minha mãe largou a vódega para cuidar de mim. Não bebia mais nem uma gota. Meu pai, aos pouquinhos, foi se reaproximando e a vida foi se refazendo depois da tempestade. Gradativamente, tudo voltou para o seu devido lugar.
Só que desta vez sem mansões nem nada palpável para os olhos alheios.

Reparem que, enquanto as pessoas gostavam de nos invejar, nós vivíamos uma vida muito da porcaria. E depois, quando todo mundo só sabia morrer de pena, era o momento em que estávamos mais felizes, mais sólidos e mais próximos.
De perto, nada é o que parece ser.
Todas as pessoas deste mundo enfrentam medos, dificuldades, confusões.
E por mais que disfarcem, e representem, e maquiem seus problemas, lá, dentro das quatro paredes, a verdade aparece - sequer se esconde.
Mesmo que você não possa ver, porque as janelas dos outros estarão sempre (e propositadamente) fechadas.

De perto, não somos nem felizes nem infelizes.
Nem normais nem anormais.
De perto somos todos iguais.
E se você duvida, aproxime-se das cercas que separam os quintais.