29 dezembro 2008

Carpinteiro do universo

Escrevi quatro páginas falando sobre porque-eu-gosto-e-porque-eu-acho-que-todas-as-pessoas-deste-mundo-deveriam-ouvir Raul Seixas.
Quando terminei, li e considerei aquilo tudo inútil.
Não existe como fazer alguém compreender, com meia dúzia de palavras, o que ouvindo ainda não conseguiu.
Por que: ou você entende, ou você não entende.
Ou você já esteve aqui, ou nunca vai estar.

Em um tempo onde eu não escutava ninguém e tinha a certeza absoluta de que nenhuma pessoa neste mundo seria capaz de me compreender (adolescência é um saco) escutei Raul e tive a impressão de que ele havia me compreendido.
Eu tinha 11 anos.
Vocês não imaginam o que Raul Seixas é capaz de fazer com a cabeça de uma menina de 11 anos.
E sabem por quê eu decidi ouví-lo?
Porque, para mim, ele sempre falou de liberdade.
Mas não a liberdade sexual e tola, que a maioria das pessoas se orgulha em possuir e que apenas serve para acorrentá-las ainda mais.
Falo daquela liberdade que você sabe se tem ou não tem de noite, sozinho, deitado na cama.
A liberdade que te liberta daquilo que fizeram de você.
A liberdade de pensar, de se permitir experimentar, de ter a plena consciência que não há como saber sem tentar.
A liberdade que, ao invés de fazer indagar aos outros, faz indagar a si próprio.
Esta que faz buscar deus dentro de cada homem.
Que transforma o egoísmo em algo bom, no momento em que se é capaz de fazer o bem para encontrar o bem que vive dentro de nós.
A liberdade que faz de você o único capaz acabar com essa palhaçada toda.

Eu gosto do Raul.
E o respeito muito.
Foi por causa de suas idéias, transformadas em músicas (mas que poderiam perfeitamente estar retratadas em um quadro, ou em algum livro ou desenho) que consegui, feliz ou infelizmente, ser quem eu sou hoje.
E por mais que eu não tenha dinheiro, nem estabilidade financeira; e por mais que eu queira ser escritora em um país onde os escritores morrem de fome; e por mais que eu tenha milhares de defeitos; eu sou uma pessoa livre.
Graças aos meus pais, é claro, que nunca me podaram, nunca me desrespeitaram. Mas também graças ao Raul, que não permitiu que eu me aprisionasse dentro de minhas pequenas certezas, e passasse (talvez, quem sabe) a vida inteira vagando pelo mundo dentro de uma bolha intacta e velha.
Sim. Raul me deu a mão e me tirou de dentro de um abismo ao qual eu me precipitava.
Um abismo triste e melancólico, onde todos os dias muitas pessoas despencam, hipnotizadas, adoentadas e infelizes, vítimas das próprias mãos.

Apaguei o texto que escrevi sobre porque-eu-gosto-e-porque-eu-acho-que-todas-as-pessoas-deste-mundo-deveriam-ouvir Raul Seixas simplesmente porque não existe jeito de explicar o que Raul fez com a minha vida.
É preciso ouvi-lo e descobrir, por conta própria, o que ele vai fazer com a sua.

É isto o que desejo para todos nós em 2009.
Ouvir mais Raul Seixas e se permitir abrir aquela porta, no fundo daquele corredor.
Aquela que você finge que não está ali.

Que venha 2009. Mas que venha quente, porque nós estaremos fervendo.