19 novembro 2008

Vassoura.

Continuo lendo a série de livros do Dr. Inácio Ferreira (1904-1988), escrita em parceria com o médium Carlos Baccelli, e continuo adorando. Um detalhe muito especial (e comum, em quase todos os seus livros) é o jeito pouco ortodoxo como Inácio (que era médico psiquiatra e diretor do Sanatório Espírita de Uberaba) enxerga determinados problemas.
Sempre quando foi indagado sobre as possibilidades e alternativas para a recuperação de pacientes insanos, esquizofrênicos e paranóicos em geral, ele respondeu:
- Vassoura.
Vassoura? perguntavam, curiosos, seus ouvintes, que por certo esperavam uma imensa dissertação acerca da psiquê humana e suas infinitas particularidades.
- Quem se ocupa com algum trabalho não tem tempo para ficar pensando bobagens, remoendo mágoas, afundando-se desnecessariamente em sofrimentos e insanidades. Vassoura não cura, mas fortalece.

E é.
Definitivamente.
Foi a essa conclusão que eu também cheguei, após colocar o dedo na tomada repetidas vezes, sem aprender que a maldita dava choque.
Porque remédios podem aliviar, especialistas podem escutar, mas o que resolve mesmo é parar de ficar a toa pelo mundo, pensando na morte da bezerra, e colocar a mão na massa.

Eu, por exemplo, sofro da doença mais idiota e modernosa que qualquer latino-americano comum pode sofrer, que é a Síndrome do Pânico.
Bem, para falar a verdade, eu acho esse nome meio catastrófico demais perante o que realmente sinto, mas é como a medicina o definiu, enfim: Síndrome do Pânico. Um transtorno psicológico caracterizado pela ocorrência de inesperados ataques de pânico, seguidos por uma expectativa ansiosa ante a possibilidade de ter novos ataques. As crises consistem em períodos de intensa angústia, geralmente com início súbito e acompanhadas por uma sensação de catástrofe iminente. Os sintomas variam entre taquicardia, tontura, boca seca, tremores e náuseas, além de muitos outros.

É mais ou menos isso que me acontece, só que em menor grau.
Passo horas do meu dia imaginando todas as dezenas de centenas de milhares de tragédias que podem acometer a mim ou aos meus, e já vou sofrendo, com inacreditável antecipação, por coisas que, muito provavelmente, nunca irão acontecer.
Se o cachorro late é porque um ladrão entrou no pátio; se a pessoa não liga é porque ocorreu alguma tragédia; se o avião passa no céu por certo vai cair bem em cima da minha casa.
São sandices, que meu consciente reconhece como sandices.
Mas e o inconsciente? Quem é que manda nele?

Eu não mando no meu, e por isso ele faz o que quer comigo.
O fato é que, desde que apresentei os primeiros sintomas, há quase dois anos, já fiz de tudo um pouco: de remédios até mandingas, não teve o que eu não tentei.

Não nego que melhorei.
Mas basta eu bobear que não dá outra: todas aquelas sensações sinistras e angustiantes voltam, com força total. É como se elas estivessem sempre ali, a me espreitar, me observar e, ao menor descuido meu, aproveitassem para cair matando.
É uma luta diária, sim senhor.
E sabem em que momentos esta batalha se torna mais leve, e eu tenho a nítida sensação de que já ganhei?
Quando estou fazendo alguma coisa.
Se estou lendo, lavando roupa, varrendo o chão, escrevendo, pagando contas, indo no supermercado, enfim: quando estou fazendo hoje as coisas que poderia perfeitamente deixar para fazer amanhã.
Somente nessas horas eu posso dizer que me sinto, plenamente, livre deste sentimento tão canalha.
A desocupação, sem dúvidas, produz monstros.

Então é isso o que posso aconselhar para você, que está tristonho, desanimado, preocupado com as contas que não param de chegar e com o dinheiro que não pára de sair.
Você que padece por amor, você que recebeu um grande golpe, que sofreu uma grande perda, que amarga dura decepção.
Você que toma tarjas pretas como se fosse água, e paga fortunas aos psicólogos e aos grandes laboratórios farmacêuticos.
Você aí, sentado no sofá, sem ânimo nem para levantar e fazer um xixi.
Para todos nós: vassoura.
Porque se ela não cura os males da alma, ao menos os coloca em segundo plano.
Afinal, quem é que vai se preocupar com o cachorro latindo e o avião voando se tem aquela louça toda para lavar?