10 novembro 2008

Sobre alguns assuntos eu prefiro não comentar.

Assuntos que deixam as pessoas neuróticas, dispostas a declarar guerra umas contra as outras somente porque possuem opiniões diferentes.
Assuntos que transformei em tabu para evitar a fadiga - se é que vocês me entendem.
Censurei, das minhas rodas de conversa, blábláblás em torno de aborto, vida após a morte, Paulo Coelho, futebol, esquerda/direita.
Não falo nem sob tortura.
Também não persisto mais em longas divagações, muito menos me descabelo tentando fazer os outros entenderem o que eu penso:
Arrã, você tem razão virou meu mantra.

Porque as pessoas têm o costume de punir quem não é exatamente igual a elas:
“O que eu espero senhores, é que após um breve período de discussão, todos concordem comigo“, disse Churchill, certa vez.
Eu nunca fui com a cara desse tal de Churchill.

É por causa desta mania xarope de tentar transformar todo mundo em uma extensão de nossa própria personalidade que passamos a vida inteira acreditando nas mesmas coisas, e conversando com as mesmas pessoas sobre os mesmos assuntos, nos quais concordamos completamente e, assim, não saímos do chão, não nos permitimos estar, pelo menos de vez em quando, errados.
Perdemos a capacidade (se é que algum dia a tivemos) de sentar e escutar o que o outro tem a dizer, sem se alterar e querer estrangulá-lo só porque ele prefere chocolate e você morango.
E, vejam bem: não estou falando isso para você do alto da minha capacidade genuína de tolerância e compreensão.
Não mesmo.
Sou o exemplo clássico da arrogância e falta de paciência que, vejam só! eu tanto critico.
Mas... aqui entre nós, vamos admitir: não temos o costume de escutar uma opinião contrária a nossa sem tentar impor a nossa verdade, a qualquer custo.
Não conseguimos apenas ver ou ouvir o que discorda de nós; precisamos tentar a tudo modificar conforme (e exatamente) os nossos moldes.
Já aconteceu com você, já aconteceu comigo.
Acontece todos os dias.

Mas, evidentemente: isso não significa que não somos esforçados.
Bem que tentamos.
Gostamos de apregoar discursos acerca da igualdade, da liberdade e da fraternidade, e levantar uma bandeira em defesa do respeito às diferenças, mas bastou a pimenta arder em nossas vistas e as botas pisarem em nossos calos que já viramos a casaca e, de um instante para o outro, nos transformamos em únicos e incontestáveis donos da verdade.

Precisamos mudar isso.
Intransigência é um defeito fodido.
Foi por causa da intolerância de uns e outros que muitas cabeças já rolaram ao longo da história.
Não importa se em maior ou menor grau, onde há um déspota há também confusão e pancadaria.

Opinião diferente não é, necessariamente, contrária.
Não estamos contra uns e outros.
Apenas estamos.

E numa época em que Obama faz ressurgir, até nos mais céticos, uma gotícula de esperança - um filete de luz no fim do túnel - eu digo sem medo de parecer piegas: eu também tenho um sonho, Martin.
De que um dia todas as pessoas - incluindo eu - possam sentar em uma mesa de bar e falar sobre aborto e Paulo Coelho sem sequer alterar o tom da voz.
Onde o diferente não será mais ameaçador.
Nem para mim, nem para ninguém.
Então poderemos voltar a conversar.