05 novembro 2008

Os amigos do rei.

O rei, sentado em seu trono, está nu.

O rei comprou um painel em branco, acreditando levar para casa a pintura que somente os inteligentes poderiam ver;
ele, por certo, não via nada ali – no entanto, dizia que sim:
- Claro, eu enxergo. Eu sempre enxergarei.

O rei não olha pela janela e, quando olha, não vê.
O rei está só, mas não sabe.
O rei está morto e, ainda assim, vive como um rei.

O rei está gordo de tanto comer,
e inchado de tanto beber;
é este, apenas este, seu real prazer em ser alteza: comer e beber à vontade.
Comer pelos famintos e beber pelos sedentos.
Comer e beber até preencher este vazio que dói ali dentro,
tal e qual um estômago esfomeado.
É a solidão, que ele deixou de saber.
É a morte, que ele deixou de morrer.
Por isso nada - nada - sacia o rei.

O rei, sentado em seu trono,
está nu,
e está gordo,
de tanto ser rei.
Confia nos homens que o cercam
e no povo que conduz
sem saber (como nada sabe) que a confiança de um rei não pode ser depositada em qualquer homem,
e que povos se rebelam quando a fome vira lei.

O rei observa o painel em branco
que comprou por tantos pesos de ouro,
e tenta, tenta,
mas não consegue enxergar nada ali.
O rei olha pela janela de seu castelo,
tentando alcançar seu reino com seus olhos de rei;
e tenta, tenta,
mas não consegue enxergar nada ali.

O rei, distraído em sua realeza, não ouve os burburinhos do motim.
O rei, comendo e bebendo sem parar, não percebe os primeiros sinais da erupção.
O rei olha para o seu reino,
e nada vê.
O rei está cego,
está surdo
e está nu.

Existe quem lute contra o rei,
e eles são muitos.
Muitos que não querem ser amigos do rei.
Muitos que desejam derrubar o rei.
Muitos que já perceberam
o rei morto.

As paredes do castelo ressoam palavras de ordem:
- Cortem a cabeça do rei!
Mas o rei não escuta, embriagando-se de vinho e croissants.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei está nu e não enxerga.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei está cego, e não pode ouvir.
- Cortem a cabeça do rei!
O rei devora um pernil de ovelha, estrebuchando enquanto mastiga.
Pensa que morrerá sem enxergar a pintura que somente os inteligentes podem ver.

A porta que protege o rei
é derrubada,
ele sequer consegue terminar o seu jantar.
Eles chegaram,
eles finalmente chegaram.

- E agora? Cadê os amigos do rei?
- Eles se foram.
Todos se foram.
Não sobrou ninguém.

Um rei sem reino e sem cabeça
não pode ser amigo dos amigos do rei.