24 novembro 2008

O preconceito contra homossexuais não me surpreende.

Ao menos não em uma sociedade onde prostitutas, negros, mulheres, velhos e muitos outros também são colocados de lado, observados de soslaio e com desprezo por todo o resto, tão normal.
As pessoas conhecem bem todas as frases-prontas: ‘não devemos nos meter na vida dos outros’; ‘o que se faz entre quatro paredes não é da conta de ninguém’; ‘as diferenças são lindas e merecem ser respeitadas’.
Tudo muito bom.
Na teoria.
Porque na prática, no dia o dia, na hora do vamosver, é bem diferente.
E nem trato aqui dos fanáticos que criam comunidades secretas com leis próprias, e saem pelas ruas promovendo violência e morte, gratuitamente.
Refiro-me a você e eu, ao seu pai, seu melhor amigo, seu chefe, o dono do bar.
Pessoas comuns que costumam se chocar e se revoltar quando assistem pela televisão a manifestações de ódio e intolerância.
- Tá certo que o cara era gay, mas não precisava matar o coitado.Pois em minha opinião – e podem me acusar de radical, nem tô – a distância entre um sujeito capaz de matar um desconhecido pelo simples fato dele ser diferente e outro, que costuma se divertir contando piadinhas de negros e repetindo bordões imbecis como “tinha que ser um preto / tinha que ser uma bicha” não é tão grande como se pode imaginar.

A maioria dos homens que conheço – e incluo aqui meus avôs, pai, sogro, amigos e irmãos - costumam reproduzir citações do tipo 'não tenho nada contra os gays, desde que fiquem longe de mim'.
Quer dizer: o cara pode ser gay, desde que longe de nossas vistas puritanas e de moral duvidosa; esquecidos pra lá do lado de lá.
Desculpem-me, mas não tem o menor cabimento.
Porque aceitar o diferente é aceitar o diferente por inteiro.
Não adianta de nada aceitar impondo desde já mil e uma condições – até porque isso não é aceitar; é somente tentar adaptar ao seu gosto aquilo que não lhe é familiar.

Se o rapaz é gay e gosta de se vestir como mulher, qual é o problema?
Se for ativo, passivo, seja lá por onde o cidadão sinta prazer, o que você tem a ver com isso?
O que não pode faltar - e isso vale para homossexuais, bissexuais, heterossexuais, transexuais e todo o resto que ainda possa vir a existir - é respeito.
Respeito na abordagem, no comportamento, no jeito de cada um levar a sua vida; afinal ninguém precisa ser vulgar ou promíscuo, nem um gay, nem um hetero, nem ninguém.

A sociedade precisa ceder.
Nós precisamos ceder.
Precisamos aprender a nos colocar na condição do outro.
Ninguém tem culpa de amar alguém do mesmo sexo, e nem precisa ter.
Porque do mesmo jeito que você ama, e sente tesão, e desejo, e não tem nenhum controle sobre isso, os outros também sentem e também não conseguem controlar.
Precisamos entender que, quando uma mulher decide se vestir como um homem ou um homem resolve se adornar como uma mulher, eles tem esse direito, do mesmo jeito que você tem o direito de escolher entre uma calça azul e uma bermuda vermelha.
Precisamos todos perceber que, enquanto alguns querem mudar de sexo, outros não querem. Muitos preferem oscilar entre um e outro, outros gostam de se maquiar, outros se vestem discretamente, e isso, definitivamente, não é da sua conta.
Se o sujeito quer usar saia, colocar purpurina na cara ou trocar as saias pelos calções e o cabelo comprido por um boné, é direito de cada um e temos a obrigação de respeitar.
E respeitar não significa apoiar, adorar, simpatizar, muito menos apresentar tendências homossexuais.
Significa apenas aceitar.
Afinal todo mundo pode casar, ter filhos, passear de mãos dadas no parque e namorar com quem bem entender.
Não importa se você gosta de homens ou mulheres, de homens e mulheres, ou se torce pelo flamengo, se odeia berinjela, se é fumante ou não, se acredita que o homem não pisou na lua ou se prefere descafeínado.
O que vale mesmo é como você é, por dentro.
Como pensa, como se comporta, no que acredita.
Opção sexual é só opção.

O preconceito é egoísta e burro.
Além de repulsivo.
Seja por causa de piadinhas e bordões, seja através das notícias sobre crimes de homofobia e intolerância, é fundamental que se entenda que não há nenhuma diferença, além daquelas que nós mesmos criamos.