12 novembro 2008

O careta.

O careta é um sujeito previsível.
Chato.
Você sempre sabe, de antemão, o que ele vai falar e fazer, e a hora exata em que ele vai falar e fazer, e o jeito preciso e metódico com o qual ele vai falar e fazer.
O careta nunca surpreende.
Nunca muda.

O careta não gosta que discordem dele.
Fica ofendido.
E mesmo que você prove, por A + B, que está com a razão, o careta permanece irredutível.
Ele é o dono da verdade.
Ele tem certeza em relação a todas as suas certezas.

O careta é um cara que classifica as pessoas baseado no número de tatuagens, no corte e na cor do cabelo, no tamanho das calças e da barba, e em outras coisas que não fazem a menor diferença.
O careta sempre julga, e sempre condena.
O careta despreza quem é diferente dele.
É covarde.

O careta não muda de opinião.
Jamais.
E também não acredita em mudanças;
prefere pensar que tudo vai continuar exatamente como ele: intacto.

O careta acha que não se deve dar um sanduíche para uma criança que tem fome, porque chama isso de assistencialismo.
E ele considera o assistencialismo errado.
O careta é cheio de discursos gordos em teorias e metáforas idiotas, mas é absolutamente incapaz de tirar do papel aquilo que estufa o peito para proclamar.

O careta é exibido.
Vaidoso.
Megalomaníaco.
O careta não sabe amar, porque não aceita as pessoas como elas são.

O careta gosta de julgar, mas detesta quando é julgado.
Adora apontar o dedo, mas não admite que ninguém o aponte o seu.
O careta quer comer a filha do vizinho, mas não aceita que ninguém queira comer a sua.
Ele é quadrado, gosta de rótulos, gosta de dar ordens.
O careta é adepto de todas as convenções sociais.
Ele não enxerga o próprio (e imenso) rabo.

O careta é um sujeito que dá sono.
Que enjoa.
O careta quer sempre aquilo que não tem.
O careta não muda quando chega o verão.

O careta gosta de títulos, e posições, e sobrenomes.
Ele acredita que você precisa babar no saco das pessoas certas.
O careta vive contando dinheiro.
O careta é amigo do rei.

Com sua alma pequena e seus problemas pequenos,
o careta segue agarrado em suas pequenas certezas,
e pelo mundo vai.


Livrai-nos, senhor, da caretice dos homens.
E perdoai-os;
Eles ainda não sabem o que fazem.