26 novembro 2008

Elis, eu também quero uma casa no campo.

Mas a casa no campo mais distante de todas as casas e de todos os campos que existirem nesse mundo.
Uma casa onde ninguém possa me encontrar, e onde eu não possa encontrar mais ninguém.
Onde não tenha telefone, tevê, muito menos MSN.
Onde não tenha gente.

Estou cansada daqui.
Cansada de verdade.
Cansada à exaustão.
Cansada de me sentir cansada.
Meu coração dói.
Dor doída de coração que está machucado, tal e qual um dedo que a gente corta bem na dobrinha, e parece que nunca mais vai sarar.

Sou espírita, e o espiritismo de Allan Kardec nos diz que ninguém paga o que não deve.
Que não há inocentes nem vítimas.
Que, se você está passando por determinada situação, é porque precisa, ou merece.
Eu sei disso tudo, juro que sei.
E não só sei, como também acredito.
Mas tem horas que eu dobro o dedo e o corte volta a abrir.
E então eu me esqueço de Kardec, do Espiritismo, e só consigo me concentrar na minha dor.

Uma casa no campo não iria salvar o mundo dele mesmo.
Mas eu estaria longe daqui, e quem sabe pudesse me salvar.
Longe dessa gente doente, sem coração, maluca, má.
Gente chata, que afoga, empesta, mutila.
Gente que não é gente, nem bicho, nem coisa alguma.

Flávia foi sugada por um ralo de piscina e ficou em coma.
Ela tinha dez anos, e faz dez anos que está em uma cama, viva porém morta.
Os responsáveis (uma empresa cretina administrada por cretinos fumadores de charutos chamada Jacuzzi do Brasil – lembrem-se deste nome e sabotem) não foram punidos.
Não aconteceu nada.
A justiça não anda, e os amigos do rei continuam a sair impunes, sempre por cima da nossa carne seca.
Enquanto isso, muitas e muitas Flávias precisam conviver com a dor da impunidade, da injustiça, do absurdo.
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

Três rapazes foram torturados pela polícia e acabaram condenados a 24 anos por um crime que não cometeram.
A justiça sabotou a verdade, inventou fatos, torturou.
Há provas de sua inocência, mas não há provas de sua culpa.
Mesmo assim, eles foram declarados culpados, mesmo assim foram condenados.
Eu ouvi os gritos da mãe de um deles, na hora da sentença do juiz, e acho que nunca mais vou poder esquecer: eram grunhidos, urros.
Gritos que vão gritar dentro da minha cabeça, talvez para sempre.
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

A tevê é a maior das criminosas.
Brinca com as pessoas, procura na desgraça alheia pontos para o seu famigerado ibope.
Uma criança foi estuprada? Beleza!
Outra foi torturada pela madrasta? Melhor ainda!
Depois que Lindenberg matou Eloá, milhares de Lindendergs saíram da toca e meteram balas nas cabeças de suas namoradas adolescentes.
Sorte da imprensa marrom; azar o nosso.
E a tevê continua, divulgando para incentivar.
O que seria dos telejornais se as pessoas parassem de cometer crimes hediondos?
E ninguém faz nada, ninguém fala, todo mundo assovia para disfarçar.

Ou troquem a venda da Justiça por um par de óculos ou tratem de também vendar os meus olhos, porque não posso mais ver, não posso mais engolir, não posso mais continuar aqui, sem fazer nada, sem falar nada, assoviando para disfarçar.
E a dor, ah... a dor não passa nunca.
Igual ao corte na dobrinha do dedo.
E quando eu esqueço da dor e me sinto novamente segura em minha vidinha pacata, dobro o dedo e o machucado volta a abrir e a sangrar.
Por isso quero ir embora daqui.
Preciso ir.
Pois, já que não posso fazer nada, já que não tenho influência alguma, nem dinheiro, nem contatos importantes; já que sou somente um latino-americano sem cheiro nem sabor, então eu quero ir.
Junto com aquele moço.
Naquele disco voador.

Elis, eu também quero uma casa no campo.
De pau-a-pique e sapê.
Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros.
E nada mais.