25 outubro 2008

Vou contar uma história.

Uma história que alguns de vocês devem conhecer.
É sobre um homem chamado José, e um circo.

Aparentemente, José e o circo nada tinham em comum.
Estavam distantes, cada qual em seu canto: o circo e seu respeitável público de um lado, e José, sua família, seu emprego e sua vida comum de cidadão comum do outro.

Acontece que um dia o circo pegou fogo.
E José, que talvez sequer soubesse de sua presença na cidade, assistiu a tudo pela televisão: a lona derreteu, choveu fogo.
Mais de quinhentas pessoas morreram, em sua maioria crianças.

Qualquer um de nós teria ficado chocado.
Triste.
Horrorizado.
Talvez chorássemos.
Talvez indagássemos a existência de Deus.
No entanto, enquanto pessoas como eu e você elaboravam conjecturas a respeito do incêndio, José deixou família, emprego e coisas de pessoas como eu e você para trás, e passou a viver no terreno onde antes o circo estava montando.
Sobre as cinzas da tragédia plantou flores, fez uma horta.
Deu carinho, atenção e consolo para as famílias das vítimas e, algum tempo depois, decidiu tornar-se um andarilho; porque voltar para sua velha vida não fazia mais sentido nenhum.
Virou figura certa em praças, parques, ônibus e metrôs, o profeta e sua barba imensa, sua cara mansa, suas palavras doces: gentileza gera gentileza, ele dizia, e todo mundo se sentia um pouco melhor.
Gentileza se tornou conhecido porque parecia ter qualquer coisa que faltava em nós.

Ele não era uma ilha, não estava preocupado com
coisas que não interessam quando chove fogo em cima de crianças.
Por isso o admiramos, por isso falamos sobre ele, por isso inventamos teses e escrevemos livros sobre sua vida, acreditando que, em um futuro muito, muito, muito distante (quem sabe, um dia) possamos entender o que ele entendeu quando tomou essa decisão.
Dá um nó em nossas cabeças, eu sei.
Afinal o admiramos, mas jamais faríamos parecido.
Não queremos deixar para trás nossas coisas, e nossas famílias, e nossos objetivos, e viver somente (tão somente) para os outros.
Ainda não alcançamos tamanho desprendimento e não há nada de errado nisso.
Pelo contrário.
Ninguém precisa abandonar tudo e virar um andarilho; precisamos, sim, é deixar de lado nossa enorme presunção, e entender definitivamente que o mundo não muda somente através de grandes feitos heróicos, duelos, revoluções e muito barulho.
Não!
Ao contrário do que pensamos, o futuro da humanidade não está nas mãos do Bush.
Está nas suas, e nas minhas.
Podemos exercer nosso poder de transformação todos os dias, nos momentos que consideramos mais triviais:
Você pode ser gentil com a caixa do supermercado.
Pode agradecer ao cobrador de ônibus.
Responder um comentário com carinho e atenção.
Você pode ajudar uma senhora cheia de sacolas, e comprar um sorvete para o menino de rua.
Pode dar cinco minutos da sua atenção – a maioria das vezes é somente isso que os outros esperam de você.
Não precisamos virar heróis.
Não precisamos virar profetas.

Podemos continuar bem aqui onde estamos, com nossas vidas, e nossas rotinas, e nossas manias; só precisamos interagir com o mundo de um jeito mais camarada e solidário.
E o melhor é que exercer nossa gentileza diariamente não é apenas um bem que fazemos aos outros, e ao mundo.
Fazemos também por nós, para nós.
Nem sabemos explicar ao certo de onde vem aquela sensação gostosinha, que parece injetada em nossas veias toda vez que doamos aquilo que existe de melhor em cada um de nós.
Ah, vocês sabem do que estou falando.

A verdade é que duvidamos da nossa capacidade de mudar o mundo a nossa volta.
Menosprezamos nosso poder de transformar a nossa vida, e a dos outros, acreditando que as pessoas precisam de muito mais do que, na verdade, realmente necessitam.
Precisamos de casa, comida, educação, trabalho e saúde.
Evidentemente que sim.
Mas também precisamos de gentileza, de doação, de carinho, de respeito, de atenção.
E isso nós temos para dar.
Não importa como anda nossa economia, nem se o dólar subiu ou desceu.
Porque existe um pouco de José em mim.
E, acredite: em você também.