09 outubro 2008

Poemas Miúdos

Lembram da oficina de poesia para crianças que eu ministrei na Feira do Livro de Não-Me-Toque, e sobre a qual já falei aqui?
Pois é, rendeu frutos.
Frutos suculentos, robustos e apetitosos.

Durante a oficina, sugeri para a criançada que realizássemos, juntos, um projeto voltado para literatura infantil, misturando trabalhos meus e deles.
Há cerca de quinze dias, recebi um envelope pardo do colégio Ernesto João Cardoso de Não-Me-Toque, recheado de poesias. Até de turmas que nem participaram da oficina.
O único colégio, entre os vários participantes, que enviaram suas produções.
E tudo por causa de uma professora chamada Edilene que, a exemplo de seus alunos, também interagiu, se interessou, se envolveu.
A apatia dos alunos, sem dúvidas, é um reflexo da apatia dos seus professores.
Pude ver isso claramente, nitidamente, obviamente, com estes olhos que, um dia, a terra há de comer.
Os professores bocejavam e os alunos bocejavam.
Nesta ordem.
Até que surgiu Edilene e sua trupe, e tudo mudou.
Me trouxeram um livreto, produzido em comemoração aos 25 anos da escola, que reunia textos e desenhos de alunos de todas as séries.
Um livreto simples, patrocinado por empresas locais, mas que me colocou emocionada.
Porque aquele livreto, concretizado em minhas mãos, era a luz no fim do túnel para um dos problemas mais graves e tristes da educação no Brasil: a má vontade. Era a sombra e a água fresca em meio a um deserto de tédio e indiferença. Era a esperança de que não, nem tudo está perdido.
Por isso aproveito para parabenizar a professora Edilene, o Colégio Ernesto João Cardoso, os alunos e a todo mundo que, de um jeito ou de outro, acredita que pra tudo sempre tem um jeito.
Basta levantar a bunda do lugar, e fazer acontecer com aquilo que está ao seu alcance.

Mas enfim.
O material que a meninada entregou é riquíssimo.
Boas sacadas, em português correto, com concordância verbal e tudo o mais. E estou falando de alunos de quarta a oitava série, de uma escola municipal de uma cidadezinha nos confins do nada.
Tem criançada escrevendo mais e melhor que muito universitário garboso que anda por aí.
Confiram (e comprovem o que digo) os melhores momentos deste valioso material:

“A Débi é uma pessoa muito querida
ela é minha amiga;
O Augusto também é meu amigo,
mas ele gosta é de briga”.

“Sou livre pra namorar
e louca para amar.
Estou bem comprometida
com o homem da minha vida”.

“O recreio é muito animado
pois tem até namorados.
A gente come merenda
no refeitório organizado”.

“Na hora do recreio
eu creio, é maneiro:
tomar coca, comer algo
e não querer ser pedreiro”.

“Logo vem a formatura,
aí a parada é dura.
Enquanto isso
a profe
que me atura”.

“As drogas deixam a vida vazia,
coisas ruins acontecem.
O amor desaparece”.

“Ah Maria,
essas tranças
que balançam
e cantam”

“Silene ainda está a esperar.
Há uma luz
lá na cidade
a nos vigiar.
Há uma menina
lá no campo
a chorar.
Há viver seus dias tristes”.

“Com amor e respeito
vamos cuidar e achar um jeito
de voltar no tempo pra mudar
amar, reciclar, ajeitar.”

“Que vida boa
vivendo sozinho, pescando na lagoa.
Moro num lugar
onde vivem pessoas
em quem posso confiar”.

“Algo aqui me diz
que estou chegando ao fim!
Vejo uma estrela no ar
e digo que estou a ponto de apagar”

“Não há nada milagroso
nem sorte envolvida.
Tem que ter muito estudo
pois a vida não é só folia”.

"Saio de casa nas asas do vento"

“Os professores trabalham
Os alunos atrapalham
Eles estudam e aprendem
e todos juntos se entendem”

“A manhã é fatiada em duas partes”

E isso é somente uma prévia.
O projeto – que foi batizado de Poemas Miúdos – vai reunir estes e outros trabalhos da meninada, em paralelo a escritos meus.
Ou melhor dizendo, trabalhos meus em paralelo aos escritos da meninada.
Pois eles serão a base, a alma e o fundamento deste livro.
Vai ser fantástico.
Quem viver, verá.