17 outubro 2008

O demônio está chamando.

Dandandan dandandandan, dandandan, dandandan.
Chama um celular no apartamento de Marcelo que, entretido, assiste televisão.
Ele demora a perceber; aquele não é o toque do seu telefone.

O celular insiste.
Ele finalmente nota.
Abaixa o volume da tevê; confere que o seu telefone continua quieto no seu bolso.
Estranha.

Levanta-se e tenta acompanhar o som da chamada: dandandan, dandandandan, dandandan.
Parece vir da lavanderia.
De baixo daquelas roupas sujas.
Dandandandandandan, dandandan, dandandandan.
- Porra, deve ser urgente.

Ali está.
Um aparelho preto, do tipo mais comum.
Sem dúvidas estragado, pois o visor não mostra o número de quem chama, não mostra nada.
Na verdade, não tem visor.
- Alô?
Silêncio do outro lado da linha:
- Alô? – ele repete.
- Alô amigo.
Voz esquisita.
Rouca, estridente, sinistra.
Nem deu para saber se tratava de homem ou mulher.
- Hã, é, bem, não sei quem você está procurando, mas acabei de encontrar esse celular e...
- Não se preocupe, é com você mesmo que quero falar.
- Comigo?
- Sim, Marcelo, exatamente com você.
- Ué, como sabe meu nome?
- Eu sei muitas coisas. Mas permita apresentar-me: sou Lúcifer, o Demônio, o Satã, o Príncipe das Trevas. O Todo-Poderoso do avesso. Prazer.

Segurando o aparelho no ouvido, Marcelo caminhou até a sala e sentou-se no sofá, matutando.
Evidente que aquilo era uma brincadeira de algum de seus amigos.
Mas, quais amigos?
Nem os tinha, e não recebia ninguém em sua casa há muito tempo.
Como aquele telefone veio parar na sua lavanderia, embaixo de suas roupas sujas?
Como aquele sujeito sabia o seu nome?
Ficou curioso.
- Quer dizer que você é o diabo?
- Hã... – a voz no outro lado pareceu subitamente embaraçada – na verdade, amigo, diabo não é dos meus apelidos favoritos. Não sei explicar, me passa uma idéia meio ridícula, distante da minha real condição de imperador de todas as maldades.
- Tudo bem. Te chamarei de demônio, pode ser?
- Me chame como quiser. O que tenho para lhe falar é ainda mais importante que minhas diferentes alcunhas.
- Pois fale, então.
- Certo. Este é um serviço exclusivo de nosso sistema de telemarketing, e você foi criteriosamente selecionado...
Marcelo interrompeu:
- Como é? Telemarketing? Telemarketing diretamente do inferno?
- Exato.
- As novas tecnologias são realmente abrangentes.
- Sim, são. Agora se cale e deixe-me prosseguir.
Marcelo, que até estava achando aquilo tudo muito engraçado, corou. Que falta de educação! Sua mãe sempre avisou que o diabo era petulante.
- Como dizia, seu nome foi criteriosamente selecionado para se tornar nosso representante legal aí em cima, no andar térreo. Pelo que observamos em nosso cadastro para potenciais servidores, você possui as características necessárias para fazer parte de nossa grande família.
- Como assim?
- Pelo que vejo aqui – e Marcelo ouviu pelo fone que a criatura do outro lado da linha remexia em alguns papéis – você é, basicamente, um desocupado. Um preguiçoso. Não trabalha, não estuda, não pensa. É viciado em tevê e coca-cola, não possui nenhum objetivo, nenhuma utilidade, nenhum amigo – pois, até do trabalho de conservar uma amizade você se dispensou. Enfim. És um nada. Um zero à esquerda. Um peso morto que apenas ocupa espaço físico sobre a terra. Estou certo?
- Hã, não é bem assim. Apenas estou tentando encontrar o meu caminho e...
- Ah, claro, a velha desculpa. Não me aborreça com ladainhas, meu filho. Vamos em frente.
O diabo pigarreou e continuou:
- Como nosso representante legítimo, seria lhe oferecido certas vantagens, evidentemente. Privilégios, regalias, benefícios, essas coisas que vocês, humanos, tanto apreciam. Você poderia continuar com sua vida estúpi..., hã, quero dizer, sossegada, e ainda receber algum por isso.

“Quando a esmola é demais, o santo desconfia”.
Marcelo já havia lido isso em algum lugar.
- E eu não teria que fazer nada?
- Ora, também não é assim. Estamos falando em negócios, business, não é? Eu ganho, você ganha, nós ganhamos. Senão se torna injusto.
- E desde quando o demônio é justo?
- Desde sempre, onde já se viu! Nunca cometi uma injusta sequer na minha longa jornada perversa. Você há de convir que a maioria das pessoas facilita muito as coisas para mim.
Marcelo calou-se.
Ele continuou:
- E então?
- O que?
- O que acha da minha proposta, afinal de contas? Sim ou não?
- Sinceramente, eu gosto. Mas quero saber exatamente o que vou precisar fazer, e também não vou assinar nenhum documento sem a presença do meu advogado.
- Ora, não seja tolo. Que advogado? Você não tem nem onde cair morto, vai querer me dizer que tem um advogado? E outra: não trabalhamos com assinaturas. Aqui vale a palavra e o aperto de mão.
- Duvido.
- Não me tome por você, ser desprezível. Se não pode oferecer sua palavra como garantia, então não tem nada para oferecer.
- Tudo bem, tudo bem, não se altere. Mas diga, qual será o meu trabalho?
- Simples: você precisa apenas e tão somente INCOMODAR. Nada mais. Se tornar a pedra no sapato dos outros, impedir o andamento das coisas, atrapalhar a vida de quem ousa me desafiar. Você entende, pequenas amenidades.
- Isso não parece certo.
- E não é. Mas honestamente não lhe compete avaliar e decidir o que é certo ou errado neste mundo. Já que você não serve para nada mesmo, ao menos aproveite sua inutilidade para uma causa maior. Para a minha causa maior, por exemplo.
- Incomodar os outros dá trabalho.
- Ora, que nada! Trabalho nenhum. Todo mundo anda estressado, nervoso, mal humorado. Basta uma faísca para estourarem, para perderem as estribeiras, para fazerem tudo errado, para caírem na minha. Você nem precisará se dedicar; está todo mundo predisposto para o mal.
- Acha mesmo?
- Tenho certeza. Analise as pessoas: são terríveis. Todas doentes, cruéis, estúpidas, grosseiras, limitadas, deslumbráveis, gananciosas e baratas.
- Nossa, obrigado. Vindo de um demônio, isto deve ser um elogio.
- Sim, pode-se dizer que sim. E por isso lhe garanto: seu trabalho será sossegado. Tudo está ao nosso favor, só precisamos ajudar com um pequeno empurrãozinho. E é justamente para isso que preciso de sua contribuição. Sou um demônio muito ocupado.
- Sei. Mas... e você age livremente, impunemente? Quero dizer, não exista quem se oponha a você? Não me venha dizer que é unanimidade...
- Unanimidade exatamente não. Sabe como é, sempre existem aqueles xaropões que cismam em aceitar e seguir o Homem lá em cima. De qualquer maneira, são minoria, não representam nenhuma ameaça. Não será fácil me tirar do poder.
- Como tem tanta certeza de que está no poder?
- Meu caro, eu vejo nas ruas, eu sinto no ar. Estou mais poderoso do que nunca, acredite.
Marcelo se calou.
O demônio percebeu que perdia terreno.
Toda vez que os humanos se colocavam a pensar, era sinal de que não cederiam tão facilmente às suas ofertas:
- Ora, diga sim ou não, de uma vez!
- Acho que não vou aceitar.
- E porque não??? Você foi um dos escolhidos!!! – respondeu o demo, todo exaltado.
- Por isso mesmo. Você está desesperado atrás de novos asseclas porque não está mais conseguindo renovar seu estoque de almas sofredoras e rancorosas. O que só pode significar que o seu espaço e o seu prestígio, aqui na terra, estão caindo progressivamente. E não serei eu a aceitar trabalhar em uma empresa prestes a decretar falência.

Do outro lado da linha, Marcelo escutou um grunhido que não saberia comparar com nenhum grunhido que já ouviu em sua vida, de nenhum ser que já andou sobre esta terra.
Um grunhido dolorido e odioso, que ele nunca mais conseguiu esquecer.
- Falência??? Como ousa...?
- Ah, e quer saber? Vai falar assim com a sua vovózinha, seu demônio feio e mal educado.
E bateu o telefone.
Na cara do Príncipe das Trevas!
Ora bolas, pensou, deixar o demônio falando sozinho não é para qualquer um e não é todo dia.
Já havia conversado com outros demônios, em outras ocasiões.
Demônios que não assumiam sua verdadeira identidade, mas eram, de fato, demônios.
No entanto, deixá-lo falando sozinho era a primeira vez.

Sentiu-se feliz e orgulhoso de sua ousadia.
Não, não queria ser um aliado.
Não queria mais alugar sua cabeça para diabo nenhum fazer de oficina.
Atirou o telefone no lixo.
Desligou a tevê.
Abriu a porta e saiu para o mundo.