04 outubro 2008

Nós, os surdos.

Assisti um filme bacana chamado Desventuras em Série.
Bem, eu achei bacana.
Talvez você não ache.

Dizem na internéte que é baseado numa série de livros chamada "A Series of Unfortunate Events" de um sujeito de nome Daniel Handler.
Aparentemente, o filme não atrai.
Parece uma história infantil (será que não é?) e o Jim Carrey faz um dos papéis principais. Nada contra o Jim Carrey, juro. No entanto, os filmes dele nunca me inspiraram uma linha sequer.
Enfim.
Nos primeiros cinco minutos, três crianças são avisadas (sem nenhuma cerimônia) de que a mansão de sua família pegou fogo e seus pais passaram desta para melhor. Sem eira nem beira, elas acabam encaminhadas para um tio malvadão e ganancioso (o Jim Carrey. Mas a maquiagem disfarça bem) que deseja matá-las para ficar com sua herança rechonchuda.
Pulando os detalhes e indo basicamente para o que interessa: as três passam o filme inteiro tentando avisar os adultos que as rodeiam de que aquele tio deseja matá-las. Porém ninguém (nenhuma autoridade, parente distante, figurante, contra-regra, ninguém) lhe dá ouvidos.
- Crianças têm uma imaginação, não?
O final é meio idiota e nem vem ao caso (vocês já devem imaginar) mas gostei muito da maneira como a coisa foi colocada.
Afinal, se tivessem escutado as crianças desde o começo, uma série de desventuras poderia ter sido evitada.
Simples assim.

Então fiquei pensando nisso.
Talvez se a gente escutasse mais o que as crianças têm a dizer, pudéssemos descobrir um jeito mais fácil de resolver nossos problemas e levar nossas vidas adiante.
Lembra quando você era criança?
E como era legal, e feliz, e divertido, e a tristeza não durava nada, e você não tinha traumas, e mágoas, e ressentimentos, e essas coisas bestas de adulto?
Não lembra?
Então porque não as escutamos?
Porque não lhes damos uma chance de nos relembrar como se faz para viver assim?
Por quê? Por quê? Por quê?

Nós já esquecemos; elas ainda não.
Enquanto as ignoramos, eram elas quem deveriam nos ignorar - sumariamente.
E deste jeito vamos disfarçando aquilo que consideramos inconveniente (mas que Delas não conseguimos esconder), dando uma risadinha amarela, fazendo uma cara de paisagem, resmungando um comentário boboca (“ai, ai, essas crianças...”) ou as três alternativas anteriores.

A verdade dói.
A simplicidade das soluções nos incomoda.
A opinião desinteressada e sincera (explicitamente sincera) acua.
Por isso as ignoramos.
Por isso as levamos no psicólogo quando elas nos contam que conversam com um amiguinho invisível.
Por isso as mandamos para o quarto quando precisamos desabafar com a melhor amiga.
Por isso tratamos suas opiniões com desdém.
Não escutamos as crianças, e por isso somos burros.
Escutamos a tevê, escutamos o chefe, escutamos música, escutamos psiquiatras, escutamos até estranhos.
Mas não escutamos as crianças.
Nem quando querem nos dizer uma bobagem, e menos ainda quando desejam nos contar uma verdade absoluta.
Sim porque elas conhecem a verdade absoluta.
E se nós fossemos um pouquinho mais espertos, pararíamos para ouvi-las de vez em quando e descobriríamos rapidamente a saída.
Que, aliás, deve ficar logo ali.