15 outubro 2008

Círio de Nazaré.

Ontem assisti ao programa Profissão Repórter.
Caco Barcellos e sua trupe se meteram (literalmente) na (imensa) procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, que acontece em Belém do Pará e este ano reuniu mais de 2 milhões de fiéis.
Para quem não sabe (eu não sabia) os romeiros percorreram cerca de 4 km, da Avenida Presidente Vargas até a Basílica de Nazaré, no centro da capital.
A chamada Corda do Círio (foto) é o lugar mais disputado, pois é ela quem puxa a Berlinda da Virgem e, apesar de seus 350 metros de comprimento, é insuficiente para a quantidade de mãos que buscam segurá-la.
É impressionante.
As pessoas se esmagam umas contra as outras.
Suas mãos sangram, seus pés são pisoteados, triturados.
Quando voluntários da procissão aparecem com água no meio da multidão, as bisnagas são disputadas com fervor e desespero.
Todos os fiéis foram com os pés descalços.
Fazia 38 graus.
Milhares desmaiaram, outros milhares passaram mal, alguns poucos desistiram.
Deu briga, confusão, tumulto.
Cerca de sete horas depois, com a chegada à Basílica, muitos romeiros tiraram de seus bolsos facas e canivetes, na tentativa de cortar um naco da corda e levarem consigo para casa uma prova do testemunho de sua fé:
- Isso é sagrado – gritava um, com um pequenino pedaço enrolado entre os dedos.
A cena chega a dar nos nervos: pessoas fora de si, se acotovelando, numa muvuca danada, todas portando nas mãos objetos cortantes.
Honestamente, não sei como ninguém perdeu um dedo ou ganhou um talho na bochecha.

Evidentemente que eu não estou aqui para criticar a fé de ninguém, muito, muito pelo contrário.
Todas as manifestações religiosas são válidas quando existem para um propósito maior – e do bem.
E mesmo que eu nunca participe de romarias, nem entre em igrejas nem cultue imagens, respeito muito quem o faz.
Mas confesso que assistir a matéria preparada por Caco Barcellos e o pessoal do Profissão Repórter me incomodou um pouco.

É que me deu pena.
Pena daquele povo (o nosso povo), suado, cansado, machucado, exaurido, se espremendo numa tentativa insana de demonstrar sua fé, de pagar suas promessas, de segurar na tal da corda sagrada e talvez conseguir agradar ao seu Deus.
Todos tão sofridos.
Todos buscando perdão pelas suas indigências; todos querendo devolver, com suor e sangue, a graça recebida dos altos.
Comove, sabe?

Sei que não parece, mas sou uma pessoa de muita fé.
Acredito em Deus e em muitas outras coisas, e me basto com a minha crença individual, isto é: pessoalmente não sinto necessidade de buscar em templos e teorias a confirmações para aquilo que me é verdade.
E na minha verdade, Deus e seus santos e anjos não gostam de ver seu povo incutindo a si próprio tanta dor e provação.
Porque a vida já é difícil, e o Todo-Poderoso sabe disso.
As pessoas não têm emprego, não tem saúde, não tem educação. Passam fome, passam necessidades, padecem com a violência, com o descaso, com a miséria.
E quando não é a pobreza material que assola tantas e tantas vidas, é a miséria espiritual que nos torna amargos, infelizes, ranzinzas, abandonados.
Sofremos o tempo inteiro porque somos humanos, imperfeitos, incompletos.
Buscando sempre alguma coisa que não sabemos ao certo o que é, sempre com aquela sensação de vazio que, por mais que se possua, nunca se completa.
Falo de mim, de você, da empregada da sua avó, do cobrador de ônibus, do empresário que anda num carro importado, da moça bonita que passeia pela rua.
Falo de todos nós.

Daí o motivo pelo qual senti tanta pena daquelas pessoas esmagadas, estropiadas, machucadas, caminhando quase sem forças para ratificar o significado e a força de sua fé.

Por isso tenho essa impressão, de que Deus e a própria Virgem de Nazaré não devem gostar de ver seu povo sacrificando-se ainda mais em seus nomes.
Acho que, lá de cima, eles devem olhar aqui para baixo e se penalizar:
- Não, meus filhos, vocês não precisam fazer nada disso. Não precisam me pagar, não precisam sofrer nem se violentar em meu nome. Sou pai, não sou padrasto. Não cobro nada para cuidar de vocês.

Porque a fé, assim como o amor, não pode fazer sofrer.
Não pode machucar, não pode violentar.
A fé é bonita, tranqüila, sossegada.
E para exercê-la, não é necessário buscar templos, imagens, procissões, cordas sagradas: ela está dentro de cada um de nós, e é no dia a dia que a exercemos.
Quando fazemos um sanduíche para uma criança que tem fome, ou quando tratamos com carinho o nosso semelhante.
Quando buscamos fazer o bem e não o mal, quando oramos, quando vigiamos nossas ações de modo a verificar se elas estão em acordo com aquilo que acreditamos.
É assim que pagamos nossas promessas.
Agindo pelo bem, todos os dias, e não somente pela dor, durante algumas horas.

Repito: longe de mim criticar a procissão do Círio de Nazaré.
É um ritual pela fé, para a fé, e por isso sempre terá o meu respeito e a minha consideração.
Mas não posso deixar de pensar que não é esfolando nossas mãos, nem ferindo nossos pés, nem imolando nossa saúde e o nosso bem estar que estaremos demonstrando nosso amor e nossa gratidão por Deus ou por qualquer outro santo.
Tomara que um dia nosso povo perceba isso.
Enxergue que sua fé age dentro, não fora.
E não sangra, nem dói; apenas reconforta.