02 outubro 2008

Ai, ai.

Como muitas outras pessoas que andam sobre esse mundo de meudeus, eu também escrevo.
Mas há tempos parei de escrever para mim e passei a escrever para os outros, ou seja: deixei de levar a coisa por hobbie e passei a encará-la com um mínimo de seriedade e profissionalismo.
Com 19, terminei meu primeiro livro com a certeza absoluta de que o enviaria para a Editora Globo, e eles ficariam impressionadíssimos com meu talento, e então eu seria contratada, publicada e lançada ao hall da fama.
Rárárá.
Nada disso aconteceu, obviamente.
Então baixei a bola e, devagar e sempre, fui aprendendo umas coisinhas aqui e outras ali, fui vendo por onde dava para seguir e de onde eu deveria desviar, fui percebendo que existiam milhares de centenas de outras editoras além da Globo e, assim, estou até hoje, garimpando meu lugar ao sol.

No entanto, desde que parei de me considerar a "nova revelação da literatura brasileira" e decidi que escrever seria minha profissão (trabalho sério e de preferência remunerado) muitas, muitas, muitas portas se abriram.
Consegui bons contatos, participei de dez antologias, terminei um livro que, sem nenhuma modéstia, considero o meu melhor, descobri novas editoras, enfim: saí do lugar, caminhei para a frente.
As portas começaram a dar seus primeiros rangidos para finalmente (quem sabe?) se abrirem para esta que vos escreve.

Lógico, estou muito longe de aparecer no Jô e algum diretor cult comprar meus originais para produzir um filme, mas não posso reclamar.
E é justamente por ser uma aspirante a escritora ainda muito longe dos holofotes, que eu me comporto como uma aspirante a escritora ainda muito longe dos holofotes.
Parece óbvio?
Pois não é.
E é justamente aqui que começa a história.
Até então, enchi uma lingüiça como forma de ilustração.

O ponto onde exatamente quero chegar é: porque se comportar como um escritor renomado, como um rockstar, como uma modelo internacional, se você não é nem uma coisa nem outra?
Evidente que o sujeito precisa acreditar no seu trabalho mas, antes de mais nada, ele precisa ter um trabalho no qual acreditar.
Uma porrada de potenciais cantores, modelos, escritores, atores e Cia. Ltda. sequer possuem uma única música, um único texto decente, uma única peça ensaiada, nada, absolutamente nada.
Mas já estão por aí, fazendo caras e bocas, se sentindo os reis da cocada preta e dando ataques constantes de estrelismo.
Cansa, sabe?

Eu nem deveria falar sobre isso aqui, e poupar o meu e o seu tempo destas divagações acerca de quem pensa que é Deus.
O problema é que, em tempos de internéte, todo mundo virou artista ou crítico de arte, e está ficando cada vez mais difícil ignorá-los e engoli-los.

Se a arte for sua forma de trabalho, é como um trabalho que deve ser encarada.
Com responsabilidade, coerência, compromisso, seriedade.
Primeiro se planta, só depois é que se colhe - essa é a lei.
Parece careta, mas é o único jeito de dar certo.
Se você apenas quer fazer pose, dar uma de artista blasé que só bebe e pouco produz, talvez seja hora de se inscrever no Big Brother Brasil.
Eles estão sempre atrás de novos talentos.