20 outubro 2008

What?

Começar a namorar com 12 anos é normal.
Com um cara sete anos mais velho? Normal.
Ter vontade de terminar com esse namoro três anos depois é normalíssimo.
Este namorado ser um psicopata obsessivo – acreditem – é normal.
Um psicopata obsessivo ter uma arma e muita munição ao alcance das mãos é súper-normal.
Este mesmo psicopata obsessivo invadir a casa da namorada transtornado de ciúmes, não deveria: mas também é normal.
Sim, senhoras e senhores, tudo isso é normal.
Completamente normal, muito mais do que gostaríamos, muito mais do que deveria ser.
E por isso mesmo, quando li na segunda-feira sobre o caso das duas mulheres, feitas reféns pelo namorado de uma delas, nem me importei.
Afinal isso vive acontecendo.
Até já virou estatística.

No entanto, o psicopata obsessivo era mais psicopata e mais obsessivo do que se imaginava.
As mulheres seqüestradas ainda nem eram mulheres, mas duas adolescentes, de quinze anos.
E o tal seqüestro, que em casos semelhantes dificilmente se estenderia mais que algumas horas, se alastrava por quase cinco dias.
Isso está cheirando mal, pensei.

O resto da história, já estamos carecas de saber.
Exatamente como carecas estamos de saber o quanto é normal nossa polícia se mostrar despreparada, desqualificada, mal paga e mal amada.
Mas admitam: vocês não acreditavam que pudesse ser tanto.
Eu mesmo, confesso, não acreditava.
Aliás, ainda não acredito.

Não acredito na seqüência de erros que cometeram, não acredito que devolveram a refém, não acredito que se negaram a explodir a cabeça do pulha só porque ele era um rapazinho "em crise amorosa", não acredito que permitiram que uma barbaridade dessas durasse cinco dias, não acredito que invadiram o cativeiro com balas de borracha e sem nenhum planejamento, não acredito no tempo que aquele policial demorou para subir a escada e entrar pela janela, não acredito que eles realmente acreditaram que, depois de tantas horas, tudo ainda pudesse acabar bem.
Não acredito, não posso acreditar.
Nenhuma técnica, nenhum plano B, nenhuma preparação, nada.
Apenas um bando de marmanjos fardados, mais apavorados que o próprio seqüestrador, tentando resolver no “deixa-disso” uma situação drástica que pedia uma resposta drástica – e imediata.

A opinião pública ia cair em cima dos policiais do mesmo jeito, se eles houvessem matado o seqüestrador?
Pode ser, mas eu duvido.
Talvez os chatonildos dos Direitos Humanos resmungassem um pouco, mas o cretino obsessivo nunca mais iria apontar armas para cabeças de adolescentes, e Eloá e Nayara estariam agora vivas e sorridentes atualizando os seus orkutes.
Mas não.
Ao invés de pensar nelas, pensaram nele.
Para evitar que o malandro sem antecedentes tomasse um tiro nas fuças, consentiram para que elas, então, tomassem em seu lugar.
Só que elas também eram estudantes e também não tinham antecedentes criminais.
Se Lindenberg nunca havia cometido nenhum crime, que se foda, agora ele está cometendo.
A polícia é paga para defender o cidadão, não o bandido.
Ou será que me enganei?

E o pior: estes policiais tiveram tempo e motivos de sobra para chegar a estas conclusões que, humildemente, vos apresento aqui.
Nayara contou tudo nas poucas horas em que ficou longe da mira de Lindenberg: ele já chegou atirando no computador de Eloá, agrediu os meninos que acompanhavam as garotas, bateu na ex namorada, deu tiros na direção de policiais e jornalistas, intitulou-se príncipe do gueto. Depois prosseguiu falando besteiras em cima de besteiras, ora mais calmo, ora mais eufórico, ora ouvindo um anjinho, ora um diabinho, ora parecendo um suicida, outra hora um homicida.
Isto por acaso são características de um pobre estudante em crise amorosa?
Também acho.

Coitados, e a culpa nem é da polícia – ao menos, não diretamente.
Eles estão lá, colocando a cara na linha de tiro, sem treinamento, sem armamento, sem qualificação, por meia dúzia de trocados no fim do mês.
Eles deram o máximo e não conseguiram o mínimo.
Falta competência e treinamento, mas também falta segurança, dignidade, salários decentes.
E policiais são profissionais que, ao lado de médicos, não podem se dar ao luxo de errar.
Nunca.
Mas, também ao lado dos médicos, policiais erram o tempo todo.
Mostram, todos os dias, o quanto estão perdidos, despreparados, vulneráveis.
Sua função é importante demais para ser tratada com tanto desdém.
E por este descaso grosseiro, um menino de três anos como João Roberto acaba recebendo os tiros que deveriam ser contra Lindenberg.

Desculpem se aqui me excedo.
Se não vigio minhas palavras nem o jeito como as apresento para vocês.
A verdade é que, neste momento, mais escrevo do que, propriamente, raciocino.
Mais vomito do que falo.
Mais vocifero que pondero.
Essas palavras estão aqui, entaladas, engasgadas, apenas precisam sair.
Precisam explodir.

Porque, definitivamente, nada disso é normal.
Não pode ser.