07 outubro 2008

Cansei da Clarah Averbuck.

Ela começou escrevendo em um blogue, e agora têm quatro livros publicados, um traduzido para o inglês, outro que custa 168 reais e um filme baseado na sua obra.
É claro que eu me interessei pela Clarah Averbuck.

Comprei um de seus livros (Máquina de Pimball), li seu blogue com certa freqüência, e até procurei algumas de suas entrevistas e textos perdidos pela rede.
E, três meses depois de nosso primeiro encontro, garanto, sem medo de me arrepender: minha relação com Clarah acabou.
Se esgotou, não dá mais, não tem volta.
Mas a culpa não é dela, não, não é.
Eu é que tenho a paciência atrofiada, e existem coisas que simplesmente não agüento mais.
Coisas que me irritam, me cansam, me incomodam. Demasiadamente.
Alguns chamam isso de velhice precoce.

O fulminante fim aconteceu dia cinco de outubro.
Aliás, que diazinho do inferno!
Cheguei em casa exausta e abatida no domingo de noite (por motivo já relatado aqui) e abri meus e-mails. Não deveria. Sempre me decepciono na internéte, e sei disso. Mas resolvi arriscar mesmo assim.
Havia recebido o especial do zine CardosOnline, em comemoração aos dez anos de sua primeira edição.
Para quem não sabe, foi este zine que lançou autores como o Galera, o Pellizzari e todos estes que, atualmente, bombam por aí.
Inclusive a Clarah Averbuck.
Passei os olhos pelos textos, até encontrar o dela.
Nele, ela conta que foi assistir a um show do Ben Harper não sei aonde, e (coincidentemente) havia em sua bolsa um exemplar de seu livro traduzido para o inglês, e (despretensiosamente) ela resolveu deixá-lo no camarim, de presente para Harper. No dia seguinte, Harper mandou um de seus capangas telefonar para ela, e marcar um jantar, no qual ele a elogiou muito e a comparou com o Bukowski.
Ai, ai.
Copio e colo, logo abaixo, a gota d’água:

eu estava transbordando em contentamento. perceba, eu vivo em um
lugar onde NINGUÉM ENTENDE NADA. possivelmente você, leitor, não entende. onde todo mundo julga TUDO ERRADO. onde todo mundo faz tudo pelos motivos errados. parei de sair de casa e fico aqui no quentinho
onde tudo é claro só com meu esposo e meus amigos porque não suporto
mais. normalmente, quando chegam a mim, é para dizer VOCÊ NÃO PODE PENSAR ISSO e mais alguns impropérios infundados que mofam dentro
das cabeças pobres das pobres pessoas que não sabem conviver com nada
diferente delas sem apontar um dedo e gritar qualquer merda.
é inútil dizer tudo isso. pensei antes de contar essa história porque não queria nenhuma mácula de nenhum idiota achando que era algum
deslumbre. eu não trabalho com deslumbre. mas isso também ninguém entende, porque NINGUÉM ENTENDE NADA. e a melhor das coisas é encontrar alguém que entenda onde você menos espera. e eu encontrei o ben harper, que virou meu amigo não porque ele é FAMOSO, mas porque
ele ENTENDE. foi absolutamente do caralho. porque ele entende. porque
ele faz e sente. porque é outro nível de conversa quando a pessoa vem
de um lugar onde não importa se você tem um BLOG ou doze tatuagens ou
seja um bêbado ou uma garota ou um anão. BEYOND SURFACE, my friend. o
mundo é um lugar horrível porque isso é raro. saber que existe gente
assim faz dele um lugar um pouco menos pior e dá uma leveza no peito.
estava acostumada apenas a sentir essa leveza com gente morta. agora,
como ben disse, faz algum bem saber que podemos sofrer juntos, ainda
que não estando no mesmo lugar. o sofrimento vira uma outra coisa e
tudo passa a fazer sentido.


Tá! Tá! Tá!
Sempre esse mesmo papo.
Que saco.
A mulher só sabe dizer que ninguém entende nada, e que todo mundo é idiota, e que “por favor” a deixem em paz, e não sei mais o que.
Óquei, tudo bem, respeitemos a Lady Averbuck.
Mas já que é essa sua vontade, porque, afinaldecontas, ela expõe tanto a sua vida pessoal?
Convenhamos que, se eu escrever aqui sobre o trago que fiz ontem à noite, e sobre como estou completamente apaixonada por um cara que só quer me comer, vocês irão opinar sobre isso, certo?
Então, como não quero que dêem palpites na minha vida, abstenho-me de me exibir gratuitamente, desnecessariamente.
Mas Averbuck não.
Muito pelo contrário.
Quem já leu seus blogues e seus livros sabe do que estou falando.
Ela faz questão de falar sobre sua vida pessoal, e seus namorados, e suas festas, e suas bebedeiras, e suas intimidades.
Foi inclusive este o ponto em particular que chamou a atenção para seu blogue, em meados de 2001.
E, tudo bem, não há nada de errado nisso.
Agora, não encha meu saco nem me faça perder tempo ouvindo a mesma ladainha sempre:
No dia de estréia do filme baseado em sua obra, ela se levantou no meio da sessão para tomar uma dose de conhaque no bar.
Nos seus textos, ela só sabe dizer que seus leitores (aqueles que pagaram seu conhaque) são burros e idiotas.
E agora ainda me vem com esse papo sobre o Ben Harper? “Não é porque ele é famoso, é porque ele entende”?
Sei.
A mim ela não engana mais.
E se quer saber: eu não entendo mesmo, Clarah.
Talvez se você explicasse, pudesse ficar mais fácil.

Sempre pensei que os escritores deveriam respeitar os seus leitores.
Dar-lhes atenção, compreender que é por causa deles que se está podendo escrever, que se está tendo reconhecimento.
Lógico, existem pessoas sem noção por aí. Invasivas, petulantes, mal amadas. E estas, sem dúvidas, atormentam de verdade a vida de qualquer cidadão que esteja em evidencia.
Mas não são todos assim.
Nunca são todos.

No entanto Averbuck, como uma legítima adolescente rebelde e sem causa, joga todos os seus leitores no mesmo saco, e chuta, chuta, chuta.
Cansei de levar chutes da Averbuck.
Cansei.
Se ela não quer palpites em sua vida, não exponha sua vida.
Se ela não quer que ninguém leia o que escreve, não lance mais livros nem venda originais para o cinema.
Se acha todos os seus leitores retardados, pare de escrever.
Simples assim.

Mas não.
Ela continua.

E como sou adepta da velha e sábia filosofia “os incomodados que se retirem”, é o que faço agora, humildemente.
Realizo seu desejo, Miss Averbuck:
Saio de cena, não a leio mais.
Não a procuro mais.
Não quero mais nem saber.
Adiós Lounge!