06 outubro 2008

C de Calhorda e Cara de Pau

Sabem como foi o dia 5 de outubro de 2008 para mim?
Engraçado, e terrivelmente trágico.
Como isso é possível?
Explicarei.

Trabalhar nas eleições foi bacana.
Ganhei um adesivo escrito PRESIDENTE para colar na blusa (rárárá), a urna eletrônica funcionou magistralmente, meus colegas de sessão (ao contrário de dois anos atrás) eram agradáveis e tudo correu conforme os conformes.
A tragédia começou às 17 horas.
Milhares de fiscais de partido e curiosos em geral invadiram a sessão, e começaram a me fazer mil perguntas, me pedir mil documentos, todos falando ao mesmo tempo, massacrando minha paciência sem dó nem piedade. E eu ali, sem entender nada.
De repente, não mais que de repente, todos foram embora.
To-dos.
Só sobrou eu, a urna, e um rapazinho que, sinceramente, não sei o que fazia ali: acho que sua função era orientar os mesários, mas o guri não sabia nem falar. Eu precisava de ajuda para retirar o disquete da urna e ele mudo, me olhando, com cara de boboca que tomou um susto.
Gritei com ele, e quis matá-lo.
Mas isso era só o começo.
Quando imprimi o Boletim de Urna (aquele documento onde saem quantos votos cada candidato recebeu) vi que a tragédia iminente começava a se tornar real: o único candidato que não poderia ganhar de jeito nenhum estava disparado na frente dos outros dois.
Corri para ver os boletins de urna das outras sessões e estava lá, terrivelmente óbvio: ele estava na frente (consideravelmente na frente) e caminhava para a vitória a passos largos.
Aqui, permitam-me abrir um parênteses e explicar.
Na minha cidade havia três candidatos. Vamos chamá-los de A, B e C (isso é ridículo, mas não vou dar nome aos bois). O Candidato A e B são candidatos normais, sem rabos presos, antecedentes comprometedores ou referências péssimas.
Porém o candidato C possui um currículo mais sujo que saco de mendigo.
Quando foi prefeito da cidade, há alguns anos atrás, praticamente faliu com a máquina pública, ficou meses sem pagar o funcionalismo, foi incriminado por Impropriedade Administrativa (que, em outras palavras, significa desleixo com o patrimônio público) e etecetara, etecetara e etecetara. Isso para não falar de seu vice, que até preso já foi e possui uma carteira de identidade falsa.
Não vou entrar em mais detalhes aqui.
Não precisa.
Tudo que citei é fato, é verdade, não sou eu quem está dizendo.
Pessoalmente, não tenho nada contra o tal candidato C.
Ele apenas não presta nem para ser síndico de prédio.

E agora, passados alguns anos de seu tempestuoso mandato, quem ressurge das cinzas, cheio de sorrisos e promessas estapafúrdias?
Sim, ele, o inquebrável (como todo vaso ruim) candidato C.
Que – tamanha é sua cara de pau – foi para a televisão dizer que passado é passado, que suas mãos são limpas e “o que passou, passou, tristeza nunca mais”.
E prometendo um asfaltozinho aqui, uma cesta básica ali, quinze pilas acolá, o homem (mais uma vez) foi pras cabeças.

Óquei.
Como em toda história que envolve política, políticos e politiqueiros, o furo é bem mais embaixo, e vocês sabem.
Mas concentremo-nos no fato de que C é o novo prefeito daqui.
Pelos próximos quatro anos.
Pior que isso, só dois disso.

Continuando minha saga: 5 e 15 da tarde de domingo, eleições. Eu odiando aquela situação, e aquele guri xarope me olhando com cara de guri xarope, sem me ajudar em nada. E para agravar o que já estava pra lá de ruim, aqueles malditos boletins de urna, sentenciando que o pior estava para acontecer.
Perdi as estribeiras, literalmente.
Quem me viu no Fórum, ontem, por volta das 5 e meia, sabe do que estou falando.

Enfim.
Perdemos, e eu chorei.
Não por mim nem por essa cidade – agora jogada a Deus-dará.
Chorei porque, mais uma vez, as pessoas se mostraram estúpidas e estúpidas e estúpidas e estúpidas e mil vezes estúpidas.
Chorei porque foi injusto - e injustiça é uma das piores coisas que existem para se engolir.
Chorei porque não posso, agora mesmo, comprar uma casinha simpática no interior, cercá-la com um muro de 20 metros de altura e nunca mais presenciar os despautérios que sou (somos?) obrigada a presenciar.
Ó, senhor: me tire daqui.


Em tempo 1:
Da série só-podia-ter-acontecido-comigo-mesmo:
Tentem adivinhar em qual sessão o candidato C votou?
Sim, é claro que sim.
Na minha.
E eu tive que apertar a mão do pulha enquanto uma repórter imbecil tirava fotos.
Apertei sua mão, e foi nojento.
Mas a minha cara de desprezo para a posteridade valeu o sacrifício.

Em tempo 2:Aqui, entre os 44.393 eleitores, 6.308 NÃO COMPARECERAM. Destes 38.085 que FORAM VOTAR, 906 VOTARAM EM BRANCO e 1.193 ANULARAM SEU VOTO.
Salve, salve.