29 setembro 2008

Vocês conhecem a história da Cigarra e da Formiga?

Com certeza sim, mas, de qualquer jeito, vou relembrar aqui: durante o verão, enquanto as formigas trabalhavam sem parar, a cigarra só queria saber de cantar.
Quando o inverno chegou, a cigarra começou a sentir fome e frio – afinal não havia se preparado, como fizeram suas previdentes vizinhas formigas.
Faminta e tremelique, bateu na porta do formigueiro (se é que formigueiros possuem portas) para pedir abrigo e um pouco de comida, prometendo lhes ressarcir quando o verão voltasse.
A formiga, rancorosa e egoísta, perguntou:
- O que você fazia no calor de outrora?
Ao que a cigarra respondeu:
- Noite e dia, eu cantava no meu posto.
E a chatonilda da formiga retrucou:
- Você cantava? Que beleza! Pois, então, dance agora!

Rapaz!
Odeio essa fábula.
Sempre achei a tal formiga uma caninana mesquinha e metida a besta.
Sou muito mais da cigarra - talentosa, alforriada, artista e sensível. Tô com ela e não abro.
Pensem comigo: enquanto as obsessivas e materialistas formiguinhas trabalhavam exaustivamente, como verdadeiras escravas, seguindo cegamente as ordens da rainha tirana e má, o que fazia a cigarra?
Cantava.
Ou seja: tornava o ambiente cansativo e monótono das formiguinhas mais alegre, descontraído e feliz.
Posso até dizer que a cigarra ajudou substancialmente no trabalho das formigas, tornando-o mais leve e animado.
Mas as individualistas das formigas, as caretas e previsíveis formigas, as pouco caridosas formigas fizeram o que, quando a cigarra veio pedir amparo?
Nada!
Não lhe deram nem um cházinho quente.
Rancorosas!
Bobocas!
Metidas!
E ainda por cima tem a maldita da Moral da História (odeio Moral da História, sempre odiei): Os que não pensam no dia de amanhã, pagam sempre um alto preço por sua imprevidência.
Imprevidência?
AH!
Vão empilhar coco em descida, seus xaropões.
Prá mim, a verdadeira Moral da História que quiseram, sordidamente, implantar na cabeça das criancinhas inocentes que escutavam esta fábula besta é: cantar é coisa prá vagabundo. Vocês TEM QUE ter um emprego sólido e trabalhar muito para guardar COISAS para amanhã. Mesmo que essas coisas sejam inúteis e que vocês percam o verão enfurnados numa sala, com uma gravata impedindo a sua respiração e um chefe escravocrata a lhe dar ordens.

Definitivamente: nunca gostei dessa fábula.
Tô com a cigarra e não abro!
E se ela quiser continuar cantando no verão, pode vir bater na minha porta quando o inverno chegar.
Ao contrário das formiguinhas chatas e bestas, eu lhe darei casa, comida e roupa lavada.
Até porque, na minha Fábula da Cigarra e da Formiga, a formiguinha trabalha o verão inteiro e, quando o inverno se aproxima, um humano sacana despeja formicida no formigueiro, e todas elas morrem sem ter tido a chance de aproveitar os frutos do seu trabalho narcotizante.
Bem feito!
A bem da verdade, elas só trabalham porque não sabem cantar.