01 setembro 2008

Prezado Sr. Deus:

Primeiramente, peço desculpas por não saber o seu nome verdadeiro. Aqui na terra inventam um diferente a cada semana, e eu acabo me confundindo. Mas, sinceramente, acho que você não vai se preocupar com isso. Afinal, essa coisa de nome-sobrenome é mundana demais para encafifar sua cabecinha Toda-Poderosa.

Te escrevo, a bem da verdade, para trocar uma idéia.
Para me desculpar por algumas besteirinhas que andei fazendo e, também, para pedir ao Senhor que olhe um pouco mais para baixo – aqui, para o andar térreo.
Imagino que você tenha muitas coisas para fazer – pois cuidar de todo o universo deve ser um trabalho bem cansativo e, por vezes, pouco gratificante – mas quem mandou se meter a Criador?
Agora não tem outro jeito a não ser agüentar o tranco.

Bem, mas como eu ia dizendo, a coisa aqui embaixo tá preta, Senhor Deus.
As pessoas estão loucas, os preços estão altos, a natureza está furiosa, tem gente passando frio e fome e em vários lugares os homens continuam se matando em guerras idiotas, que defendem os interesses de meia dúzia de velhos fumadores de charutos e só. Quem tem, acaba tendo cada vez mais e quem não tem, continua tendo cada vez menos.
Precisamos nos preocupar com tantas amenidades que não nos sobra tempo para raciocinar sobre o que realmente importa – na verdade, sequer sabemos o que realmente importa.
E eu te pergunto: como poderemos nos tornar mais sábios e menos mesquinhos se nossa vida se resume a trabalhar de dia para comer de noite? Se andamos amassados dentro de lotações, se o relógio não nos dá sossego, se somos assaltados o tempo todo, se tomamos um tiro na cara por causa de um relógio de pulso?
Não é fácil, Deus.
Quero dizer, Senhor Deus.

Me perdoe a petulância, mas seus anjos de luz não precisam pagar aluguel todo mês; ou precisam?
Pois então.
Na minha insignificante concepção, penso que é muito mais fácil ser santo quando temos tempo para exercitar nossa santidade. Quando não estamos presos no trânsito, ou na fila do banco, ou num trabalho escravizante e chato que nos tira muitas horas de nossas vidas – tão curtas; quando não precisamos pagar contas, e impostos, e taxas, e pedágios, e seguros de saúde; quando não precisamos nos preocupar em sorrir, quando nossa vontade é dizer: pow, me deixem!

Posso estar errada, sei que posso.
Afinal, sou apenas uma micro-criaturinha em toda a imensidão de vida que o Senhor criou, e estou longe de conseguir entender todas as suas entrelinhas e artimanhas.
Também porque acredito, de verdade, que o Senhor deva saber o que está fazendo: que é pai, e não padrasto; que olha para nós, que nos ama e quer nos ver feliz. Que existe, por trás de todo este caos, um sentido que explique o que, para nós, no momento, é inexplicável.

Por todos estes motivos – e muitos outros que, agora, me fogem à memória - gostaria de lhe propor um trato, Senhor Deus:
Você cuida de mim, e eu cuido de ti.
Assim, bem simples, sem cláusulas contratuais nem advogados.

E eu prometo que, no meio de toda essa bagunça e algazarra, vou ser o melhor que puder ser. É claro, nem sempre vou conseguir com cem por cento de êxito mas, te asseguro: farei o meu melhor.
E você, por sua vez, me dê uma força, né?
Me oriente a tomar decisões acertadas, colabore para que não cruze por meu caminho mais nenhuma criatura escrota; que eu tenha a chance, sempre, de aprender pelo bem. Que eu possa crescer e evoluir sem ter que me machucar demais. Que a doença não acabe com a minha saúde, e que exista um negócio chamado esperança que não largue do meu pé nunca mais.
Que além de conhecimento, eu possa ter sabedoria.
Que mais do que sobreviver, eu consiga existir.

O que você acha?
Parece-te bom?

Pense com carinho na minha proposta Senhor Deus, porque acho que nós dois sairemos ganhando.

Um beijo estalado em suas bochechinhas celestiais.

Janaína