30 setembro 2008

Por favor; não!

Eleições chegando, candidatos (que até então você nunca tinha visto mais gordos) andando pelas ruas e beijando criancinhas, propagandas políticas na tevê, nas rádios, nos alto-falantes, nos muros e nos panfletos.
É sempre assim: a cada dois anos, aspirantes a cargos públicos de todas as cores, formas e tamanhos invadem nossas casas e nossas vidas nos enchendo de promessas, santinhos e, em alguns casos mais desprezíveis, dinheiro e cestas básicas.
Bem vindo.
Essas são as Eleições Brasileiras.

Lógico, eu também não gosto.
Também me irrito com as promessas absurdas, também fico indignada com a cara de pau de alguns candidatos, também sinto ânsia, nojo, desprezo.
Também me canso.
Mas vocês haverão de concordar comigo: a coisa já foi bem pior.

Vejam os americanos: todos metidos a primeiro-mundo e com aquela insuportável superioridade patriótica, não são capazes de organizar um simples pleito. Ainda contam cédulas e sua democracia – vamos e convenhamos – é bastante duvidosa.
Em Cuba, Fidel Castro ocupou o cargo de presidente por mais de 40 anos, e só agora passou seus poderes para seu irmão – que provavelmente ficará por ali, até cair doente e então estender seu poder para outro membro da família Castro.
Até a China, milenar, culturalmente rica e muitas outras referências primordiais, está lá, obedecendo cegamente as ordens de um tal de Mao Tsé Tung.

O próprio Brasil, há pouco mais de vinte anos atrás, vivia neste regime sórdido e brochante chamado Ditadura, e fumar um simples cigarro com um amigo num bar poderia render uma sessão de tortura daquelas.
Ninguém podia expressar sua opinião, ninguém podia fugir às regras – e o estado abalizava a violência contra seus próprios cidadãos.

É claro.
Se você tem vinte e poucos anos, nem sabe o que isso significa.
Eu mesma, no alto dos meus vinte três, sei da Ditadura somente o que os livros, os filmes e os mais velhos me contam.
E talvez por não termos sofrido na pele as conseqüências de um estado déspota e intolerante, sequer possamos mensurar o tamanho da liberdade que, gentilmente, abriu as asas sobre nós em meados de 87.

Ainda não atingimos a perfeição?
Não, não mesmo.
Estamos bem longe disso.
Mas você precisa admitir que evoluímos pra caramba, muito mais do que alguns países que costumamos invejar.
Hoje, podemos escrever o que quisermos, e falar o que nos vier à cabeça, e produzir arte, e chamar os policiais de porcos sem que nada – absolutamente NADA – nos aconteça.

Mas não aconteceu assim, da noite para o dia.
Enquanto repousávamos tranqüilos em nossos berçinhos (ou, em alguns casos, ainda no saco de nosso pai), uma porrada de gente protestava, ia para as ruas, era torturada, estuprada, violada, extraditada, literalmente expulsa de seu país. Enquanto nós sequer imaginávamos o que se passava além das janelas de nossos quartos confortáveis e quentinhos, as coisas lá fora pegavam fogo.
Quando crescemos e saímos para o mundo, já estava tudo organizado.
Mais ou menos como chegar a uma festa em seu auge (a música já está tocando, a cerveja já está gelada e a banda já está no palco). Não podemos nem imaginar o trabalho imenso que deu para colocar (nem que porcamente) tudo em seu devido lugar.
E deve ser por isso, por esta nossa ignorância típica de quem pegou o bonde andando, que escutamos tantas asneiras de eleitores quando o assunto é política.

Assim, compreendendo nossa estupidez, admitindo que não somos os donos da verdade e independente das nossas concepções políticas particulares eu peço, encarecidamente: não votem em branco nem anulem o seu voto.
Não cometam este disparate contra a democracia.
Lembrem do tempo em que tudo que o cidadão mais queria na vida era poder escolher, e não podia.
A gente pode, sempre pôde.
Se os candidatos que estão concorrendo pela sua cidade não lhe agradam, escolha o que te desagrade menos.
Procure saber se o que eles estão prometendo é plausível, futrique em suas fichas e vidas pessoais, trate de descobrir de onde eles vieram, o que pretendem, para onde vão.
Não vale olhar para as fuças do candidato e simplesmente dizer: não fui com a sua cara.
Não vale falar mal de quem vende o seu voto, se nem ao menos votar você vai.
E, peloamordedeus: parem com esse discurso chato, gasto, de adolescente rebelde e retardado de que votar em branco ou nulo é uma forma de protestar.
Não é.
É apenas um jeito (imbecil e covarde) de tirar o seu corpo fora, de passar a batata quente para as mãos dos outros, de assoviar para disfarçar.
E depois, quando as coisas estiverem de mal a pior, não vá querer você, logo você, que abriu mão do direito universal de todo cidadão, querer palpitar e falar mal.

O pior é que as pessoas que tenho escutado dizer que irão anular seu voto não são ignorantes, não moram na vila diabo, não passaram fome, não sofreram abusos durante a infância, não cursaram somente até a terceira série.
Pelo contrário: é gente que fez faculdade, que lê, que tem acesso a informação e cultura.
Gente que, no mínimo, deveria ter noção do que vai acabar fazendo contra seu país, sua cidade e suas próprias vidas quando atira seu voto na fogueira.

Eu posso entender o sujeito que nem água encanada tem em casa vender seu voto por quinze pila.
Juro, posso entender.
Mas entender pessoas como alguns amigos meus, inteligentes e esclarecidos, que me dizem com a boca cheia e o peito inflado que vão jogar seu voto no lixo, me arrepia até os pêlos do nariz.

E para encerrar, de forma até piegas e apelativa, descrevo aqui uma frase de um cara muito maneiro chamado Martin Luther King que, tenho certeza, deve se revirar no túmulo toda vez que algum cidadão fala em cuspir na democracia:

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa, é o silêncio dos bons”.