13 setembro 2008

Multidão.

Dentro de mim existem muitas ruas.
Ruas que levam para muitos lugares.
O mapa que eu trago no bolso é incompleto e confuso, e ninguém me passa as coordenadas.
Tenho que ir, mas sinceramente não sei se quero.
Está tão confortável e silencioso aqui, na segurança da minha estupidez.
Não, eu preciso ir.
Essa voz dando ordens dentro da minha cabeça, não cala a boca nunca!
As pedras rolam, a caravana passa, os bêbados continuam bêbados e o planeta gira em torno do seu próprio umbigo.
É preciso seguir.

Dentro de mim existem muitas ruas.
Ruas de chão batido e ruas asfaltadas.
Ruas elegantes e ruas sujas.
Ruas santas e ruas profanas.
Ruas com parques e ruas com presídios.
Ruas onde impera uma mata fechada e densa, e ruas onde não há nada, além de deserto e vento.

Essas ruas levam para muitos lugares.
O mapa que eu trago no bolso é incompleto e confuso, mas traz as informações que preciso saber.
Está ali, escrito.
Basta ler.
Mas não sei se quero, me sinto vazia e confortável aqui.
Não, eu preciso ir, e é só disso que tenho certeza.
Vejo um poste com a luz apagada, e sento ali, à toa, enquanto um cachorrinho simpático e sarnento faz seu xixi sossegado.
Coloco a mão no bolso, retiro o mapa.
Ele está dobrado ao meio; eu estou dobrada ao meio.
Olho para o cachorrinho e ele me observa com piedade.
Pobres humanos, deve pensar.
Sinto vontade de ser um cachorrinho, ter um poste onde possa mijar, e sentir pena de criaturas como eu e você.
Tenho vontade de não saber ler.
Tenho vontade de ficar.
Mas preciso ir.

Dentro de mim existem muitas ruas.
E no mapa só está escrito MULTIDÃO.