09 setembro 2008

Gentileza e Hipocrisia passeiam pelo parque de mãos dadas.

E digo mais: a humanidade precisa mais de gentileza-hipócrita (assim, com hífen e tudo) do que de sinceridade.
Começa que o conceito de sinceridade é muito variável, e um número significativo de pessoas acaba acreditando que está sendo sincera quando, na verdade, está sendo inconveniente.
Afinal podemos conviver com algumas mentiras, algumas fofocas, algumas convenções sociais.
Mas sem a gentileza-hipócrita a vida se torna insustentável.
*
A gentileza-hipócrita é o alicerce da civilização.
Sem ela, não teríamos formado uma sociedade (mais ou menos) organizada, e provavelmente ainda hoje habitaríamos cavernas e comeríamos costelas de pterodátilos no jantar.
*
Exemplifico: esta semana, recebi do presidente da câmara de vereadores da minha cidade uma proposição de autoria de um determinado vereador (candidato a reeleição) cumprimentando-me por estar conquistando meu “espaço no mercado editorial” e me desejando sucesso e “distinta consideração”.
Isso foi sincero?
Não, não foi.
Provavelmente eles nunca leram nada do que eu escrevi.
Mas, e daí?
É simpático, é gentil, é agradável.
Pior seria receber “Prezada Eleitora: ciente da proximidade das eleições municipais, gostaria de lhe pedir encarecidamente que deposite seu voto de confiança em mim. Prometo não aparecer mais depois da vitória, que me garantirá um salário decente pelos próximos quatro anos. Minha família agradece. Até o dia 5 de outubro. Cordialmente”.
Não, obrigada.
*
O quê?
Vocês não concordam comigo?
Acreditam realmente que a hipocrisia, mesmo acompanhada da gentileza, é um mal que deveria ser completamente abolido de nossas vidas?
Pois então paguem para ver.
O mundo se tornaria um lugar intolerável, e sem dúvidas passaríamos nossos dias azedos, destilando veneno para todos os lados.
Talvez voltássemos a grunhir.
Retornaríamos a um estado selvagem.
*
Como é?
Vocês acreditam em sinceridade-gentil?
Ora, eu também acredito.
Mas sei que as pessoas (e isso incluiu eu e você) caminham devagar, muitas vezes dando dois passos para frente e três para trás.
*
Imaginem a seguinte cena:
Estou eu em um supermercado, e lá encontro um de meus desafetos. Com toda a sinceridade que existe nas minhas entranhas, me aproximo e lhe dou uma porrada no meio da cara. Agora imaginem todas as pessoas vomitando para fora sua sinceridade, dizendo e fazendo umas para as outras aquilo que – realmente - tem vontade de dizer e fazer. Só eu mataria uns três ou quatro ainda no primeiro dia. Se é que eu duraria mais de um dia. Sim porque, já dizia minha sábia vovozinha: quem fala o que quer, ouve o que não quer.
*
Enfim, não daria certo.
A sinceridade deve ser consumida com moderação; pois quando mal empregada, pode se tornar razão para mágoas desnecessárias e desavenças sem propósito.
*
E é aqui que entra em cena a hipocrisia.
Claro, ela sempre entra em cena, mais cedo ou mais tarde (admitam).
E é ela quem me faz passar ao lado do meu desafeto no supermercado e até lhe cumprimentar com a cabeça:
- Oi.
- Oi.
Sem ela, estaríamos ferrados.
*
Nos falta ainda muita estrada até aprendermos (com nossos miseráveis e catatônicos oito por cento de aproveitamento cerebral) a encontrar a medida exata e saudável de nossa sinceridade; àquela desprovida de interesses e gostos pessoais, livre de segundas intenções.
A sinceridade que faz a diferença, e não serve somente para magoar.
*
Mas por hora, não abro mão da velha e agradável hipocrisia de sempre.
Ela é necessária.
E conserva os dentes.