23 setembro 2008

Fui convocada para trabalhar nessas eleições.

Numa função de nome metido: Presidente de Mesa.
Com iniciais em maiúsculo e tudo.
Dizem que é a segunda autoridade depois do juiz eleitoral.
Sei não.
Isso me parece papo de quem quer impressionar.
Bem, pouco importa.
O fato nu e cru é que fui convocada.
Con-vocada.
Ou seja, não existe uma opção B.
Convocado não é um convite, que você pode negar alegando que já tem compromisso:
- Não, obrigada.
É quase como ir para a guerra.

Há dois anos atrás, também fui convocada.
Só que era para ser mesária, e minha única preocupação era coletar as assinaturas dos eleitores.
Mas presidente de mesa, essa não; é trabalho pesado.
Precisa verificar as credenciais dos fiscais, emitir uma tal de zerésima, digitar números, processar requerimentos. É o presidente o responsável por entregar para a Justiça Eleitoral uma porrada de documentos importantes, e digitar códigos imensos, e cuidar para que a urna eletrônica não entre em pane, e muitas outras funções mirabolantes que exigem concentração e responsabilidade.
Agora imaginem eu, fazendo tudo isso.
Não vai dar certo.
Óbvio que não.
E ainda por cima vai ser chato e cansativo pra burro.

Bolei um plano infalível: não iria de jeito nenhum.
Minha idéia era, basicamente, adoecer justamente no final de semana do dia 5, e já havia até arrumado um atestado médico fajuto para livrar a minha cara do trabalho duro.
Óquei, eu sei que isso não é algo para se orgulhar.
No entanto foi a única idéia que me ocorreu.
Costume, entendem?

Assim, dia 16 de setembro, novamente acabei convocada para uma reunião, onde nos seriam passadas as instruções básicas para o dia eleição.
Fui, evidentemente, para não dar bandeira.
Até porque, pensava eu, meu plano já estava elaborado e minha saída era estratégica e perfeita.

Fui lá, assisti a videozinhos falando sobre a importância dos mesários, e presidentes de mesa, e secretários, e todos que colaboram para o exercício da cidadania, e mais aquelas coisas que a Lavínia Vlasak fala nas propagandas da justiça eleitoral.
Quase morri de sono.
Mas eu tinha meu plano e era a ele que me apegava.

Só que depois, quando cheguei em casa, fiz aquilo que jamais deveria ter aprendido a fazer um dia: pensei.
E ali fiquei, matutando, ponderando, meditando, repensando, até que, num surto de boa vontade e espírito patriota decidi: vou trabalhar.
Oras, não me custa nada ser útil; e ainda por cima vai ser bom para espantar o diabo que, ultimamente, resolveu fazer da minha cabeça vazia sua oficina particular.

Amadurecer dá nisso: nossa mãe pára de nos fazer cobranças, mas a nossa consciência não perdoa.
Aquele velho discurso rebelde-sem-causa já se esgotou e, sinceramente, nessas alturas do campeonato é até meio ridículo.
Porque, analisando bem, não tem problema nenhum em trabalhar nas eleições. É até interessante, afinal, para que tudo funcione, alguém precisa colocar a mão na massa.
É ou não é?
E já que eu não preciso cuidar de filhos, nem trabalhar oito horas por dia, nem bater cartão; já que tenho a sorte e o privilégio de trabalhar exatamente com o que gosto, e nos horários que determino; já que a vida tem sido tão bacana e tão maneira comigo, porque não dar uma força?
É bem verdade que terei de madrugar em pleno domingo, e não poderei tomar um trago no sábado nem usufruir de nosso religioso churrasquinho dominical mas, e daí? É só um domingo, entre centenas de milhares de domingos que ainda virão, e no final das contas vai acabar sendo até divertido.

Sim, eles me convenceram.
Dia 5 estarei na seção 67 no colégio Sorg.
Digitando códigos e salvando a democracia.
No mínimo, vai ser engraçado.