18 setembro 2008

- Brigada Militar, emergência.

- Ô, boa noite, quem fala?
- Quem ta falando?
- Oi, meu amigo, seguinte, ó: esse bar aí do lado do Natus, sabe, o Natus da Avenida Brasil? Seguinte, eu vou ser bem sincero pra ti, ta? Eu roubei um carro ali, ta, agora. E eu peguei o carro e tinha uma criança dentro, cara, e eu não vi, entendeu, não vi. Então o que que eu fiz? Eu peguei o carro e botei o carro atrás do (colégio) Fagundes, ta? Então tu manda uma viatura lá e manda o filho-da-puta do pai dele pegar ele e levar pra casa; é um piázinho, ta.
- Ta, ok.
- Ta, valeu.


Sim.
É exatamente o que você está pensando.
Um ladrão roubou um Monza que estava estacionado na frente de um bar, às duas horas da manhã. Andou quinhentos metros e reparou que havia uma criança, de mais ou menos cinco anos, dormindo no banco de trás do veículo. Estacionou, procurou um orelhão, ligou para a polícia e ainda deu um tremendo puxão de orelhas nos pais, que esqueceram o filhote no carro enquanto, muito provavelmente, enchiam a cara de pinga.
Aconteceu ontem, aqui em Passo Fundo, a terra que inspirou a série Além da Imaginação.

Pra finalizar, nosso adorável larápio ainda advertiu: se dá próxima vez que roubasse esse Monza ele encontrasse a criança no banco de trás, procuraria seus pais e, pessoalmente, os mataria.
A identidade do ladrão que ganhou repercussão nacional ainda não foi descoberta, e provavelmente nunca será. A própria delegada de Passo Fundo, Cláudia Crusius, já avisou: “Se eu descobrir quem é, não vou pedir prisão. Assim como ele agiu de bom senso com a criança, eu também vou agir de bom senso com ele”.
Os pais – é claro – disseram estar envergonhados e arrependidos, além de muitas outras lorotas.
E eu, assim como o resto da cidade e da humanidade, fiquei com aquela sensação esquisita que toma conta do nosso estômago quando o bandido vira herói (ou, como diriam ao mais intelectualóides, anti-herói).
Particularmente, sempre tive uma puta admiração por anti-heróis. Tudo que é ANTI me atrai, começando pelos anticoncepcionais.
Agora, independente de divagações acerca do arquétipo humano, uma coisa é fato: esse mundo se encontra, atualmente, de pernas abertas e cabeça para baixo.
Ou será que sempre foi assim, e as pessoas é que não reparavam?
Não, tenho certeza que não.
Houve um tempo em que os papéis estavam muito claros e bem definidos; ou se era uma coisa, ou se era outra: vilão ou mocinho, esquerda ou direita, Mao Tsé Tung ou Gucci.
Agora não.
As máscaras caíram e todo mundo deixou suas mil facetas à mostra, despudoradamente.
Seja boa ou má, não temos mais a capacidade de refrear nossa verdadeira essência e, ao menor descuido, vomitamos a nós mesmos, como o bêbado que vomita a cachaça barata que tomou pela manhã.
Vocês não têm essa impressão?
Eu mesma, se parar para pensar na minha vida e nas minhas atitudes, posso perceber claramente o quanto sou capaz de ser uma tremenda boa samaritana em determinadas situações, e o quanto me transformo no próprio demo encarnado em outras.
Quando vejo, fiz.
Pelo céu ou para o inferno.
Perigoso, perigoso...


Até já ouço o badalar dos sinos, lá longe.
E vocês sabem o que isso significa.