14 agosto 2008

Carta ao meu pai.

Querido pai;

Eu sei que algumas coisas nessa vida são óbvias: o céu é azul, o fogo queima, a água molha, um pai sempre vai amar seu filho, um filho sempre vai amar seu pai.
Mas vivendo em um mundo tão maluco como este em que vivemos, considerei prudente lhe enviar esta carta, para lhe dizer o que você já sabe, mas que sempre vale a pena repetir - porque é de verdade.
Domingo passado era o seu dia, não era?
Ao menos foi o que a televisão, cheia de propaganda e publicidade, me disse.
Me apresentaram mil promoções, mil opções de presentes capazes de “demonstrar todo meu amor”, celulares, roupas, coisas “com descontos imperdíveis para fazer seu paizão mais feliz”.
Eu não te dei nenhum presente.
Não aproveitei os descontos imperdíveis para te fazer um paizão mais feliz.
Mas sabe por quê?
Porque essa parafernália toda de dia dos pais, para mim, não vale nada. É somente um dia bobo, onde a maioria das pessoas tenta pincelar com presentes e cartões o amor por seu pai.
Eu não preciso disso, meu amigo querido.
Não, não mesmo.
Porque, a bem da verdade, procuro te presentear todos os dias, e com presentes realmente capazes de te fazer sorrir mais feliz:
Procuro te ouvir quando você fala; procuro fazer o que você me pede; estou trabalhando para que você possa se orgulhar de mim. Quando você faz o almoço, eu lavo a louça, e quando estou viajando, te ligo para avisar que cheguei bem. Antes de fazer ou tomar qualquer atitude, gosto de te ligar e perguntar o que você acha – e seguir o seu conselho, sempre. Gosto de te abraçar bem forte, e beijar suas bochechinhas imensas antes de você dormir. E quando estou do teu lado, não sei explicar: me sinto mais criança, mais frágil, já não sou a adulta cheia de marra que apresento para essa sociedade chatinha – da qual você não faz parte, porque não é igual, não é padrão, não é fabricado em série.
Do teu lado sou assim: eu mesma, sem máscaras.
Você nunca abusou da sua condição de pai para se fazer autoritário.
Nunca impôs suas opiniões, nunca foi intransigente.
Você nunca esteve no alto de um pedestal, carrancudo e ditando ordens – não!
Você sempre esteve do meu lado, me falando de igual para igual, perguntando o que eu acho, o que eu penso, qual a minha opinião.
Por isso cresci me sentindo forte; me sentindo amada, me sentindo protegida, a salvo.

Nossa pai, obrigada.
Muito obrigada por ser meu pai, por ser meu amigo, por ser meu protetor, meu guia, meu refúgio. Obrigada por sempre deixar a porta aberta, e por acreditar em mim.
Obrigada por me amar.
Obrigada por ser meu amigo sem nunca deixar de ser meu pai; por ser meu cúmplice quando deveria ser meu cúmplice e por acabar com a festa quando a festa estava na hora de terminar.
Obrigada por ir a todas as minhas apresentações da escola, e tirar fotos, e filmar, e ficar lá, babando, como o pai babão que você é.
Obrigada por deixar acesa a luz do corredor quando eu tinha medo do escuro.

Hoje é dia dos pais.
E amanhã, e depois de amanhã, e terça-feira que vem.
Porque você é meu pai todos os dias, e todos os dias é um grande pai.
Qualquer palavra que eu usar aqui acabará caindo no lugar-comum e na pieguice, pois tudo já foi escrito sobre pais.
Então, humildemente, para encerrar esta carta que é mais um testemunho do meu imenso amor por você, faço minhas as palavras de um cara porreta, chamado Vinicius de Moraes – que também deve ser pai, para entender de amor como entendia:
Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver!
Uma canção pelo ar,
Uma mulher a cantar,
Uma cidade a cantar,
a sorrir,
a cantar,
a pedir
a beleza de amar
Como o sol
Como a flor,
como a luz;
Amar sem mentir, nem sofrer
Existiria verdade
Verdade que ninguém vê,
Se todos fossem no mundo
Iguais a você.

Te amo, meu velho.
Mas te amo mesmo.