16 julho 2008

Síndromes e Pânicos

Contam os mais estudiosos que, certas pessoas, que passaram por algum trauma violento, podem desenvolver determinadas formas de fobias e reações, como a popular Síndrome do Pânico ou Síndrome do Stress Pós-Traumático.
O trauma violento eu enfrentei há pouco mais de um ano atrás e, quando terminou, acreditei realmente que havia passado por ele sem maiores danos; tinha certeza de que não havia restado nenhuma seqüela, nenhuma cicatriz.
Me enganei.
Alguns meses depois, quando tudo na minha vida já estava lindo e maravilhoso novamente, passei a sentir (não sei precisar exatamente quando) um medo absurdo, imenso, exagerado da morte.
Não exatamente da minha morte (e de tudo que eu não sei sobre ela), mas da morte das pessoas que eu mais amo: medo de perder meus pais, meu namorado, meu irmão, meus amigos, meu animalzinho de estimação. Medo de sentir dor, de sofrer, de ficar triste.
Medo, medo, medo.

Inicialmente, dissimulei.
Fingi que não estava acontecendo nada, que logo aquela maldita sensação de angústia e impotência iria passar – haveria de ser “só uma fase”.
No entanto passou-se um mês, dois, três, seis, e eu me dei por conta de que aquilo tudo não iria simplesmente terminar, como terminam as gripes e os resfriados, da noite para o dia.
A coisa ficava cada vez pior.

Então, eu encarei.
Me cagando, mas encarei.
Admiti: óquei, eu tenho um problema e preciso tratar de resolvê-lo.
Nada poderia ser pior do que sentir o que eu sentia, pensei.
Não dava para ter medo do medo.
Ainda mais o tempo inteiro.

Procurei ajuda médica, conversei muito sobre o assunto, tentei entender de tudo quanto foi jeito e até aos santos me apeguei.
Ouvi centenas de teorias.
Alguns culpavam a maconha, alegando que, a longo prazo, seu uso crônico tendia a desenvolver psicoses semelhantes as que eu sentia.
Outros garantiam que eu havia assistido filmes demais quando era criancinha, e estava impressionada.
Teve ainda quem dissesse que se tratava de problemas espirituais, e até um que sugeriu a ingestão de alguns comprimidos.

Do meu jeito, fui tentando entender o que estava acontecendo.
Poderia ser a maconha, os espíritos ou os filmes, mas havia ainda algo maior, que era meu.
Aquilo que eu sentia vinha de dentro de mim.
E eu precisava resolver.


Falo sobre o isso porque esses dias, assistindo tevê, ouvi um psicólogo dizendo algo que me fez parar para pensar e, posteriormente, concluir que era exatamente aquilo que se passava comigo.
De todas as teorias e possibilidades, era aquela, exatamente aquela que se enquadrava na minha situação.

Ele disse que algumas pessoas – principalmente às que passaram por um trauma – costumam desenvolver uma dependência emocional do sofrimento.
Parece um absurdo, mas acontece.
Não ficamos viciados somente em chocolate, nicotina e café; também criamos vínculos profundos com sentimentos ruins.

O fato é que acabamos nos acostumando a sofrer; logo, não sabemos mais viver longe do sofrimento.
Conhecem a história do preso que ganhou a liberdade mas não queria deixar o presídio?
Mais ou menos assim.

Bingo!
Percebi que era exatamente isso – nada mais, nada menos – que eu vinha fazendo, desde então.
Inventei um medo exagerado e idiota no qual me apegar, no momento em que minha vida se organizava, na hora em que a bonança chegava depois da tempestade.
Nossa mente é traiçoeira, e se não ficarmos espertos ela nos passa uma tranca.

Tal constatação foi fundamental para que eu pudesse enxergar, com mais clareza, alguns detalhes importantes do meu trauma.
E só por isso estou escrevendo sobre o assunto, e colocando meu problema a vista, para qualquer um ler.
Não para que morram de pena de mim – muito menos para que pensem “bem feito” - mas para mostrar que, muitas vezes, não conseguimos nos livrar daquilo que nos faz sofrer porque estamos dependentes deste sofrimento.
E como tal dependência se dá nos lugares mais remotos de nosso inconsciente, acabamos nem percebendo que não nos livramos da dor porque precisamos dela.

Foi isso que aconteceu comigo.
Mas com você talvez aconteça diferente.